O anúncio de Gabriel Medina e Isabella Arantes de que perderam o bebê, na última terça-feira (4), poucos dias após tornarem pública a gravidez, reacendeu o debate sobre a perda gestacional. O casal havia compartilhado a expectativa pela chegada do primeiro filho durante as comemorações do casamento, mas a gestação foi interrompida quando a bailarina estava por volta do terceiro mês.
Embora seja um tema cercado de silêncio e dor, esse tipo de situação é mais frequente do que muitas pessoas imaginam. Em entrevista ao jornal O GLOBO, especialistas explicam que cerca de 10% das gestações clinicamente confirmadas terminam em perda gestacional, segundo dados do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). A maioria desses casos ocorre antes da 13ª semana de gravidez.
A perda gestacional precoce, conhecida popularmente como aborto espontâneo, acontece quando a gravidez deixa de evoluir antes do fim do primeiro trimestre. Esse período é considerado o mais delicado da gestação porque é quando ocorre a formação dos principais órgãos e estruturas do embrião.
"O primeiro trimestre é justamente o período em que ocorre a maior parte das perdas gestacionais. Isso acontece porque é uma fase de intensa formação e desenvolvimento embrionário. Quando existe alguma alteração que impede que esse desenvolvimento prossiga normalmente, o organismo pode interromper a gestação", explica o obstetra e ginecologista Paulo Noronha.
Apesar de ser uma situação relativamente frequente do ponto de vista médico, isso não reduz a dimensão da dor enfrentada pelos pais. A interrupção da gravidez costuma desencadear um processo de luto que envolve expectativas, planos e vínculos já construídos.
É importante separar duas questões: do ponto de vista médico, a perda gestacional precoce é relativamente comum; do ponto de vista emocional, para cada família ela representa uma experiência muito particular. O fato de ser frequente não significa que seja simples ou que a mulher deva encarar a situação como algo sem importância
Paulo Noronha Obstetra e ginecologista
Grande parte das interrupções da gravidez nas primeiras semanas está relacionada a alterações genéticas que surgem durante a formação do embrião. De acordo com o ACOG, aproximadamente metade das perdas precoces ocorre por alterações cromossômicas.
Na maioria das situações, trata-se de um evento espontâneo, sem relação com atitudes ou escolhas feitas pela gestante ao longo da gravidez.
"Em grande parte dos casos, estamos diante de uma alteração genética ou cromossômica que ocorre ao acaso e impede o desenvolvimento adequado do embrião. Isso é muito diferente de dizer que a mãe fez alguma coisa errada. Na maioria das situações, não existe uma ação específica da mulher que tenha provocado a perda", diz Paulo.
O obstetra e ginecologista César Patez ressalta que uma perda isolada normalmente não indica um problema de saúde.
Muitas vezes, mesmo depois da avaliação médica, não conseguimos apontar uma causa específica. Isso não significa que a investigação tenha sido inadequada, mas que determinados eventos acontecem de maneira espontânea
César Patez Obstetra e ginecologista
É comum que mulheres procurem entender o que aconteceu após uma perda gestacional e passem a questionar se alguma atividade do dia a dia poderia ter contribuído para o desfecho. Exercícios físicos, relações sexuais, trabalho ou momentos de estresse costumam estar entre as principais dúvidas.
Segundo os especialistas, porém, essas situações não costumam provocar um aborto espontâneo em uma gestação saudável. "É muito comum que, depois de uma perda, a mulher procure identificar alguma atitude que possa ter provocado o que aconteceu. Mas, na grande maioria das vezes, não é possível atribuir a perda a um esforço físico, a uma relação sexual, a uma situação de estresse ou a alguma atividade cotidiana", esclarece César.
Esse sentimento de buscar uma explicação pode aumentar a culpa, embora, na maior parte das vezes, ela não tenha fundamento. "A mulher não deve carregar a responsabilidade por algo que, na maioria das vezes, não estava sob seu controle. Uma das primeiras orientações após uma perda é justamente esclarecer isso: não se trata, na maioria dos casos, de uma consequência de uma decisão ou de um comportamento materno", acrescenta.
Embora as alterações cromossômicas sejam a principal causa das perdas precoces, algumas condições de saúde podem exigir maior acompanhamento durante a gravidez. Entre elas estão diabetes sem controle adequado, doenças autoimunes, alterações da tireoide, infecções e problemas anatômicos no útero.
A ginecologista e obstetra Núbia Fontes destaca que o acompanhamento pré-natal é essencial para identificar precocemente possíveis fatores de risco.
O diagnóstico de uma alteração durante a gestação não deve ser encarado como motivo de culpa ou medo. O acompanhamento pré-natal existe justamente para identificar fatores de risco, acompanhar a evolução da gravidez e intervir quando necessário
Núbia Fontes Ginecologista e obstetra
Ela também reforça que nem toda condição diagnosticada durante a gestação está relacionada às perdas do primeiro trimestre.
"É importante diferenciar as condições que podem surgir em diferentes momentos da gravidez. O diabetes gestacional, por exemplo, costuma ser rastreado ao longo do pré-natal e exige acompanhamento para reduzir riscos maternos e fetais. Não se deve atribuir automaticamente uma perda no primeiro trimestre a esse diagnóstico", observa.
Sobre a idade materna, esse é um dos fatores considerados na avaliação obstétrica, já que o risco de alterações cromossômicas tende a aumentar com o passar dos anos. Ainda assim, ela não determina, sozinha, o desfecho da gestação.
"Existe uma relação importante entre idade materna e risco de alterações cromossômicas, mas isso precisa ser interpretado individualmente. Não significa que uma mulher mais velha necessariamente terá uma perda, assim como uma mulher jovem está completamente livre desse risco", pontua Paulo.
Nem sempre. Sangramentos podem ocorrer por diferentes motivos durante a gestação e não significam, automaticamente, que houve uma perda. Ainda assim, qualquer episódio deve ser comunicado ao médico, especialmente quando vier acompanhado de dor intensa, cólicas ou eliminação de tecido.
"Um pequeno sangramento no início da gravidez não significa automaticamente que houve uma perda gestacional. Existem outras situações que podem provocar sangramento. Mas qualquer sangramento durante a gestação deve ser comunicado ao obstetra, principalmente quando é acompanhado de dor ou apresenta maior intensidade", orienta César.
Para confirmar o diagnóstico, normalmente são necessários exames clínicos, laboratoriais e ultrassonografia.
E é possível engravidar novamente? Na maioria dos casos, sim. Uma perda gestacional isolada não costuma indicar infertilidade nem impedir futuras gestações. "Uma primeira perda gestacional não significa que a mulher terá problemas para engravidar novamente ou que necessariamente exista uma alteração de fertilidade. O mais importante é avaliar o contexto clínico e, quando houver indicação, investigar fatores que possam estar relacionados ao episódio", pontua Paulo Noronha.
Exames mais detalhados costumam ser indicados apenas quando há repetição das perdas ou outros fatores que levantem suspeitas."Quando as perdas começam a se repetir, o cenário muda e precisamos investigar com mais atenção. Nesses casos, podem ser avaliados fatores anatômicos, hormonais, genéticos, imunológicos e outras condições que possam estar interferindo na evolução das gestações", comenta César.
Embora seja um evento relativamente comum na medicina, a perda gestacional pode provocar um intenso sofrimento emocional. Para muitos casais, o vínculo com o bebê começa a ser construído desde o teste positivo, tornando a interrupção da gravidez um processo de luto marcado por tristeza, frustração, ansiedade e, muitas vezes, culpa.
No caso de Gabriel Medina e Isabella Arantes, a notícia veio pouco tempo depois de o casal compartilhar publicamente a expectativa pela chegada do primeiro filho, ampliando a repercussão do episódio.
É fundamental respeitar o tempo emocional de cada casal. Não existe um prazo determinado para superar uma perda gestacional. A orientação médica deve cuidar não apenas da parte física, mas também reconhecer que existe um processo de luto.
Paulo Noronha Obstetra e ginecologista
Para Paulo Noronha, compreender as causas mais comuns da perda também faz parte do acolhimento oferecido ao casal.
"Quando explicamos que a perda gestacional precoce é relativamente comum e que, na maioria das vezes, não foi provocada por uma atitude da mulher, conseguimos retirar um peso importante de culpa. O casal precisa entender o que aconteceu, receber orientação sobre os próximos passos e ter espaço para elaborar emocionalmente essa experiência", conclui.