Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

Quando eles não voltam: o olhar das mães sobre a guerra

Se as mães tivessem a palavra final nas decisões sobre a guerra, talvez o mundo fosse diferente

Publicado em 09/03/2026 às 02h30

As mães não escolheram a guerra, tampouco buscaram protagonismo nesse cenário de dor e ausência. Foram jogadas, desde cedo, na turbulência do conflito, obrigadas a cuidar não apenas dos próprios filhos, mas também de irmãos, tios e primos, assumindo responsabilidades em meio a contextos que desafiam as éticas do cuidado.

Vivem e morrem em uma guerra que parece não ter fim, enfrentando diariamente desafios que colocam à prova sua resiliência e capacidade de amar diante do caos. O papel materno, nesses cenários, é marcado por uma luta invisível, onde a sobrevivência e o afeto caminham lado a lado, apesar das adversidades impostas por uma realidade brutal.

Ann Maria Reeves Jarvis, que perdeu nove filhos e dedicou-se ao cuidado de feridos, tornou-se símbolo de resistência e solidariedade. Durante a Guerra de Secessão (1861-1865). Ann criou clubes comunitários com o objetivo de valorizar o trabalho de cuidado exercido pelas mulheres, que atendiam os feridos do conflito, que ceifou a vida de mais de 700 mil norte-americanos, mas também combatiam as altas taxas de mortalidade infantil, promovendo noções de higiene, saneamento, e organizando redes de apoio com medicamentos e assistência social.

Se as mães tivessem a palavra final nas decisões sobre a guerra, talvez o mundo fosse diferente. O coração materno, sensível a cada notícia de conflito, permanece angustiado ao perceber que, por trás de cada uniforme, há uma história singular, sonhos por realizar e, acima de tudo, um filho amado.

Para essas mães, nenhum discurso de glória ou promessa de paz pode justificar a dor da perda, pois a experiência materna revela a verdadeira dimensão do sofrimento causado pela guerra. Slogans e justificativas oficiais não conseguem aliviar o peso da ausência, tornando as mães vítimas silenciosas e invisíveis da insensatez humana.

No tabuleiro cruel onde líderes movem estratégias e tomam decisões frias, frequentemente se esquece que cada peça representa vidas reais: filhos, mães, famílias e laços profundos de amor. A essência da paz só poderá ser alcançada quando o valor da vida humana superar qualquer disputa de poder ou interesse estratégico. Até que esse reconhecimento seja possível, as mães continuarão a chorar pelos seus filhos, lembrando-nos constantemente do custo humano dos conflitos.

Desde os primórdios da civilização, guerras são travadas por motivos de controle de poder, interesses econômicos e disputas territoriais. Essas batalhas costumam surgir de relações tensas e desejos subjetivos, alimentados por ambições pessoais. A natureza humana, embora tenha características intrínsecas, raramente se revela de forma transparente, manifesta-se por meio de narrativas construídas que tentam justificar o injustificável: a destruição de vidas.

Smoke rises in the sky after blasts were heard in Manama, Bahrain. Ataque dos Estados Unidos ao Irã
Fumaça em região do Bahrein, após ataque dos Estados Unidos ao Irã. Crédito: REUTERS/Stringer

Historicamente, as narrativas criadas em torno dos conflitos buscam legitimar ações que resultam em consequências devastadoras para indivíduos e famílias. São discursos que procuram dar sentido à violência e à perda, transformando o sofrimento humano em argumentos para manter ou conquistar poder. Contudo, essas justificativas dificilmente conseguem ocultar o verdadeiro impacto da guerra sobre aqueles que a vivenciam.

Quando os filhos não regressam dos campos de batalha, a dor das mães revela a verdadeira dimensão da guerra.   Um mundo guiado pelos corações maternos seria feito de gestos de carinho, refeições quentes e abrigo aconchegante para os que sentem frio, nunca de trincheiras e despedidas sem retorno.

Esse olhar reforça a ideia de que, por trás de cada soldado, há uma história de amor e esperança, e que as mães, se tivessem voz nas decisões, escolheriam sempre a vida. Quando eles não voltam, a decisão das guerras deveria ser das mães, certamente o mundo seria mais seguro, com carinho, comida quentinha e um casaco, se fizer frio.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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