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Vitor Vogas

Desafio presente para Ricardo: “Agora é o futuro”, mas o passado é de Casagrande

A estratégia de colagem de imagem, se passar do ponto, pode denotar dependência, subordinação, falta de autonomia e de brilho próprio. Pode deixar Ricardo à sombra de Casagrande

Publicado em 19 de Agosto de 2026 às 05:00

Públicado em 

19 ago 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Convenção do PSB confirma candidatura de Casagrande ao Senado
Casagrande e Ricardo Ferraço: de quem é a luz?
Rodrigo Zaca

“Agora é o futuro”. Entre aspas, o nome oficial da coligação liderada pelo atual governador, Ricardo Ferraço (MDB). A questão que se impõe a Ricardo – e o grande desafio, a meu ver – é: como fazer uma campanha que se projeta para o futuro remetendo o tempo todo a um passado recente, a um governo que já se encerrou e que não foi liderado por ele?

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A reflexão aqui tem muito a ver com os papéis correspondentes. No governo Casagrande, Ricardo teve um papel importante, mas menor. Na campanha de Ricardo, Casagrande terá na certa, e já está tendo, um papel muito importante... mas também será menor?


Por um lado, é evidente que Ricardo precisa muito da força de Casagrande, não pode abdicar desse empurrão do ex-governador com as duas mãos em suas costas.


Ao longo dos últimos anos, todas as pesquisas de institutos sérios, inclusive a última da Quaest para a Rede Gazeta, publicada em julho, mostram um Casagrande muito bem avaliado como governador e favoritíssimo na eleição para o Senado no Espírito Santo. Na Quaest de julho, 79% aprovavam o último governo Casagrande e 59% avaliavam que “ele merece eleger um sucessor que ele indicar”, mas só 25% sabiam que Ricardo é o candidato dele.


Por outro lado, essa estratégia de colagem de imagem, se excessiva, isto é, se passar do ponto, pode denotar dependência, subordinação, falta de autonomia e de brilho próprio. Pode deixar Ricardo à sombra de Casagrande e inspirar desconfiança.


Além disso, como já vem indicando em seus discursos eleitorais desde a pré-campanha (“mesmo rumo e mesmo ritmo”), Ricardo fará uma campanha muito baseada na defesa do legado e no portfólio de realizações do “nosso governo”.


Mas vamos combinar que, para grande parte das pessoas, quando Ricardo diz “o nosso governo”, mesmo que o possessivo o inclua, o que vem à mente é o governo Casagrande.


Foi Ricardo partícipe do último governo Casagrande? Foi. Cumpriu papel de relevo e de destaque? Cumpriu. Foi um papel por certo muito importante, mas foi um papel menor. Terá sido, no máximo, um coadjuvante de luxo (em inglês, um bom supporting actor, sempre pronto a dar apoio e, literalmente, suporte a Casagrande).


Tendo sido um bom coadjuvante, poderá ele reivindicar crédito pelo êxito da peça? Não tendo sido o protagonista do governo recém-encerrado, poderá assumir e exercer o protagonismo da própria campanha?  


Com pouco mais de quatro meses entre a posse e a campanha – e sendo ele o sucessor e o candidato de Casagrande –, nem deu tempo de Ricardo fixar uma “marca própria” de governo, muito menos de a população capixaba em geral assimilar uma mudança de guarda de fato no Palácio Anchieta. “Acabou nada”, diz o jingle de Casagrande em sua campanha ao Senado. É possível que, para muita gente, o governo Casagrande ainda nem tenha acabado de fato.


Vamos combinar 2: por mais que Ricardo tenha sido vice-governador por 39 meses, secretário de Desenvolvimento por 25 meses e sócio político importantíssimo do governo Casagrande III, o portfólio de realizações apresentado pelo emedebista é, por evidente, o portfólio de Casagrande, acumulado desde que o socialista voltou ao Palácio Anchieta para seu segundo mandato, em janeiro de 2019. Não é um fichário que traga o nome do próprio Ricardo na capa. 

Máscaras de Ricardo Ferraço e Renato Casagrande
Máscaras de Ricardo Ferraço e Renato Casagrande Rodrigo Zaca/Divulgação

Ricardo versus Pazolini

Na comparação de resultados, Ricardo larga com uma vantagem em relação a Lorenzo Pazolini (Republicanos), mas também com uma desvantagem.


O duelo direto entre os dois será o duelo das realizações de um em Vitória contra as realizações do outro (mas não propriamente do outro) em escala maior, no governo do Espírito Santo.


Pela primeira vez na história, temos o até outro dia prefeito de Vitória disputando o Palácio Anchieta com o atual incumbente. Nesse sentido, a disputa entre eles tende a ser uma disputa da cartela de bons indicadores de Vitória, exposta por um candidato, contra a cartela de bons indicadores de todo o Espírito Santo, exibida pelo outro.


Guardadas as devidas proporções – e ressalvada a velha estratégia de pôr na mesa de centro o que é bom e o que não é tão bom dentro do armário –, os dois de fato terão dados e indicadores positivos para ostentar.


Nesse aspecto, por governar um ente maior, Ricardo possui uma incontestável vantagem.

Se Vitória é “a capital de todos os capixabas”, como celebra um dos slogans de Pazolini, a capital não é uma ilha aparteada do resto do estado do qual vem a ser sede política.


Se o prefeito encher o peito para cantar que os “índices de homicídios de Vitória têm caído a tal percentual nos últimos anos”, Ricardo poderá redarguir “sim, têm caído progressivamente em todo o Espírito Santo, inclusive na Capital, graças principalmente ao trabalho das nossas forças estaduais de segurança” etc.


Por outro lado – e aqui a grande vantagem de Pazolini –, o ex-prefeito de Vitória sempre poderá dizer que os resultados positivos alcançados ou atribuídos à Capital nos últimos cinco anos têm nele, na pessoa dele, o principal responsável. Ricardo já não poderá dizer o mesmo com relação aos resultados estaduais.


Prometer um futuro melhor com uma campanha muito baseada num passado recentíssimo que não “pertence a ele” poderá ser um pouco complicado... mais ainda se a figura de Casagrande se fizer onipresente na campanha.


Resumindo: o desafio de Ricardo é o de alguém que, na realidade, já é o governador de fato e de direito, mas na prática é enxergado como o “candidato à sucessão” de Casagrande (como se este ainda fosse o incumbente). É o de pleitear a “sucessão de Casagrande” já o tendo sucedido e já sendo, a rigor, seu sucessor.

Renato Casagrande coloca a faixa de governador em Ricardo Ferraço (02/04/2026) Carlos Alberto Silva

A síntese formulada

Exatamente por isso, desde os intensos meses de pré-campanha, por certo sob orientação de estrategistas e marqueteiros, Ricardo tem martelado a tecla de que seu governo será de “continuidade com aprimoramento” em relação ao governo do seu antecessor.


Não mais do mesmo, mas um governo de manutenção do que está dando certo (o “municipalismo”, a responsabilidade fiscal, o bom nível de investimentos sociais e em infraestrutura) e, ao mesmo de tempo, de avanço e aceleração.


Essa conciliação é condensada no slogan cunhado por sua equipe de marketing e recém-adotado: “É daqui pra melhor”. Síntese de “agora tá bom, mas comigo ficará ainda melhor”. Eis a promessa central do candidato.


“Me proponho a ser continuidade. Mas continuidade não é continuísmo. Continuidade é você avançar, e avançar com velocidade”, disse Ricardo, por exemplo, num jogo semântico, em entrevista concedida na noite de terça-feira (18) a um portal e uma emissora de TV.


Na mesma oportunidade, ao discorrer sobre segurança pública, disse o atual mandatário: “No nosso governo agora, junto com o governador Renato Casagrande [...]”. A forma de tratamento, é claro, é uma deferência a Casagrande, a quem Ricardo já chamou de “eterno governador” em vários discursos desde a transição entre eles, em março. Mas alimenta a pergunta: quem é o governador, afinal?


Outro ponto sublinhado por eles é que, com Ricardo reconduzido ao cargo, os capixabas não perderão nem sequer um segundo, porque ele já está no cargo e porque já tem dado sequência natural à obra de Casagrande desde que assumiu no começo de abril, numa passagem de bastão muito suave, como a de uma boa equipe de velocistas numa prova de revezamento: o corredor da frente já está dando as primeiras passadas ao esticar a mão para trás para receber o bastão do companheiro; assim que a passagem se completa, ele sai em disparada.


É uma “transição em movimento”.


Não por acaso, desde antes dessa transição, os dois têm repetido o mantra de que Ricardo manteria e manterá o Estado “no mesmo rumo e no mesmo ritmo”. Com Ricardo já governador, em cerimônias públicas, Casagrande passou a dizer que o aliado provou que ele estava certo em sua escolha, pois o Estado de fato “não parou um segundo” e seu sucessor, ao contrário, “passou a acelerar ainda mais”.  


Já no discurso que fez na convenção estadual do MDB, em 5 de agosto, afirmou Casagrande à multidão:


“Alguém aqui gosta de perder tempo? Ninguém gosta de perder tempo! A entrada de Ricardo Ferraço já demonstrou que nós não perdemos nem um minuto do nosso tempo. [...] É por isso que [é] a continuidade com aperfeiçoamento. Ricardo Ferraço é a segurança, a certeza, a confiança que nós temos de que este estado não vai perder o rumo e não vai perder o ritmo. É daqui pra melhor!”


Curioso que na frase “Com Ricardo, nós não perdemos tempo”, de Casagrande, a conjugação do verbo “perder” pode ser entendida no passado, no presente e (informalmente) no futuro.


Em um post recente de Ricardo, o locutor afirma com voz de I.A.: “Esse cara vai continuar e fazer avançar o governo do Casagrande”.

A opinião de um aliado

Como romper com o perigo de ficar “à sombra de Casagrande”? Falando sob anonimato, um dos grandes aliados de Ricardo responde assim:


“O que faz ele romper com isso é ele estar no governo. Com o passar do tempo, isso vai se cristalizando. Essa questão da narrativa é muito relativa. Por exemplo, quando vejo a coligação do PL com o Republicanos, dá a sensação de que é Magno Malta quem está coordenando o processo”.


O mesmo ferracista admite:


“Esse é o desafio do Ricardo, e com certeza ele vai trabalhar. Ele é leal ao Renato, mas vai mostrar, ao longo da campanha, que ele tem luz própria e capacidade para governar o Espírito Santo. Agora, não tem jeito, as pessoas associam mesmo, porque o Renato ficou sete anos e três meses no governo. Poucas pessoas veem o Ricardo como governador, até pelo pouco tempo, mas isso não inibe a sua capacidade de gestão”.

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Família que morreu em acidente na BR 101, em Jaguaré, foi velada e enterrada em Cariacica Crédito: Fabrício Christ/ TV Gazeta

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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