"Tenha fé porque até no lixão nasce flor". Quem imaginaria que uma frase uniria Racionais MC's e Ariana Grande. Pois é desse conceito que a diva pop voltou com seu oitavo álbum de estúdio, lançado na última sexta-feira (31), o "petal". Ari volta com um disco mais intimista que seu antecessor (o Eternal Sunshine de 2024), porém mais maduro e poético.
O LP conta com 12 faixas, 11 músicas e um interlude, totalizando 36 minutos. Dessas, nós já conhecemos o hit "hate that i made you love me", o lead single do projeto, e quem estava no show da "Eternal Sunshine Tour" pôde ouvir antecipadamente o debut da segunda música de trabalho, que dá nome ao álbum.
Se tem uma coisa que os fãs dela sabem, é que as faixas de abertura de seus álbuns são um tópico à parte. "intro (end of the world)", "Moonlight" e "Imagine" são alguns dos exemplos de que a cantora sabe escolher a música que vai iniciar a tracklist, e com o "petal" não foi diferente.
"kiss me" inicia o álbum com uma atmosfera noturna, produção quase cinematográfica marcada por sintetizadores, e uma letra melancólica e libertadora. "kiss me like you know this is goodbye" (me beije já que você sabe que é um adeus). Iniciar a tracklist com a ideia de que seu processo de cura só começa com o fim de conexões que não fazem mais sentido mostra que, antes de deixar a flor nascer em meio ao caos, é preciso aceitar o solo disfuncional em que ela vai florescer.
Muitos podem relacionar isso ao fim do namoro com o ator Ethan Slater, mas é possível que esse processo não simbolize apenas sua vida amorosa, mas diferentes aspectos de Ariana, até a forma de tratar sua própria arte. Descrito pela artista como um dos seus trabalhos mais diferentes, o "petal" vem à sua discografia mostrar a quem ainda não tinha entendido que a versão da Ari do "Dangerous Woman" e "Thank U Next", que produzia hits no conceito mais puro da palavra pop, não é mais prioridade.
E não há por que se entristecer, pois a cantora encontrou um novo caminho de criar músicas chicletes: agora elas são intimistas e refletem sua vulnerabilidade de forma crua. O que continua sendo tão interessante quanto a sua antiga persona de diva pop.
Um ponto geral que vão reparar nesse álbum é a voz da Ariana (justo porque ela é reconhecida como vocalista). Porém até nisso tem novidades, não é a mesma cantora de antes, e por escolha artística. No "petal" não há momentos de grandes firulas vocais maravilhosas já conhecidas da Ari (como em "My Hair" ou "God Is a Woman"), o que não atrapalha a experiência, sendo essa sobriedade algo positivo e que combina com a vibe intimista.
Outro aspecto que deve ter mudado ao longo dos anos para Ariana é a sua relação com seus fãs (a controversa arination), explorada no lead single "hate that i made you love me". A cantora confirmou que a música foi escolhida para iniciar o projeto, pois foi a primeira que ela escreveu para essa era. Mas pode haver algo por trás dessa decisão. A letra reflete um amor possessivo, vindo de alguém que parece não decidir se a ama ou odeia.
Seu companheiro a enxerga como uma pessoa de poder, atrás de quem ele pode se esconder, mas em quem projeta suas inseguranças. E ela, mesmo sem querer essa paixão obsessiva, é obrigada a suportar esse peso, agora também odiando ter feito esse amor nascer.
"is it really my fault you gave me your heart at your own accord? I don't really think so" (é mesmo minha culpa que você me deu seu coração por sua própria vontade? eu não acho). E esse tipo de relação te lembra alguma coisa? Não só um romance, mas talvez uma relação de fã para artista? Bom, foi assim que muitos interpretaram.