Falando a aliados e apoiadores na
convenção estadual do Republicanos na noite de terça-feira (4), por cerca de 15
minutos, o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini evidenciou aquelas que,
presumivelmente, serão as marcas do discurso de campanha a governador que ele manterá até
outubro. O eleitor na certa o ouvirá bater bastante nestas teclas. Destacamos
cinco.
1) “Renovação política”
2) “Mãos limpas”
3) “De Vitória para o Espírito Santo”
4) “O povo contra as elites”
5) Acenos aos bolsonaristas
Abaixo, passamos a dissecar cada um
dos cinco pontos-chave, costurando trechos importantes do discurso do candidato na
convenção com posts e falas anteriores dele mesmo e do presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, nos meses da “pré-campanha”.
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1) Renovação política: “A vida é encerrar um
ciclo para abrir outro”
Com 44 anos de idade e oito de vida
pública, Pazolini se apresenta como a alternativa para aqueles que desejam
promover uma “renovação política” no Espírito Santo e no Governo do Estado –
renovação defendida por ele. A expressão “novo tempo” se fez bastante presente
em sua fala.
Sem nominar Renato Casagrande (PSB) e
Paulo Hartung (PSD), o ex-prefeito expressou e pregou respeito aos dois
ex-governadores que se alternaram no poder por quase 24 anos, de janeiro de
2003 a abril deste ano.
Não chegou a elogiá-los, até porque é
adversário de Casagrande e não quer se vincular ou ser associado a Hartung na
campanha. Mas reiterou respeito pela obra de ambos.
Dito isso, Pazolini argumentou que é
preciso que um ciclo se encerre para que outro possa ser inaugurado.
“A primeira das premissas que temos é
o respeito a quem passou, o respeito aos dois ex-governadores que tiveram a
oportunidade, durante 24 anos. [...] Cada governador e cada governo se esforçou
para fazer o melhor possível aos capixabas, e fica aqui registrado o nosso
respeito. Mas nós vivemos hoje um novo tempo! Nós temos novos desafios! A
sociedade mudou! O mundo mudou! [...] E temos que saber encerrar ciclos na
vida. E a vida é exatamente isso: encerrar um ciclo para abrir outro ciclo”,
defendeu Pazolini.
“Seguiremos respeitando quem já governou o Espírito Santo, mas com o olhar fixo no futuro para dar início a um novo tempo”, arrematou.
2) “Mãos limpas”
“Num país com tanto escândalo de
corrupção, nós entramos e saímos da prefeitura com as duas mãos limpas”,
discursou Pazolini.
Assim como já havia feito em seu
discurso de despedida do cargo, na posse de Cris Samorini (PP), em 6 de abril,
as palavras foram acompanhadas pelo tradicional gesto (meio batido) de exibir
as duas mãos abertas com as palmas viradas para a frente.
O candidato do Republicanos se
apresenta como um agente público à prova de corrupção. Em discurso anterior de
pré-campanha, para líderes do Litoral Sul, em Itapemirim, ele já dissera: “É a
voz dos 78 municípios! É a voz dos capixabas, que querem ver um gestor entrar e
sair com as mãos limpas, como nós fizemos na cidade de Vitória”.
Na convenção do Republicanos, Pazolini
“chamou-se de honesto”... mas não chamou ninguém de desonesto. Quem chegou
muito perto disso foi Erick Musso – sinalizando a possível estratégia do
ex-prefeito de deixar para o aliado a parte complementar mais “pesada”.
“Precisamos de um governador que feche as torneiras
da corrupção no Espírito Santo, com conversas que são inconfessáveis,
impublicáveis e não podemos falar num ambiente como este”, disse Erick, sem especificar ninguém. “As
promessas foram muitas! A cooptação foi exagerada!”
Cumpre notar que, em ato anterior de
pré-campanha, o próprio Pazolini chegou a adotar a mesma linha. Foi no dia 13
de maio, na pousada de Carlos Manato (Republicanos) em Pedra Azul, diante de
líderes políticos e empresariais da região.
Na
ocasião, também sem citar nomes, o ex-prefeito rebateu alegações recorrentes de que
ele não seria um “homem do diálogo”. Assumiu com força o discurso
anticorrupção. E deixou algumas farpas em oponentes não discriminados.
“Dizem:
‘O Pazolini não dialoga. Pazolini não conversa. Pazolini não quer ouvir’. Mas o
que eles querem falar nós não queremos ouvir”, afirmou, então, o ex-prefeito. E
prosseguiu:
“O
que eles querem falar não pode ser dito aqui abertamente neste salão. Fica
fechado dentro da sala, nas noites, nas madrugadas, nos encontros secretos e
sigilosos que nós sabemos que acontecem. A preocupação deles não é o povo. A
preocupação deles são projetos pessoais, resolver a vida de A, de B, de C, de
D… O povo não é lembrado nem no Z do alfabeto”.
3) De Vitória para o Espírito Santo
“Pazolini fez e vai fazer muito mais”,
repete o jingle da campanha do ex-prefeito.
A ideia, repetida à exaustão, é que ele
vai expandir para todo o Estado as políticas e resultados obtidos por sua
administração na Capital. Aliás, um dos slogans da campanha diz que Vitória é
“a capital de todos os capixabas”.
“O que nós fizemos por todos os bairros
e pelas nove regiões de Vitória eu tenho fé e convicção que nós levaremos a
todos os capixabas”, discursou ele, na convenção.
O ex-prefeito citou realizações e
dados, como o Restaurante Popular de Vitória (“Por que só um no Espírito Santo?”),
a redução das taxas de homicídios, o combate à violência doméstica e o fato de
que a cidade passou 653 dias sem registro de feminicídio.
Nos posts de suas atividades de rua, seja na própria Capital, seja nas
outras cidades, o mote principal do ex-prefeito na interação com populares é o
da “transformação de Vitória”.
“Olha a Vitória de hoje. Transformamos
a cidade. É a melhor cidade do Brasil”, diz ele a um freguês qualquer de uma
feira, num vídeo em seu Instagram. Em outro, um gari o cumprimenta e lhe diz:
“O que cê fez em Vitória ninguém nunca fez”.
4) “O povo contra as elites”
Pazolini
tem investido numa estratégia e numa personalidade: a da luta do Davi contra
Golias; a do candidato humilde (que anda num carrinho popular), “representante
genuíno do povo”, desafiando as “elites políticas e econômicas do Espírito
Santo” (supostamente representada pelo governador Ricardo Ferraço, que lidera a
corrida no momento, de acordo com a última sondagem da Quaest).
Performaticamente, logo no início de
seu discurso na convenção, Pazolini desceu do palanque e foi falar no meio dos
apoiadores, caminhando entre eles e voltando ao palco no fim. Em gesto
coreografado, com alto grau de simbolismo, foi “se lançar no meio do povo”.
Literalmente “com os pés no chão”, igualando-se a todos.
No discurso, o ex-prefeito destacou que
é “neto de costureira e taxista”. Disse que foi prefeito “caminhando morro,
viela” e que quer “devolver aos mais pobres o direito de sonhar com um futuro
melhor”. “Entreguei a minha vida para cuidar de quem mais precisa.”
Falando antes dele, Erick Musso rasgou
ainda mais o verbo, explicitando a estratégia de estabelecer uma dicotomia: “É
o povo contra o sistema! E o povo vai vencer!”
Vale citar, porém, que o próprio
Pazolini tem ecoado esse tipo de fala em atos de pré-campanha. Em maio, num
discurso a líderes políticos do Litoral Sul, em Itapemirim, ele disse o
seguinte:
“Os
grupos econômicos, a elite política, os poderosos do Espírito Santo tentaram
nos isolar. Tentaram dizer que Pazolini era uma única voz. Mas vocês não nos
deixaram sozinhos! O povo capixaba não deixou Pazolini sozinho!”
Na
mesma reunião, Erick completou, na mesma linha:
“Os
poderosos e a máquina pública que funciona diuturnamente pra tentar derrotar o
povo do Espírito Santo, porque não estão preocupados com Marataízes, com
Itapemirim, com Kennedy, com Piúma… Estão preocupados com seus próprios
interesses. E é isso que amedronta eles, porque a sua candidatura não nasce a
portas fechadas, não nasce de grupos econômicos, não nasce de grupos políticos.
Sua candidatura nasce e emerge do coração do povo, que quer mudança e quer a
abertura de um novo ciclo de desenvolvimento social e econômico.”
Já
no dia 1º de junho, Pazolini protagonizou uma reunião pré-eleitoral em Bairro
República, Vitória, e disse para os apoiadores:
“A
turma da política antiga, a turma da velha política, as elites políticas e
econômicas deste estado não querem aceitar que um neto de taxista e costureira
chegue ao Palácio Anchieta!”
Suas andanças por feiras livres também
reforçam a estratégia de se apresentar como um homem simples, informal e que
dialoga diretamente com a população. “Tem que ir pra rua pra entender a dor do
povo”, diz o ex-prefeito a uma senhora, num post,
onde aparece regateando preços em barracas e tomando café com feirantes.
A
estratégia foi lançada, na verdade, em seu derradeiro ato como prefeito de
Vitória, também roteirizado para gerar um efeito dramático subliminar.
No
dia 2 de abril (enquanto Ricardo tomava posse no governo), cercado por
servidores municipais, o então prefeito fez um discurso emocionado aos
apoiadores, à porta do seu carro: um modelo popular e antigo da Fiat.
Em
seguida, ao lado da esposa, Paula de Pazolini, ele entrou no modesto automóvel
da montadora italiana, acelerou e se foi, numa cena calculada, relativamente
teatral (e o que é a política senão um grande teatro?).
Começou
a pôr em marcha, ali, sua estratégia de fixar a imagem de um jovem governante
que seria “gente como a gente”.
5) Agenda
bolsonarista
Pazolini
não dá sinais de que pretenda “nacionalizar” o debate estadual. Mas, ainda que
muito ligeiramente (molhando os pés nestas águas), passou a incluir em seu discurso
acenos importantes ao bolsonarismo, seja para atender ao PL (mais importante
aliado de sua coligação), seja para agradar e atrair os eleitores de Jair e Flávio
Bolsonaro.
Afinal,
ele agora é, no Espírito Santo, o candidato oficial dos Bolsonaro.
Na convenção, o ex-prefeito defendeu
que o Senado deve ser “o Poder moderador” e zelar pelo “equilíbrio” da nação.
Acresceu que as instituições devem “cumprir seu dever constitucional” conforme
as competências delimitadas pela Constituição.
Neste ponto, dirigiu-se especificamente
a Karla Malta, irmã de Maguinha e filha de Magno Malta, representando o clã na convenção. Aceno para eles.
Não chegou a ser um “vamos impichar
ministros do STF”, mas foi o mais perto disso que ele chegou.
E, quando Carla Malta falou
abertamente em “impeachment de ministros” e “fim na farra do Supremo”, Pazolini
aplaudiu a fala, ao lado dela no palanque.
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