Até a vitória da chapa de Jair Bolsonaro e de Hamilton Mourão na eleição presidencial de 2018, o que mais se destacava eram as semelhanças entre os dois – as mesmas que na certa levaram o capitão a convidar o general para ser o seu candidato a vice-presidente. Mas, uma vez iniciado o governo Bolsonaro, em janeiro de 2019, as diferenças entre ambos é que ficam mais evidentes a cada dia. Tais diferenças se manifestaram, por exemplo, na palestra de Mourão feita em Vitória, no último dia 2, durante o Summit, evento promovido pela Rede Gazeta.
A visão de país e de governo exposta pelo vice-presidente não tem praticamente nada a ver com a do seu superior hierárquico (não no Exército, mas na estrutura de comando do Planalto). Seu discurso elencando as prioridades do país neste momento se choca frontalmente com ações e falas de Bolsonaro, com relação à economia, à pandemia, à ecologia, entre outras áreas. Parecem fazer parte de governos diferentes.
Antes e durante a campanha de 2018, Mourão sustentou algumas ideias que representavam um flerte aberto com o autoritarismo político e que convergiam com as de Bolsonaro: “intervenção militar”, “autogolpe”, “constituinte formada por 'notáveis'”... ideias que ele mesmo com certeza jamais admitiria se tivessem partido, por exemplo, de governantes de esquerda, ou de quaisquer adversários políticos instalados no poder. Mas, da parte de Mourão, esse discurso morreu ali.
Passada e vencida a eleição, o general reformado mudou completamente de postura: desceu do palanque, abandonou as bravatas autoritárias, adotou um discurso politicamente moderado e um comportamento institucional (ou “presidencial”, como diriam os americanos); sempre que indagado, reitera seu respeito à democracia e o valor das instituições democráticas, inclusive a imprensa. Por sinal, mantém com esta uma relação cordial, respeitosa e civilizada.
Bolsonaro fez e continua fazendo exatamente o oposto do seu vice. No lugar de uma inflexão e da adoção de postura e discurso mais equilibrados, passou a radicalizar ainda mais nos gestos e falas uma vez instalado na Presidência. E continua, obstinadamente, a tocar fogo como pode em um país que clama pelo fim da queimada (ou queimação) política.
As diferenças fundamentais entre Mourão e Bolsonaro vão muito além do fato de o vice-presidente ser um autêntico torcedor do Flamengo – enquanto Bolsonaro, repetindo o truque mais velho do manual do populista, veste a camisa do rubro-negro carioca eventualmente, como faz com a de outros times populares, só para angariar prestígio junto às respectivas torcidas.
Distintamente de Bolsonaro, Mourão expressa grande respeito à ciência e ao conhecimento formal – até porque as Forças Armadas na verdade ajudam a desenvolver a ciência no país, com seus institutos e academias de ponta. Para chegar a general quatro estrelas do Exército, o militar tem que estudar absurdamente e fazer uma série de cursos de aperfeiçoamento ao longo da carreira, como é o caso de Mourão (fluente em inglês, por exemplo, enquanto o capitão de curta e conturbada passagem pelo Exército por vezes se atrapalha com a língua-mãe).
Mourão é, obviamente, muito mais culto que Bolsonaro. Em seu discurso no Summit, ele deu uma aula sobre a história da China e como o país asiático tornou-se a potência econômica que é hoje. Ao destacar a vantagem estratégica do Brasil por ter uma extensa costa “com saída limpa para todos os mares”, regalou ao público uma aula de geografia, citando de cabeça todos os obstáculos geográficos que um almirante chinês terá pela frente ao tentar acessar qualquer oceano, seja qual for a direção que ele tome (Coreia, Japão, Malásia etc.). Parecia um estrategista militar brincando de jogos de guerra com as miniaturas de navio no mapa-múndi.
Mas não é só uma questão de cultura. O discurso de Mourão rima não só com moderação, mas, acima de tudo, com pacificação. Quem o ouve falar pensa: esse cara busca conciliação. Seu discurso contém, inclusive, acenos para a oposição e para forças políticas de centro-esquerda.
ACENOS PARA ADVERSÁRIOS
Em seu pronunciamento em Vitória, sem nominar o ex-presidente FHC, o vice-presidente elogiou bastante o Plano Real: “Domou o dragão da inflação. E passamos a ter uma moeda. Hoje sabemos perfeitamente qual é o valor dessa moeda”. Enquanto isso, Bolsonaro trata até hoje FHC como um “inimigo comunista”. Como deputado, em 1999, chegou a defender o fuzilamento do então presidente.
Ainda em seu discurso na capital capixaba, após ter almoçado com o governador Renato Casagrande (PSB), Mourão fez menção elogiosa ao Espírito Santo, por sua excelente colocação no ranking do Ideb (índice oficial que mede a qualidade da educação básica no país inteiro).
Em agosto do ano passado, em reunião com Casagrande no Palácio da Fonte Grande, o vice-presidente já havia feito comentários positivos sobre o Estado Presente, programa do governo estadual voltado para o combate à violência, pelo êxito, ao longo da última década, em reduzir os indicadores de homicídios no Espírito Santo. Na ocasião, Mourão chamou o Espírito Santo de “exemplo para o restante da federação” nesse quesito.
Enquanto isso, desde a pré-campanha de 2018, Bolsonaro ainda nem sequer pisou no Estado governado por um político de centro-esquerda. Em seu programa de governo, apresentado em 2018, está escrito que, em Estados governados pela esquerda, a violência só cresce.
Também não foi nem um pouco gratuito que Mourão tenha aberto a sua palestra com uma referência ao seriado “The Handmaid's Tale” (“O Conto da Aia”), que passa uma mensagem feminista, causa muito mais associada à esquerda. Menos casual ainda que ele tenha encerrado sua palestra com uma citação do poeta espanhol Antonio Machado. “Caminhante, não há caminho. Faz-se o caminho andando”.
Perseguido, como muitos artistas, pela ditadura fascista (de extrema-direita) instaurada pelo generalíssimo Francisco Franco após a guerra civil espanhola, Machado morreu no exílio, em 1939.
“Todos terão que ceder em algum ponto para que o conjunto vença”, preconizou Mourão.
ENQUANTO ISSO...
Enquanto Mourão apregoa a pacificação, Bolsonaro parece só entender e praticar a linguagem da guerra política, antes e durante o exercício da Presidência. Politicamente, forjou-se na confrontação de adversários (reais ou nem tanto). Sempre se alimentou das polêmicas inúteis e dos conflitos gratuitos que só serviram para lhe dar palanque e mídia como deputado. Eleitoralmente, deu certo.
Porém, uma vez eleito presidente, teria como grande missão, talvez a maior de todas, não só governar para todos como também pacificar politicamente um país que já vinha esgotado após tantos anos de tensão e de divisão política. Em vez disso, esforça-se em fazer justamente o contrário: manter o país em permanente clima de tensão e de divisão. No lugar de conciliação, suas ações e falas parecem sempre visar ao tensionamento das relações políticas e sociais.
Como político forjado na violência, o nosso presidente só semeia guerra – ou, literalmente, “pólvora”. Em novembro, num ridículo rompante que beirou a caricatura, chegou mesmo a cogitar expressamente o uso de “pólvora” contra os Estados Unidos, só porque o povo do norte elegeu um candidato que não era o preferido dele: “Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”.
“Saliva” é metáfora para diplomacia, certo? Qual diplomacia? Sob o olhar conivente do pai, seu filho 03, Eduardo Bolsonaro (já chamado por Mourão de “Bananinha”), continua gerando atritos a troco de nada com a China, nossa maior parceira comercial.
Em outra mostra da renitente beligerância, sempre sem apresentar a mínima evidência do que diz, Bolsonaro continua falando que houve fraudes na eleição que ele mesmo venceu em 2018 e, não satisfeito, deu para sugerir a ocorrência de fraudes nas eleições dos outros.
Em síntese, eu diria que a diferença essencial entre Bolsonaro e Mourão, hoje, é a mesma diferença que existe entre a guerra e a paz.