Anestesista, o deputado estadual Hudson Leal ganhou uma nova injeção de energia (com muito trocadilho), em sua campanha a prefeito de Vila Velha, a partir da desistência do deputado federal Amaro Neto em disputar a Prefeitura da Serra. Amaro e Hudson são do mesmo partido, o Republicanos. Com a refugada de Amaro na Serra, o partido passa a apostar muito mais no seu candidato em Vila Velha.
E, para surpreender Max Filho (em cuja chapa foi vice na eleição de 2012) e outras figuras mais conhecidas da política canela-verde, Hudson pretende replicar em menor escala, na eleição municipal, a estratégia que o levou a ser o 6º candidato mais votado para deputado estadual na eleição de 2018 (o 3º entre os reeleitos), pegando de surpresa muita gente. Detalhada aqui no dia 16 de abril de 2019, a estratégia consiste em formar uma laboriosa “rede de multiplicadores” espalhada por toda a amplitude do mapa eleitoral.
Discreto sob os holofotes das sessões plenárias na Assembleia, Hudson é o que se pode chamar de um incansável e diligente operador de bastidores. Como político, talvez seja essa a característica que melhor o define: o médico e parlamentar é, antes de tudo, um eficiente montador de chapas. Antes mesmo de se eleger deputado pela primeira vez em 2014, ele já se aperfeiçoava nessa especialização, articulando chapas de candidatos a vereador, em várias siglas, nas eleições municipais de Vila Velha.
Em suas duas eleições a deputado estadual (2014 e 2018), particularmente nesta última, Hudson exercitou uma estratégia exitosa para ser inesperadamente bem votado: pulverizar sua votação por todo o mapa do eleitorado capixaba. E como é que ele fez isso? Precisamente, montando chapas de vereadores, nas eleições municipais de 2016, em praticamente cada rincão do Estado.
Após as eleições, os vereadores eleitos com sua ajuda se converteram em pequenos núcleos de apoiadores do deputado, distribuídos de norte a sul do território capixaba. Durante seu mandato na Assembleia, ele segue prestigiando (com emendas parlamentares, por exemplo) esses líderes políticos locais, a quem dá sustentação política.
Esses políticos locais, assim, ficam “devedores” do deputado e retribuem do modo que mais importa a qualquer candidato: pedindo votos para Hudson nas comunidades sobre as quais têm influência. Foi o que ocorreu em 2018 (espécie de “pagamento” pela ajuda do parlamentar dois anos antes). Assim, numa eleição de abrangência estadual como é a de deputado, Hudson consegue, sem alarde, atingir boa votação de Apiacá a Montanha. E não é força de expressão.
Numa espécie de “fenômeno oculto da pulverização dos votos”, o deputado conseguiu, dois anos atrás, uma proeza eleitoral que quase passou despercebida: ficou entre os 20 candidatos mais votados para a Assembleia em nada menos que 62 dos 78 municípios capixabas (inclusive Apiacá e Montanha); entre os 10 mais votados em 41 municípios; e ainda foi o mais votado em quatro cidades, pertencentes a microrregiões administrativas diferentes: Anchieta (Litoral Sul), Brejetuba (Sudoeste Serrana), Ibitirama (Central Serrana) e Vila Valério (Centro-Oeste). Essa “regularidade” é absurda.
E foi assim, sempre comendo pelas beiradas, que o deputado conseguiu ampliar substancialmente sua votação de um pleito para o outro: de 22.180 votos, em 2014, para 30.632, em 2018. De 17º para 6º colocado, sem ter feito nada de particularmente chamativo durante o primeiro mandato parlamentar (2015/2018).
Partindo dessa constatação, perguntamos ao próprio deputado se, agora como candidato a prefeito de Vila Velha, ele pretende levar essa mesma estratégia (adaptada) para o pleito municipal. Pensando no mapa eleitoral de Vila Velha, estaria ele trabalhando na formação de núcleos político-eleitorais, de multiplicadores, por todas as regiões da cidade?
“Sim”, responde ele, sem rodeio. “Com 78 pré-candidatos a vereador, uma média de 15 por região, fora outras lideranças não ligadas à política partidária." Vila Velha é dividida em cinco regiões administrativas. "Meu foco é, no mínimo, 15 lideranças por bairro. Vila Velha tem 92 bairros. Faço esse exercício diariamente”, conta o deputado.
Ou seja: silenciosamente, Hudson vem se empenhando na formação de núcleos de apoiadores espalhados por todo o município que atuem como multiplicadores para ele nos bairros durante o processo eleitoral. Para isso, o deputado diz já ter assegurado o apoio de um partido (o qual ele não revela), além do Republicanos, com a expectativa de chegada de um terceiro.
Os três têm chapa fechada de candidatos a vereador. Na eleição legislativa em Vila Velha, cada partido deve lançar chapa própria com 26 candidatos. Multiplicando esse número por três siglas, chegamos aos “78 pré-candidatos” citados por Hudson, como ele mesmo explica.
“A princípio, o apoio de um partido já está certo, com chapa completa de candidatos a vereador. E estou em conversa bem avançada com outro. Chapa completa também. Total de 52 pré-candidatos. E na expectativa de mais um, com 26 pré-candidatos. Então vão ficar 78 pré-candidatos. Vão ser líderes que vão levar o nome do próximo prefeito de Vila Velha : Hudson Leal”, projeta ele, autoconfiante.
Não estou dizendo, com este raciocínio, que Hudson com certeza crescerá durante o processo eleitoral. O páreo em Vila Velha promete ser duríssimo. Há pesos-pesados na disputa, como Hércules Silveira (MDB) e/ou Neucimar Fraga (PSD) – os dois já anunciaram aliança –, além, obviamente, do atual prefeito, Max Filho (PSDB), com a força de sua história política e da máquina municipal a seu favor.
Além disso, por evidente, cada eleição tem sua história, e um pleito proporcional para o Legislativo estadual é muito diverso de uma eleição majoritária para o Executivo municipal. Não há nenhuma garantia de repetição, em 2020, do sucesso da estratégia de Hudson na eleição a deputado em 2018.
O que estou dizendo, simplesmente, é o seguinte: o deputado já provou que não pode ser subestimado. Está no jogo. E, diferentemente da sala de cirurgias, onde o anestesista é o primeiro a “entrar em ação”, o candidato do Republicanos pode surpreender no final do processo. Como ele mesmo, aliás, sinaliza: “O voto se conquista faltando de 15 a 20 dias para a eleição”.
RESULTADO CONTRASTANTE EM VILA VELHA
"Eu achava que ele seria o campeão de votos [para a Assembleia em 2018]. Só não foi porque se descuidou da Grande Vitória", relatou-me um colega de Hudson na política, naquela coluna publicada sobre ele em abril de 2019.
De fato, na última eleição para deputado estadual, Hudson só ficou entre os 20 candidatos mais votados em um dos sete municípios mais populosos do Estado: justamente, Vila Velha. Mesmo em seu município, porém, ele não teve desempenho grandioso – muito menos para alguém que agora pretende ser prefeito: apenas 15,1% da sua votação em 2018 veio da cidade que ele agora quer governar.
Em solo canela-verde, Hudson foi só o 13º candidato a deputado estadual mais votado no último pleito (o 8º entre os reeleitos). Ficou atrás dos outros dois "doutores" da cidade reeleitos para a Assembleia: Hércules Silveira (MDB) e Rafael Favatto (Patriota), ambos também postulantes à cadeira de prefeito agora. Com 4.642 votos em Vila Velha na eleição parlamentar em 2018, Hudson, para se ter uma ideia, ficou atrás do vereador Osvaldo Maturano (hoje no PSDB), 11º candidato a deputado estadual mais votado no município naquele pleito, com 4.885 votos.
Em sua primeira eleição para deputado, Hudson teve 8.352 votos só em Vila Velha. Portanto, em sua própria cidade, sua votação caiu quase à metade entre suas duas eleições para deputado estadual. Em 2014, essa quantidade de votos representou 37,6% do total de votos auferidos pelo candidato. Arredondando, de cada cinco votos recebidos por Hudson, dois partiram de Vila Velha. Já em 2018, como vimos, seus 4.642 votos por parte de eleitores vila-velhenses representaram somente 15,1% de sua votação total.
Para lançar-se candidato a prefeito de Vila Velha com alguma chance de êxito, Hudson precisa mesmo "fazer o dever de casa" e, antes de mais nada, melhorar sobremaneira seu desempenho eleitoral na cidade.
DE TROCADILHO EM TROCADILHO
Para iniciar esta coluna, arrisquei um trocadilho (admito que de gosto duvidoso) relacionado à profissão de Hudson Leal. O do fim do texto inicial é melhor. Mas o colunista não é o único que tem explorado o jargão médico para fazer trocadilhos em seu discurso. O próprio Hudson tem usado e abusado do recurso. Deem uma olhada no texto desta mensagem de pré-campanha disparada por ele:
"Hudson Leal é o doutor que conhece seu paciente. Sabe o que é dificuldade: superou muitos desafios para realizar o sonho da Medicina. Entende cada sintoma de quem dá duro para viver com dignidade e sabe o que é melhor para que as pessoas possam viver com mais qualidade. Tanto que sabe dar o diagnóstico preciso na vida pública, com ações voltadas para todos os capixabas. Mas agora é a hora e a vez do cidadão canela-verde, paciente por mudança."