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Vitor Vogas

As cinco maiores marcas do discurso de campanha de Pazolini

Renovação política; “mãos limpas”; “de Vitória para o Espírito Santo”; “o povo contra as elites”; acenos aos bolsonaristas. Examinamos aqui cada um dos pontos-chave da estratégia do pré-candidato a governador do Republicanos

Publicado em 05 de Agosto de 2026 às 13:13

Públicado em 

05 ago 2026 às 13:13
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Convenção do Republicanos cofirmou nome de Pazolini na disputa pelo governo do ES
Convenção do Republicanos cofirmou nome de Pazolini na disputa pelo governo do ES Ricardo Medeiros

Falando a aliados e apoiadores na convenção estadual do Republicanos na noite de terça-feira (4), por cerca de 15 minutos, o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini evidenciou aquelas que, presumivelmente, serão as marcas do discurso de campanha a governador que ele manterá até outubro. O eleitor na certa o ouvirá bater bastante nestas teclas. Destacamos cinco.


1) “Renovação política”

2) “Mãos limpas”

3) “De Vitória para o Espírito Santo”

4) “O povo contra as elites”

5) Acenos aos bolsonaristas


Abaixo, passamos a dissecar cada um dos cinco pontos-chave, costurando trechos importantes do discurso do candidato na convenção com posts e falas anteriores dele mesmo e do presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, nos meses da “pré-campanha”.

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1) Renovação política: “A vida é encerrar um ciclo para abrir outro”

Com 44 anos de idade e oito de vida pública, Pazolini se apresenta como a alternativa para aqueles que desejam promover uma “renovação política” no Espírito Santo e no Governo do Estado – renovação defendida por ele. A expressão “novo tempo” se fez bastante presente em sua fala.


Sem nominar Renato Casagrande (PSB) e Paulo Hartung (PSD), o ex-prefeito expressou e pregou respeito aos dois ex-governadores que se alternaram no poder por quase 24 anos, de janeiro de 2003 a abril deste ano.


Não chegou a elogiá-los, até porque é adversário de Casagrande e não quer se vincular ou ser associado a Hartung na campanha. Mas reiterou respeito pela obra de ambos.


Dito isso, Pazolini argumentou que é preciso que um ciclo se encerre para que outro possa ser inaugurado.


“A primeira das premissas que temos é o respeito a quem passou, o respeito aos dois ex-governadores que tiveram a oportunidade, durante 24 anos. [...] Cada governador e cada governo se esforçou para fazer o melhor possível aos capixabas, e fica aqui registrado o nosso respeito. Mas nós vivemos hoje um novo tempo! Nós temos novos desafios! A sociedade mudou! O mundo mudou! [...] E temos que saber encerrar ciclos na vida. E a vida é exatamente isso: encerrar um ciclo para abrir outro ciclo”, defendeu Pazolini.


“Seguiremos respeitando quem já governou o Espírito Santo, mas com o olhar fixo no futuro para dar início a um novo tempo”, arrematou. 

2) “Mãos limpas”

“Num país com tanto escândalo de corrupção, nós entramos e saímos da prefeitura com as duas mãos limpas”, discursou Pazolini.


Assim como já havia feito em seu discurso de despedida do cargo, na posse de Cris Samorini (PP), em 6 de abril, as palavras foram acompanhadas pelo tradicional gesto (meio batido) de exibir as duas mãos abertas com as palmas viradas para a frente.


O candidato do Republicanos se apresenta como um agente público à prova de corrupção. Em discurso anterior de pré-campanha, para líderes do Litoral Sul, em Itapemirim, ele já dissera: “É a voz dos 78 municípios! É a voz dos capixabas, que querem ver um gestor entrar e sair com as mãos limpas, como nós fizemos na cidade de Vitória”.


Na convenção do Republicanos, Pazolini “chamou-se de honesto”... mas não chamou ninguém de desonesto. Quem chegou muito perto disso foi Erick Musso – sinalizando a possível estratégia do ex-prefeito de deixar para o aliado a parte complementar mais “pesada”.


“Precisamos de um governador que feche as torneiras da corrupção no Espírito Santo, com conversas que são inconfessáveis, impublicáveis e não podemos falar num ambiente como este”, disse Erick, sem especificar ninguém. “As promessas foram muitas! A cooptação foi exagerada!”


Cumpre notar que, em ato anterior de pré-campanha, o próprio Pazolini chegou a adotar a mesma linha. Foi no dia 13 de maio, na pousada de Carlos Manato (Republicanos) em Pedra Azul, diante de líderes políticos e empresariais da região.


Na ocasião, também sem citar nomes, o ex-prefeito rebateu alegações recorrentes de que ele não seria um “homem do diálogo”. Assumiu com força o discurso anticorrupção. E deixou algumas farpas em oponentes não discriminados.

 

“Dizem: ‘O Pazolini não dialoga. Pazolini não conversa. Pazolini não quer ouvir’. Mas o que eles querem falar nós não queremos ouvir”, afirmou, então, o ex-prefeito. E prosseguiu:

 

“O que eles querem falar não pode ser dito aqui abertamente neste salão. Fica fechado dentro da sala, nas noites, nas madrugadas, nos encontros secretos e sigilosos que nós sabemos que acontecem. A preocupação deles não é o povo. A preocupação deles são projetos pessoais, resolver a vida de A, de B, de C, de D… O povo não é lembrado nem no Z do alfabeto”.

3) De Vitória para o Espírito Santo

“Pazolini fez e vai fazer muito mais”, repete o jingle da campanha do ex-prefeito.


A ideia, repetida à exaustão, é que ele vai expandir para todo o Estado as políticas e resultados obtidos por sua administração na Capital. Aliás, um dos slogans da campanha diz que Vitória é “a capital de todos os capixabas”.


“O que nós fizemos por todos os bairros e pelas nove regiões de Vitória eu tenho fé e convicção que nós levaremos a todos os capixabas”, discursou ele, na convenção.


O ex-prefeito citou realizações e dados, como o Restaurante Popular de Vitória (“Por que só um no Espírito Santo?”), a redução das taxas de homicídios, o combate à violência doméstica e o fato de que a cidade passou 653 dias sem registro de feminicídio.


Nos posts de suas atividades de rua, seja na própria Capital, seja nas outras cidades, o mote principal do ex-prefeito na interação com populares é o da “transformação de Vitória”.


“Olha a Vitória de hoje. Transformamos a cidade. É a melhor cidade do Brasil”, diz ele a um freguês qualquer de uma feira, num vídeo em seu Instagram. Em outro, um gari o cumprimenta e lhe diz: “O que cê fez em Vitória ninguém nunca fez”.

4) “O povo contra as elites”

Pazolini tem investido numa estratégia e numa personalidade: a da luta do Davi contra Golias; a do candidato humilde (que anda num carrinho popular), “representante genuíno do povo”, desafiando as “elites políticas e econômicas do Espírito Santo” (supostamente representada pelo governador Ricardo Ferraço, que lidera a corrida no momento, de acordo com a última sondagem da Quaest).

 

Performaticamente, logo no início de seu discurso na convenção, Pazolini desceu do palanque e foi falar no meio dos apoiadores, caminhando entre eles e voltando ao palco no fim. Em gesto coreografado, com alto grau de simbolismo, foi “se lançar no meio do povo”. Literalmente “com os pés no chão”, igualando-se a todos.


No discurso, o ex-prefeito destacou que é “neto de costureira e taxista”. Disse que foi prefeito “caminhando morro, viela” e que quer “devolver aos mais pobres o direito de sonhar com um futuro melhor”. “Entreguei a minha vida para cuidar de quem mais precisa.”


Falando antes dele, Erick Musso rasgou ainda mais o verbo, explicitando a estratégia de estabelecer uma dicotomia: “É o povo contra o sistema! E o povo vai vencer!”


Vale citar, porém, que o próprio Pazolini tem ecoado esse tipo de fala em atos de pré-campanha. Em maio, num discurso a líderes políticos do Litoral Sul, em Itapemirim, ele disse o seguinte:


“Os grupos econômicos, a elite política, os poderosos do Espírito Santo tentaram nos isolar. Tentaram dizer que Pazolini era uma única voz. Mas vocês não nos deixaram sozinhos! O povo capixaba não deixou Pazolini sozinho!”

 

Na mesma reunião, Erick completou, na mesma linha:

 

“Os poderosos e a máquina pública que funciona diuturnamente pra tentar derrotar o povo do Espírito Santo, porque não estão preocupados com Marataízes, com Itapemirim, com Kennedy, com Piúma… Estão preocupados com seus próprios interesses. E é isso que amedronta eles, porque a sua candidatura não nasce a portas fechadas, não nasce de grupos econômicos, não nasce de grupos políticos. Sua candidatura nasce e emerge do coração do povo, que quer mudança e quer a abertura de um novo ciclo de desenvolvimento social e econômico.”

 

Já no dia 1º de junho, Pazolini protagonizou uma reunião pré-eleitoral em Bairro República, Vitória, e disse para os apoiadores:

 

“A turma da política antiga, a turma da velha política, as elites políticas e econômicas deste estado não querem aceitar que um neto de taxista e costureira chegue ao Palácio Anchieta!”

 

Suas andanças por feiras livres também reforçam a estratégia de se apresentar como um homem simples, informal e que dialoga diretamente com a população. “Tem que ir pra rua pra entender a dor do povo”, diz o ex-prefeito a uma senhora, num post, onde aparece regateando preços em barracas e tomando café com feirantes.


A estratégia foi lançada, na verdade, em seu derradeiro ato como prefeito de Vitória, também roteirizado para gerar um efeito dramático subliminar.

 

No dia 2 de abril (enquanto Ricardo tomava posse no governo), cercado por servidores municipais, o então prefeito fez um discurso emocionado aos apoiadores, à porta do seu carro: um modelo popular e antigo da Fiat.

 

Em seguida, ao lado da esposa, Paula de Pazolini, ele entrou no modesto automóvel da montadora italiana, acelerou e se foi, numa cena calculada, relativamente teatral (e o que é a política senão um grande teatro?).

 

Começou a pôr em marcha, ali, sua estratégia de fixar a imagem de um jovem governante que seria “gente como a gente”.

5) Agenda bolsonarista

Pazolini não dá sinais de que pretenda “nacionalizar” o debate estadual. Mas, ainda que muito ligeiramente (molhando os pés nestas águas), passou a incluir em seu discurso acenos importantes ao bolsonarismo, seja para atender ao PL (mais importante aliado de sua coligação), seja para agradar e atrair os eleitores de Jair e Flávio Bolsonaro.

 

Afinal, ele agora é, no Espírito Santo, o candidato oficial dos Bolsonaro.

 

Na convenção, o ex-prefeito defendeu que o Senado deve ser “o Poder moderador” e zelar pelo “equilíbrio” da nação. Acresceu que as instituições devem “cumprir seu dever constitucional” conforme as competências delimitadas pela Constituição.


Neste ponto, dirigiu-se especificamente a Karla Malta, irmã de Maguinha e filha de Magno Malta, representando o clã na convenção. Aceno para eles.  


Não chegou a ser um “vamos impichar ministros do STF”, mas foi o mais perto disso que ele chegou.


E, quando Carla Malta falou abertamente em “impeachment de ministros” e “fim na farra do Supremo”, Pazolini aplaudiu a fala, ao lado dela no palanque. 

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Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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