Enquanto começa a construir o próprio grupo político no Espírito Santo, o deputado federal Felipe Rigoni (PSB) parece cansado do grupo político que comanda Brasília e o Brasil desde 2019. Na segunda parte da entrevista concedida por ele à coluna na última terça-feira (9), o deputado afirma, categoricamente, que “o governo Bolsonaro não funciona” – com três louváveis exceções feitas por ele: o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, a da Agricultura, Tereza Cristina (DEM), e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. “O resto é ruim”, sentencia Rigoni, que acrescenta adjetivos como “ineficaz” e “disfuncional” para definir o governo Bolsonaro e sua equipe.
Rigoni não poupa nem sequer o ministro da Economia, Paulo Guedes, incluído pelo deputado em uma nada gloriosa lista de ministros que ele trocaria na hora se fosse o técnico do time. Liberal por formação e convicção, Rigoni diz, sem titubear, que substituiria Guedes por Campos Neto, apesar de admirar a inteligência do atual ministro, pois, na sua avaliação, “Guedes não está conseguindo liderar o ministério direito”.
De acordo com Rigoni, que não se considera de oposição, “está difícil” citar o maior acerto do governo Bolsonaro. O presidente “não tem liderança” e “não lidera a máquina pública para andar”. Seu maior erro, segundo o deputado, acima de outros que ele prefere nem elencar, foi a negligência demonstrada desde o início quanto à aquisição de vacinas contra o novo coronavírus. No saldo final, condensa Rigoni, “estamos perdendo muita coisa, muito dinheiro, por causa de coisas básicas”.
A paralisia e a inoperância do governo, avalia o deputado, não podem ser imputadas ao Congresso – diferentemente do que alegam correntes bolsonaristas. Pelo contrário, sustenta Rigoni, o Congresso ajudou muito o governo durante a presidência de Rodrigo Maia (DEM), inclusive após o início da pandemia, apesar das vocalizadas diferenças entre Bolsonaro e o ex-presidente da Câmara Federal.
Para o deputado, a política brasileira está à beira do caos, confirmando um temor que ele mesmo expressou à coluna em uma primeira entrevista, logo após ter sido eleito para esse primeiro mandato em 2018.
Confira abaixo a segunda parte completa da entrevista de Felipe Rigoni:
Na primeira entrevista que me deu, logo após ter sido eleito, no fim de 2018, o senhor me revelou seu receio de que o Congresso virasse um caos. Esse seu medo inicial se concretizou?
(Risos) Se não se concretizou, está bem próximo (risos). Não é o Congresso. É a política nacional que está um caos. A decisão do Fachin [de anular condenações de Lula na Lava Jato] incendeia muito o jogo político. Torna as coisas ainda mais inflamadas. E, num momento como este, a gente precisava de organização e foco. Foco para resolver o que precisa se resolver na pandemia, que é a vacinação, o auxílio emergencial e o equilíbrio fiscal junto. Precisamos de várias reformas, como a administrativa e a tributária. Precisamos tentar começar a sair dessa, porque estamos com um número de mortes muito grande, e só a vacinação vai atenuar muito, para a gente começar a voltar a um nível econômico razoável, e aí as reformas dariam um ânimo a mais nos investimentos. Mas eu não percebo isso acontecendo com tanta clareza.
Na passagem de bastão de Rodrigo Maia para Arthur Lira, o senhor percebe uma guinada em termos de agenda? Qual é a nova inclinação no direcionamento da pauta da Câmara?
Não percebo uma guinada em termos de agenda. Ainda estamos tentando entender como é que será de fato a presidência do Arthur. Naturalmente, é uma presidência bem mais alinhada com o Bolsonaro. Teve problemas recentemente porque tentou votar uma PEC absurda, que foi a PEC da impunidade. Mas pautou para esta semana a votação da PEC emergencial, com o auxílio emergencial, o que é um ótimo sinal.
Quais os maiores acertos e os maiores erros do governo Bolsonaro até agora?
Rapaz… Maiores acertos está difícil, viu? Para ser muito sincero.
Nem na área econômica?
É, acertou, mas depois… Olha, tem dois ministérios que funcionam no governo: o de Infraestrutura e o de Agricultura. E o Banco Central funciona, apesar de não ser um ministério. Ponto. O resto é ruim. Eu não estou dizendo ruim por uma questão ideológica. Não funciona. As coisas não andam. A maioria dos ministérios é ineficaz, disfuncional. Veja o que está acontecendo no Ministério da Saúde. É ridículo! No Ministério da Educação, o negócio não funciona. E por que isso acontece? Não tem liderança. O Bolsonaro em si, e vou deixar de lado uma série de outras críticas que poderia fazer, ele não lidera a máquina pública para andar, para fazer as coisas.
Fica alheio à própria administração e às responsabilidades que ele, até constitucionalmente, deveria assumir, por dever de ofício?
Exato. Então ele não motiva os servidores públicos para trabalharem, como é função do presidente e de seus ministros. Aí fica muito difícil, sabe? E, mesmo agora, tendo base no Congresso, a gente precisa olhar o seguinte: muita gente fala “ah, ele não tinha base na época do Rodrigo [Maia]. Mas nós votamos a reforma da Previdência, a lei da liberdade econômica, o novo marco legal do saneamento básico, o pacote anticrime, a lei do gás, a lei de cabotagem, todas coisas muito importantes, que não vieram apenas do governo dele. Obviamente, o governo ajudou. Mas, mesmo sem que o governo tivesse uma base, o Congresso ajudou o governo o tempo inteiro. Então acho que falta execução e gestão mesmo.
Hoje o senhor se considera oposição ao governo Bolsonaro?
Eu não me considero oposição, apesar de eu criticá-lo muito. Por que eu não me considero oposição? Porque acho que, no momento em que vêm coisas importantes, como a PEC emergencial, aí eu vou apoiar, eu vou pra cima, vou ajudar. Não tenho uma atitude de ser contra tudo porque veio do governo. Mas tenho criticado muito a gestão do Bolsonaro.
E, voltando à minha pergunta anterior, qual foi o maior erro dele até agora?
O maior erro dele até agora é o que ele está fazendo com as vacinas. Está mais do que confirmado que a Pfizer ofereceu para o Brasil 70 milhões de doses em agosto. Se isso tivesse acontecido, a gente teria começado a vacinar a população em dezembro. Já teríamos cerca de 40 milhões de pessoas vacinadas. Com certeza não estaríamos passando pelo que estamos passando agora. Isso para mim é, de longe, o maior erro dele.
O senhor mencionou que só dois ministros podem ser considerados eficientes em toda a Esplanada dos Ministérios. Quais ministros não mostram a menor condição de ocupar os cargos que ocupam? Quer dizer, se o senhor fosse o técnico, em quem mexeria urgentemente?
Urgentemente, na Saúde, na Educação, no Meio Ambiente... Também trocaria o da Cidadania, mas isso Bolsonaro já fez. E eu mexeria no Ministério da Economia. Eu colocaria o Campos Neto, no mínimo. Acho ele um cara mais efetivo que o Guedes. Apesar de admirar a inteligência do Paulo Guedes, mas eu não acho que ele esteja conseguindo liderar o ministério direito.
O senhor pensa que chegou a hora de o Paulo Guedes ser substituído?
Depende por quem. Se o Campos Netos for o substituto, certamente. E eu também mexeria com certeza…
No Itamaraty?
Itamaraty, nossa! Demais. (risos) Nós estamos perdendo muita coisa, muito dinheiro, esse é que é o problema, por causa de coisas básicas.
É o chamado “custo Bolsonaro”, como começou a circular nas redes sociais?
É o custo da má gestão.