“Guerra e Paz” é o título da obra-prima de
Leon Tolstói. Poderia também ser o título desta entrevista com o ex-governador
Renato Casagrande. Senador eleito pelo Espírito Santo, o líder estadual do
esquerdista PSB voltará em fevereiro à Câmara Alta, onde já esteve por quatro
anos, de 2007 a 2010, durante o segundo mandato de Lula (PT), apoiado pelo PSB
e pelo próprio Casagrande. Era um contexto muito diferente: Lula tinha maioria
no Congresso.
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Agora, após o “milagre eleitoral” do último
domingo, o presidente governará com um Congresso muito mais hostil, notadamente
no Senado. É a este Senado que Casagrande voltará, dessa vez integrando a
minoritária bancada governista. Com que espírito ele irá para Brasília? O
próprio ex-governador responde:
Vou procurando a paz, mas também preparado para a guerra, para os
temas que signifiquem um retrocesso.
Renato Casagrande (PSB), senador eleito e ex-governador
Na entrevista abaixo, livre das “amarras
governamentais” de quem esteve no Palácio Anchieta por quase oito anos (quase
12, no total), Casagrande já deixa aflorar sua faceta mais parlamentar,
mostrando-se mais vocal em suas críticas ao bolsonarismo. Já não tem as
limitações inerentes ao cargo, o cuidado necessário com as palavras quando se é
governador (ou candidato).
“Diversos senadores eleitos são senadores que têm uma posição política
muito retrógrada, atrasada e fascista. Então, pode ser que surjam medidas que
exijam um embate e um combate mais veemente.”
Renato Casagrande (PSB), senador eleito e ex-governador
Nos últimos dez anos, desde a ascensão de Jair
Bolsonaro, entrevistei Renato Casagrande centenas de vezes. Nunca antes o tinha
ouvido usar o termo “fascista” para se referir à extrema-direita brasileira que
se concentrou no bolsonarismo.
Leia a entrevista completa:
Governador, o que o senhor espera em termos de ambiente político no
próximo Congresso, nesse próximo Senado especificamente, dentro do plenário? O
senhor espera conciliação ou aprofundamento dos embates? Está indo para o
Senado preparado para a paz ou para a guerra?
Preparado para a guerra, mas procurando a paz.
Nós temos que estar preparados para a guerra porque tem algumas propostas que
podem surgir no Congresso Nacional, que diversos parlamentares, mas falando do
Senado, diversos senadores eleitos, são senadores que têm uma posição política
muito retrógrada, atrasada e fascista. Então, pode ser que surjam medidas que
exijam um embate e um combate mais veemente. Vou procurando a paz, mas também
preparado para a guerra, para esses temas que signifiquem um retrocesso.
O senhor cita algum exemplo de possível medida retrógrada nesse
sentido?
Não, não me vem nada na cabeça, mas a gente
pode esperar tudo. A gente pode esperar tudo, porque o Congresso ficou muito
conservador. Essa posição conservadora e reacionária do Congresso pode ser, em
um grau, amenizada, dependendo do desempenho do governo do presidente Lula e
dependendo da força da família Bolsonaro. Porque o motor dessas posições
políticas reacionárias é a família Bolsonaro. Se a família Bolsonaro se
enfraquecer, esse ímpeto reacionário também pode se reduzir no Congresso.
Aliás, governador, pode até ser uma avaliação precipitada, mas, com
essa segunda e fragorosa derrota eleitoral da família Bolsonaro, a primeira com
o próprio patriarca, em 2022, agora com o filho 01, uma surpreendente derrota
nas urnas por mais de 4 milhões de votos de vantagem para o Lula, muita gente
já está dizendo que acabou o bolsonarismo, ou que o bolsonarismo desmoronou. O
senhor acha que é cedo para fazer essa análise?
Acho que não “desmoronou”, mas tem um
enfraquecimento, porque o bolsonarismo tem a capacidade de sequestrar a alma de
algumas pessoas. Então não podemos dizer que acabou, mas que a derrota do
Bolsonaro, a derrota do Flávio, o envolvimento da família Bolsonaro em diversos
temas que estão investigados hoje, pode, sim, caminhar com o enfraquecimento
deles.
Só para deixar claro, quando a gente fala em “bolsonarismo”, a gente
está se referindo à extrema-direita que ganhou muita força no Brasil nos
últimos anos e que encontrou vazão e tração na família Bolsonaro, certo?
Encontrou muita força no Brasil, muita força
no Espírito Santo, e que muitas pessoas que se julgam de direita, que são de
direita, acabaram sendo puxadas e engolidas por essa posição bolsonarista,
porque são coisas diferentes. A possibilidade do enfraquecimento do
bolsonarismo pode fortalecer uma direita racional, que é o que a gente deseja
na política.
O senhor acha que essa é uma boa oportunidade histórica, talvez única,
para a direita mais equilibrada, moderada, sensata, liberal na economia,
democrática de verdade, fazer essa autocrítica, essa revisão?
Aproveitar esse momento de derrota e enfraquecimento do bolsonarismo para se
reorganizar e fazer uma correção de rota?
Acho que sim. Tudo o que a gente sonha no
Brasil é o retorno de um embate político equilibrado, racional e respeitoso. O
bolsonarismo raiz levou a um nível inaceitável de agressividade, de desrespeito
nas relações políticas. Então, talvez seja uma oportunidade da direita clássica
se reposicionar e construir um projeto que seja um projeto que possa criar
expectativa real para os brasileiros. Não dá para a gente ficar nesse embate político
e nessa violência política que tem caracterizado essas últimas eleições, onde
as pessoas não veem o resultado do trabalho, só veem as questões ideológicas. Então,
a gente tem que voltar a focar no resultado dos trabalhos.
Governador, e quanto à esquerda? Agora eu inverto a pergunta, propondo
essa autocrítica também ao campo progressista. No último domingo, o presidente
Lula, empurrado pelo povo brasileiro, protagonizou um feito histórico, primeira
virada da história das eleições presidenciais no Brasil, na era democrática
atual, mas no primeiro turno ele tomou um grande susto, ao chegar atrás. Há muitas
críticas relacionadas à condução do governo, por exemplo, na economia e
particularmente na área de segurança pública. O senhor acha que também cabe essa
autocrítica? A esquerda e o próximo governo do PT também precisam mudar?
Precisam mudar. Eu já falei isso em outro
momento. Precisam mudar. O governo precisa apontar na direção de conquistar a
confiança, uma confiança maior dos brasileiros. E, para conquistar essa
confiança, tem que apontar na direção de ter o equilíbrio das suas contas. Não é
um equilíbrio que você conquiste em quatro anos, mas tem que demonstrar com
clareza que está buscando esse equilíbrio para que o Brasil não fique
eternamente com dívida pública alta, com incapacidade de fazer investimento, de
enfrentar seus desafios. Então o Lula tem mais uma oportunidade, talvez, na vida
dele, a última oportunidade como presidente da República de, além de ter
salvado a democracia por duas vezes, como disse o nosso vice-presidente Geraldo
Alckmin, na hora que derrotou o Bolsonaro e na hora que derrotou o Flávio... Além
de ter salvado a democracia, ele pode sim dar um exemplo de busca de um
equilíbrio fiscal, dar um exemplo de consolidar um sistema nacional de
segurança pública. Ele está tentando, é bom que a gente diga, aprovar a PEC da Segurança. Então é preciso fazer uma autocrítica,
até porque é o último mandato dele.
A PEC da Segurança terá o seu apoio se ficar para a próxima legislatura no Senado?
Terá o meu apoio.
Na sua avaliação, essa foi a eleição mais importante da longa
trajetória do presidente Lula? O senhor disse que ele salvou de novo, pela
segunda vez, a nossa democracia. Foi a eleição mais importante da vida dele
para o país?
Olha, Vitor, é muito ruim a gente avaliar dois
fatos com distância temporal, está certo? Se você me perguntasse isso em 2022,
eu diria que seria a mais importante. Essa eleição
teve a sua importância grande porque ela foi uma virada. O Lula reorganizou a
campanha no segundo turno e mobilizou a população brasileira. Talvez a gente
possa dizer que essa tenha sido a mais importante pelo risco da derrota e pela
virada dele. Então, sim, posso dizer que talvez tenha sido.
O senhor também mencionou, de passagem, a necessidade de uma
reorganização e uma articulação, inclusive, já visando à sucessão do presidente
Lula em 2030. O senhor defende o Alckmin com protagonismo nesse projeto?
Olha, o Alckmin é uma pessoa extraordinária. Ele e Lula têm uma sintonia muito forte. O Alckmin é uma pessoa boa. Não tem jeito de você ter um bom político se não tiver uma boa pessoa. O Alckmin é uma excelente pessoa e um excelente líder. Ele, sem dúvida, é uma pessoa que está preparada. Mas nós ainda não acumulamos isso. O presidente Lula vai começar o mandato. Vamos ver o papel que o Alckmin vai cumprir. Vamos ver novas lideranças que possam surgir também nesse campo progressista. Então, está cedo para a gente ficar carimbando uma ou outra figura.
O Lula protagonizou esse feito histórico no
último domingo, mas ele terá que conduzir o seu próximo mandato sob condições
políticas muito adversas, convivendo com um Congresso muito hostil, sobretudo
no Senado, onde a oposição de direita, até de extrema-direita, terá ampla
maioria. Como senador do PSB, o senhor estará em posição minoritária. Será um dos poucos aliados com
quem Lula poderá contar na bancada governista. Eu lhe pergunto, portanto: qual
é exatamente a participação que o senhor acredita que lhe competirá como aliado
do governo? De que maneira pretende ajudar o governo Lula no Senado,
considerando essa nova correlação de forças e a necessidade de muita negociação
política para aprovar medidas do governo e eventualmente barrar investidas da
oposição?
Olha, só na última segunda-feira comecei a
pensar no mandato do Senado, porque eu ganhei a eleição no Senado, mas já me
envolvi imediatamente na eleição de Ricardo. Então, eu não tinha parado para
pensar. Mas desde ontem, então, aqui com a minha
equipe mais próxima, começando a pensar, liguei para os dois senadores do PSB
que foram eleitos agora, o João Azevedo e o Cid Gomes, comecei a fazer meus
contatos já com lideranças nacionais. Além deles, temos outra senadora do
partido, a do Maranhão, que era suplente de Flávio Dino. Acho que nossa tarefa
vai ser uma tarefa de ajudar na articulação política do governo com o Senado,
barrar qualquer medida irracional, fazer a ponte entre partidos políticos. A gente
precisa ter capacidade de dialogar com senadores que são equilibrados, mas que são de direita. Acho que esse é o papel que vou exercer, como sempre exerci
nos outros mandatos parlamentares que já cumpri. Então, um papel mais de articulação interna e na relação com o governo e do Senado com sociedade.
Ouvindo o senhor ao longo desta entrevista, tenho a impressão de já
voltar a ouvir aquele Casagrande mais "parlamentar". Percebo já um afloramento
daquele homem público de centro-esquerda, líder regional e até nacional do PSB,
mais vocal, inclusive, nas críticas e ressalvas à extrema-direita e à família
Bolsonaro. Ao passo que, como governador, é claro, o senhor tinha uma série de
limitações, no que podia ou devia dizer, até por governar à frente de uma
frente ampla que tinha também forças de direita, não de extrema-direita, mas
partidos de direita. Na própria campanha ao Senado, o senhor foi contido nesses
posicionamentos. Agora a eleição passou e, na primeira semana após o pleito, eu
percebo um Casagrande mais parlamentar. É isso mesmo, governador? A gente vai
ver o senhor lá no Senado voltando a ser esse homem público mais vocal de
centro-esquerda?
A minha posição sempre foi essa de
centro-esquerda: uma liderança progressista de centro-esquerda, com capacidade
de dialogar com a esquerda e com a direita sem nenhuma dificuldade. Agora, o
exercício do mandato de governo, de fato, exige que você tenha um equilíbrio
muito maior, um cuidado muito maior com as palavras. Como parlamentar, você tem
mais liberdade de se expressar. Naturalmente, enfrentei agora uma campanha onde
eu tinha um candidato a governador que eu também tinha responsabilidade na
condução, no desempenho dele. Então, tive também que tomar todos os cuidados em
termos da forma como eu iria me expressar e o que me expressar. Mas pode ser
que, passado o processo eleitoral, você tenha percebido isso e talvez seja
verdade, mas em nenhum momento faltou respeito nas minhas colocações. Sempre foram
muito respeitosas. Mas agora tenho a liberdade maior de quem não tem mais a
necessidade da governabilidade.
Volta à cena aquele Casagrande mais crítico e
mais combativo a uma direita extremista?
À extrema-direita. À irracionalidade. Crítico
à irracionalidade.
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