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Crítica

"petal": novo álbum de Ariana Grande mostra que é possível florescer em meio ao caos

Projeto de inéditas prova que a cantora é capaz de se reinventar sem perder a autenticidade, ser sincera com suas verdades sem deixar de ser poética
Felipe Pinheiro

Publicado em 05 de Agosto de 2026 às 14:16

Escrito inteiramente por Ariana, "petal" reflete suas inseguranças da forma mais madura em sua carreira
Escrito inteiramente por Ariana, "petal" reflete suas inseguranças da forma mais madura em sua carreira Reprodução Instagram @arianagrande

"Tenha fé porque até no lixão nasce flor". Quem imaginaria que uma frase uniria Racionais MC's e Ariana Grande. Pois é desse conceito que a diva pop voltou com seu oitavo álbum de estúdio, lançado na última sexta-feira (31), o "petal". Ari volta com um disco mais intimista que seu antecessor (o Eternal Sunshine de 2024), porém mais maduro e poético. 


O LP conta com 12 faixas, 11 músicas e um interlude, totalizando 36 minutos. Dessas, nós já conhecemos o hit "hate that i made you love me", o lead single do projeto, e quem estava no show da "Eternal Sunshine Tour" pôde ouvir antecipadamente o debut da segunda música de trabalho, que dá nome ao álbum.


Se tem uma coisa que os fãs dela sabem, é que as faixas de abertura de seus álbuns são um tópico à parte. "intro (end of the world)", "Moonlight" e "Imagine" são alguns dos exemplos de que a cantora sabe escolher a música que vai iniciar a tracklist, e com o "petal" não foi diferente. 


"kiss me" inicia o álbum com uma atmosfera noturna, produção quase cinematográfica marcada por sintetizadores, e uma letra melancólica e libertadora. "kiss me like you know this is goodbye" (me beije já que você sabe que é um adeus). Iniciar a tracklist com a ideia de que seu processo de cura só começa com o fim de conexões que não fazem mais sentido mostra que, antes de deixar a flor nascer em meio ao caos, é preciso aceitar o solo disfuncional em que ela vai florescer.


Muitos podem relacionar isso ao fim do namoro com o ator Ethan Slater, mas é possível que esse processo não simbolize apenas sua vida amorosa, mas diferentes aspectos de Ariana, até a forma de tratar sua própria arte. Descrito pela artista como um dos seus trabalhos mais diferentes, o "petal" vem à sua discografia mostrar a quem ainda não tinha entendido que a versão da Ari do "Dangerous Woman" e "Thank U Next", que produzia hits no conceito mais puro da palavra pop, não é mais prioridade. 


E não há por que se entristecer, pois a cantora encontrou um novo caminho de criar músicas chicletes: agora elas são intimistas e refletem sua vulnerabilidade de forma crua. O que continua sendo tão interessante quanto a sua antiga persona de diva pop.


Um ponto geral que vão reparar nesse álbum é a voz da Ariana (justo porque ela é reconhecida como vocalista). Porém até nisso tem novidades, não é a mesma cantora de antes, e por escolha artística. No "petal" não há momentos de grandes firulas vocais maravilhosas já conhecidas da Ari (como em "My Hair" ou "God Is a Woman"), o que não atrapalha a experiência, sendo essa sobriedade algo positivo e que combina com a vibe intimista.


Outro aspecto que deve ter mudado ao longo dos anos para Ariana é a sua relação com seus fãs (a controversa arination), explorada no lead single "hate that i made you love me". A cantora confirmou que a música foi escolhida para iniciar o projeto, pois foi a primeira que ela escreveu para essa era. Mas pode haver algo por trás dessa decisão. A letra reflete um amor possessivo, vindo de alguém que parece não decidir se a ama ou odeia. 


Seu companheiro a enxerga como uma pessoa de poder, atrás de quem ele pode se esconder, mas em quem projeta suas inseguranças. E ela, mesmo sem querer essa paixão obsessiva, é obrigada a suportar esse peso, agora também odiando ter feito esse amor nascer. 


"is it really my fault you gave me your heart at your own accord? I don't really think so" (é mesmo minha culpa que você me deu seu coração por sua própria vontade? eu não acho). E esse tipo de relação te lembra alguma coisa? Não só um romance, mas talvez uma relação de fã para artista? Bom, foi assim que muitos interpretaram.

Capa do álbum reflete sua mudança até em um pequeno detalhe, é o primeiro da cantora sem seu icônico rabo de cavalo
Capa do "petal" reflete sua mudança até em um pequeno detalhe, é o primeiro da cantora sem seu icônico rabo de cavalo Reprodução Instagram @arianagrande

Não é de hoje que Ari critica seu fandom por um bullying disfarçado de preocupação, com críticas que beiram a ofensa. Estética, decisões de carreira, sonoridade, prazos de lançamentos e até o seu corpo (pauta tão delicada que renderia um texto apenas sobre isso). Uma exigência desproporcional para que ela se mantenha como alguns desejam, ignorando suas vontades. 


Então, escolher essa como lead single não veio apenas por ter nascido primeiro, ou por ser de longe a música mais comercial no projeto, mas também como um alerta a essa parcela, de que dessa vez ela iria seguir seus instintos no "petal", independentemente se agradasse a todos ou não. 


Falando sobre deixar ir, não é só o lead single que também traz esse sentimento, e dessa vez de forma mais explícita é "oh well". A música conseguiu traduzir a sensação de desapego, com a cantora sendo direta sobre os "caras maus" de sua vida, desejando-lhes boa sorte em seu caminho ao inferno. "I don't have to be responsible for things that just ain't mine" (eu não preciso ser responsável por coisas que claramente não são minhas).


Mesmo que desperte um instinto fofoqueiro em tentar descobrir se essa canção é dedicada a pessoas específicas, o mais provável, de novo, é que Ariana usa a canção para deixar ir mágoas e decepções pelas quais ela deve ter passado.


Já o segundo single do álbum pode causar estranheza nos fãs, não por ser bom ou ruim, mas por ser feito de uma forma não convencional (o que pode ser até intencional). A faixa-título do álbum, "petal", tem uma letra que continua a linha de raciocínio do álbum de deixar o bem florescer no caos, expandindo o conceito também aos críticos musicais. 


Daí vem a ideia central à la Racionais na letra do single: "petal in the pavement", ou pétala no concreto. Mas o que mais chama a atenção não é nem sua letra, mas o instrumental. Até o refrão, a vibe é construída de forma calma, com sintetizadores criando um clima tenso, que lembra uma trilha sonora de um filme de terror. O suspense é quebrado quando o refrão chega, e junto a ele a agressividade bem-vinda de uma bateria, que parece representar os momentos em que Ariana chega ao limite de sua raiva e explode. Depois disso vai alternando entre calmaria e paz, até o final, quando a explosão das baterias vai ficando mais intensa.


Sobre o álbum em si, a produção dele é um ponto positivo. Além do pop já citado, o álbum explora, por meio da mistura de gêneros, seu usual R&B, jazz, dream pop, e até a surpresa de um delicioso pop rock em "bad thing (bunny hop)". Inclusive, a faixa deve ser, por enquanto, o maior destaque do disco. Quem tinha medo de não reconhecer Ariana no projeto nem precisa se preocupar. A artista estava certa em afirmar que esse seria um trabalho mais distante de sua discografia, mas é óbvio que ele tem elementos característicos seus.


"big feelings" traz a sensualidade de um R&B com uma letra romântica (facilmente uma herdeira de "Positions"). E a nona faixa, "like i do", tem um clima noturno, instrumental que flerta com o EDM e produção catártica no refrão ("ainda vou te dar orgulho, Dangerous Woman"). A única que infelizmente destoa dentro da tracklist é "freak". Não por ser ruim, mas por ser claramente mais fraca quando comparada às outras do petal, devido ao instrumental morno. Mas sem prejudicar a experiência da história do álbum. Já "stay" e "never get over me" completam também a tracklist de forma positiva.


E o petal chega ao fim com "nowhere, nobody". Com um instrumental aconchegante, o álbum termina com o entendimento da cantora em aceitar a beleza do caos, e estar com quem nunca a abandonou: ela mesma. A letra se assemelha a uma carta dedicada a ela mais nova, após perceber que lutou demais por causas perdidas, e que não há ninguém com quem ela prefira estar do que consigo mesma. "tell me, why do I keep on climbing just to reach the ground?" (me diga, por que continuo escalando só para chegar ao chão?). Ela finalmente aceita que não existe final feliz, e que não há nada errado nisso.


É daí que vem o petal. Um projeto que tinha apenas um objetivo, trazer paz interior à Ariana, é a maneira que ela encontrou de fazer autocuidado e compartilhar conosco. Talvez a obra não seja a favorita da fanbase, mas com certeza é um dos mais importantes de sua carreira, por lembrar a quem ouve que sua vulnerabilidade não é apenas arte que se vende, é a realidade de uma pessoa humana. E por mais que pareça clichê, confirmou que de um lixão pessoal, a mais linda flor de suas emoções ainda pode florescer.

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