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Vitor Vogas

Hudson Leal: como opera o anestesista que quer governar Vila Velha

A discrição do deputado no plenário da Assembleia contrasta não só com as suas ousadas aspirações eleitorais para 2020, mas com outros dois fatores: a ótima votação obtida por ele na candidatura à reeleição em 2018 e a grande influência que alcançou junto ao atual comando do Legislativo estadual

Publicado em 17 de Abril de 2019 às 01:17

Públicado em 

17 abr 2019 às 01:17
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Charge Crédito: Amarildo
“Você não está acreditando em mim, mas pode escrever aí: eu vou ser o prefeito de Vila Velha.” A declaração é do deputado estadual Hudson Leal. Foi dada de passagem a este colunista em um recente encontrão com o deputado dentro do plenário da Assembleia, local onde Hudson não costuma brilhar entre os colegas e passa longe de buscar protagonismo. Ao contrário: em pleno segundo mandato, o mesmo Hudson que agora esbanja toda essa autoconfiança é um dos deputados mais discretos e caladões. Durante as sessões plenárias, usa pouquíssimo a palavra.
Tamanha discrição contrasta não só com as ousadas aspirações de Hudson para 2020, mas com outros dois fatores: a ótima votação obtida por ele na candidatura à reeleição em 2018 e a grande influência que alcançou junto à atual Mesa Diretora da Assembleia.
O que leva um deputado com postura tão tímida em plenário a conseguir tantos votos na eleição parlamentar e tanta influência interna na Assembleia, a ponto de se considerar forte o bastante para disputar a prefeitura de uma cidade do porte de Vila Velha? De onde vêm os votos de Hudson e, por conseguinte, o seu capital político? Para responder a tais perguntas, conversamos com políticos de Vila Velha e aliados do próprio deputado.
Em julho de 2018, A GAZETA publicou um levantamento dos deputados que menos “parlam” no Parlamento estadual. Conclusões: nas 46 primeiras sessões de 2018, Hudson não se pronunciou uma só vez em plenário. De 2015 a 2017, num total de 364 sessões ordinárias, foi o 3º deputado que menos falou: contando discursos e momentos de discussões de projetos, ele fez 37 pronunciamentos – média de um a cada dez sessões. Ironicamente, seu apelido entre colegas é Bocão.
Não é nem que ele não saiba falar. Simplesmente, prescinde da tribuna. Nas poucas vezes em que a visita, Hudson mostra até boa oratória. Só que não é essa a estratégia que ele prioriza para obter votos e projeção política. Quais são então? A resposta começa por algumas características de Hudson.
Em primeiro lugar, ele é médico. Mais precisamente, é anestesista. Assim, por ofício, participa de cirurgias das mais diversas especialidades. Também já foi diretor do Conselho Regional de Medicina e é muito bem relacionado com as cooperativas. Consequentemente, tem ampla rede de contatos dentro da classe médica.
Em segundo lugar, considerado afável, disciplinado e, literalmente, leal a seus amigos, Hudson é um bom articulador de bastidores, habilidade que ele canaliza para algo bastante específico e muito útil em processos eleitorais: a construção de chapas de vereador, como dirigente de partidos pequenos. Essa, garantem aliados, é a sua especialidade política. Começou a fazer isso em Vila Velha, como dirigente do PTN. Pela sigla, foi candidato a vice-prefeito na chapa de Max Filho em 2012. Não teve êxito. Em compensação, a coligação PTN/PPL conseguiu fazer dois vereadores.
Transplantando essa “operação” para todo o Estado, Hudson começou a fazer o mesmo em larga escala: nas eleições municipais, ele constrói as “chapinhas” em vários municípios do interior. Assim, ajuda a eleger vereadores por todo o território capixaba. Os vitoriosos se tornam devedores de Hudson, ficam ligados a ele politicamente e viram seus cabos eleitorais nas campanhas a deputado estadual.
Assim, Hudson tem uma rede de colaboradores espalhados de norte a sul do Estado, os quais o ajudam (e se ajudam) não só durante os períodos eleitorais. Além de pedir votos em seu nome, eles atuam como "olheiros": prospectam e levam ao deputado demandas da população desassistida.
E aí voltamos ao primeiro ponto. Lembram? Hudson é médico. E, até segundo aliados, não foge àquela que é a marca inextrincável, talvez a maior de todas, dos muitos “doutores” que povoam a Assembleia e a política brasileira em geral: certa vocação para o clientelismo. Com sua ampla rede de contatos no meio, Hudson consegue ajudar pessoas simples a realizar um exame, uma consulta etc. de modo mais ágil. Atendidas com presteza, essas pessoas também se tornam suas devedoras.
Esse modo de operar deu muito certo para o anestesista em 2018. Na eleição para a Assembleia, ele foi um fenômeno de pulverização de votos. Dos 78 municípios capixabas, ficou entre os 20 candidatos mais votados em 62 (o que é insano); entre os dez mais votados em 41; e foi o mais votado em quatro cidades: Anchieta, Brejetuba, Ibitirama e Vila Valério. No cômputo geral, foi o 6º candidato mais votado (o 3º entre os reeleitos), com a preferência de 30.632 eleitores.
“Eu achava que ele seria o campeão de votos. Só não foi porque se descuidou da Grande Vitória”, avalia um colega de política. De fato, Hudson só ficou entre os 20 mais votados em um dos sete municípios mais populosos do Estado: justamente, Vila Velha. Mesmo ali, porém, ele não teve desempenho grandioso – muito menos para alguém que agora pretende ser prefeito. Apenas 15% da sua votação veio da cidade que ele quer governar. Em solo canela-verde, Hudson foi só o 13º candidato mais votado (o 8º entre os eleitos). Ficou atrás dos outros dois “doutores” Hércules Silveira (MDB) e Rafael Favatto (Patriota).
Para lançar-se candidato em Vila Velha com alguma chance de êxito, Hudson precisará, em primeiro lugar, passar a enfrentar uma exposição muito maior. Em segundo lugar, terá que melhor sobremaneira seu desempenho eleitoral na cidade.
Para isso, o PRB lhe garante legenda. Ele é a aposta do partido. O presidente regional da sigla, Roberto Carneiro, já “convidou” o vereador Osvaldo Maturano a se retirar da direção municipal, a qual Carneiro quer passar para as mãos do próprio Hudson, de modo que ele possa montar o seu próprio grupo político na cidade, exercitando a sua especialidade. A ideia é que Hudson deixe o partido em Vila Velha à sua feição, para sustentar a sua candidatura a prefeito em 2020.
Mesmo se não for bem, o deputado não tem nada a perder (e sabe disso). Ganhando, vira prefeito. Perdendo, aumenta bastante o seu recall político, projetando-se para futuros pleitos. E terá mais dois anos de mandato garantido na Assembleia, até 2022.
Hudson x Maturano
Com 4.642 votos em Vila Velha na eleição a deputado estadual em 2018, Hudson Leal ficou atrás do vereador Osvaldo Maturano, que foi o 11º mais votado na cidade para o cargo, com 4.885 votos.
Evolução
Antes de chegar à Assembleia, em 2015, pelo PRP, Hudson jamais havia exercido mandato eletivo. Em 2014, ele foi o 16º candidato a deputado estadual no ranking dos eleitos, com 22.180 votos. Como vimos, em sua reeleição, no ano passado, saltou para a 6ª colocação, com mais de 30 mil votos.
De partidinho em partidinho...
Recapitulando: Hudson pertenceu ao PTN, mas se elegeu em 2014 pelo PRP. Aí, no meio do 1º mandato, filiou-se ao Podemos (antigo PTN, logo sua antiga casa). O deputado estava com o Podemos debaixo do braço até o início de abril de 2018, seguindo aquela sua estratégia de montar uma chapinha ao seu estilo, com candidatos leias a ele e com iguais chances de vitória. No entanto, a filiação da senadora Rose de Freitas, no limite do prazo, para concorrer ao governo do Estado, levou uma série de aliados de Hudson a abandonarem o Podemos, e ele mesmo acabou indo parar no PRB.
Hudson x Gilson Daniel
Essa foi exatamente a razão da briga política de Hudson Leal com o prefeito de Viana, Gilson Daniel, presidente estadual do Podemos à época e até hoje. Gilson estendeu tapete vermelho para Rose, a contragosto de Hudson. Diga-se de passagem, o desentendimento ainda não foi superado. Das poucas manifestações de Hudson em plenário neste ano, a mais enfática foi precisamente para destilar uma série de críticas ao prefeito de Viana, então candidato à presidência da Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes). Em março, Gilson elegeu-se para o cargo. 
Hudson x Devanir Ferreira
Hudson entrou no PRB em abril do ano passado contra a vontade do ex-vereador de Vitória Devanir Ferreira, que também aspirava a uma vaga na Assembleia Legislativa pelo mesmo partido (outrora comandado por ele no Espírito Santo). Décimo nono mais votado individualmente (teve 19.195 sufrágios), Devanir ficou como 1º suplente da coligação.
Hudson x Hércules
Não por acaso, o deputado Hércules Silveira, também médico e eterno pré-candidato a prefeito de Vila Velha, ficou sinceramente chateado com Hudson, em fevereiro deste ano. Rompendo uma tradição de anos na Assembleia, Hudson desta vez foi mais rápido que o colega de profissão e de plenário e propôs a realização de sessão solene em homenagem aos médicos. É mais um sintoma de que ele está mesmo em pré-campanha.
Hudson com Erick & cia.
Na eleição da Mesa Diretora da Assembleia no início de 2017, Hudson Leal foi um dos primeiros a apoiar a candidatura de Erick Musso, que desbancou o então presidente, Theodorico Ferraço (DEM). O apoio se repetiu neste ano, na reeleição de Erick. Com isso, Hudson hoje está forte na Casa e prestigiado pela atual direção. Vive nos gabinetes da presidência e da direção-geral, ocupada por Roberto Carneiro. Os três estão no PRB. Carneiro dirige o partido no Espírito Santo, de modo que Hudson tem a legenda garantida para concorrer à prefeitura canela-verde.
E Rodney?
Hoje secretário estadual de Segurança de Goiás, o ex-prefeito de Vila Velha Rodney Miranda ainda está filiado ao PRB. Não tem a menor chance de tirar de Hudson a legenda para disputar de novo a Prefeitura de Vila Velha. 
Amaro e renovação
Determinado mesmo a ser candidato, Hudson está apostando muito na onda de "renovação política" que varreu a praia em 2018 e pode rebater no ano que vem. Isso porque nunca foi candidato a prefeito de Vila Velha. Mas a principal aposta do deputado é o apoio eleitoral de Amaro Neto. O deputado federal também está filiado ao PRB e faz parte do mesmo núcleo político.
Rei das chapinhas
Definição de uma raposa da política vilavelhense: "Ele [Hudson] é craque em formar chapinha de vereador, vendendo a ideia de que o cara vai conseguir se eleger com poucos votos. É um articulador de baixo clero". Outro consenso é quanto ao empenho e à disciplina de Hudson no trabalho político de "formiguinha" para criar núcleos políticos. Ele realmente percorre o Espírito Santo inteiro.
Cena Política
Dia desses, em rara intervenção no plenário, Hudson reclamou com o aliado Marcelo Santos (PDT), que conduzia a sessão, porque entendeu que indicações dele haviam sido negadas. Ele entendera mal. Marcelo o corrigiu e o afagou: “Vossa Excelência tem prestígio aqui na Mesa e em plenário. E sabe disso. Vossa Excelência é um privilegiado”.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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