Quando se fala em trânsito, é comum que o pensamento vá diretamente para carros, motos, ônibus e caminhões circulando por ruas, avenidas e rodovias.
Mas há um outro trânsito que faz parte da rotina de milhares de pessoas e que, muitas vezes, acaba esquecido: o das calçadas e calçadões.
Esses espaços, destinados prioritariamente aos pedestres, passaram a ser compartilhados com ciclistas e, mais recentemente, com uma nova geração de modais elétricos. Bicicletas elétricas, patinetes e outros equipamentos surgiram como alternativas inteligentes de mobilidade urbana. Reduzem congestionamentos, ocupam menos espaço, emitem menos poluentes e representam uma tendência sem volta nas cidades.
O problema nunca foi a tecnologia. O desafio está na forma como ela é utilizada.
Nos últimos anos, tornou-se comum observar bicicletas elétricas circulando em alta velocidade por áreas de grande circulação de pessoas, muitas vezes conduzidas sem qualquer preocupação com as regras básicas de convivência ou mesmo com as normas previstas no Código de Trânsito Brasileiro.
A consequência é visível: atropelamentos, colisões, discussões e um sentimento crescente de insegurança entre quem simplesmente deseja caminhar.
Os calçadões deixaram de ser apenas locais de convivência e lazer para, em determinados momentos, transformarem-se em verdadeiras pistas de velocidade.
Não são raros os casos de ciclistas que se envolvem em acidentes, atingem pedestres ou até veículos, provocam danos materiais e seguem o trajeto sem prestar qualquer assistência ou assumir a responsabilidade pelos prejuízos causados.
Outro aspecto que preocupa é a presença de crianças e adolescentes conduzindo equipamentos capazes de atingir velocidades superiores a 20 ou 30 quilômetros por hora. Independentemente da classificação legal de cada modal, trata-se de uma potência incompatível com a falta de experiência e de maturidade próprias dessa faixa etária.
Não é razoável naturalizar essa situação apenas porque a legislação ainda apresenta lacunas.
A ausência de regras claras ou de fiscalização eficiente não significa ausência de risco. Pelo contrário. O vazio regulatório acaba favorecendo comportamentos imprudentes e transmite a falsa sensação de que tudo é permitido.
Mas seria injusto atribuir toda a responsabilidade apenas aos ciclistas. Os próprios pedestres também precisam contribuir para uma convivência mais harmoniosa.
Grupos que ocupam toda a largura da passagem, pessoas distraídas utilizando o celular ou corredores que, em ritmo acelerado, acabam esbarrando em quem caminha mais devagar também criam situações de conflito. O espaço público exige respeito mútuo.
A mobilidade urbana só funciona quando todos compreendem que direitos vêm acompanhados de deveres. Não basta reivindicar espaço; é preciso saber compartilhá-lo.
Vivemos um momento em que o trânsito das cidades já é marcado por episódios frequentes de intolerância, agressividade e desrespeito às normas. Não faz sentido permitir que esse mesmo ambiente de conflito migre para as calçadas e calçadões, justamente os espaços que deveriam proporcionar segurança, tranquilidade e convivência.
É hora de enfrentar essa discussão com seriedade. O poder público precisa regulamentar o uso desses equipamentos onde ainda houver omissão, intensificar a fiscalização e investir em campanhas permanentes de educação para o trânsito. Da mesma forma, usuários dos modais elétricos, ciclistas, corredores e pedestres precisam compreender que a cidade é um espaço coletivo.
Ter paz no trânsito não depende apenas das ruas. Depende também de preservar as calçadas e os calçadões como lugares onde a prioridade continue sendo das pessoas, e onde a tecnologia caminhe ao lado da responsabilidade.