Publicado em 8 de março de 2026 às 11:10
A China não está sendo afetada diretamente pela guerra no Oriente Médio — até agora. Mas está sentindo as ondas de choque.>
No curto prazo, o país tem reservas de petróleo suficientes para vários meses. E, depois disso, Pequim poderá pedir ajuda para a vizinha Rússia.>
Mas a China irá calcular o que isso pode significar a longo prazo, não apenas para os seus investimentos no Oriente Médio, mas também para suas ambições globais.>
No início de março, milhares de delegados do Partido Comunista Chinês estão reunidos em Pequim para discutir o rumo a ser tomado pela segunda maior economia do mundo, que continua enfrentando baixos níveis de consumo, uma prolongada crise imobiliária e uma enorme dívida interna.>
>
Pela primeira vez desde 1991, o governo chinês reduziu suas expectativas de crescimento econômico, apesar do seu rápido desenvolvimento em alta tecnologia e indústrias renováveis.>
A China pode ter esperado que a exportação fosse a saída para os seus problemas econômicos. Mas o país passou um ano travando uma guerra comercial com os Estados Unidos.>
Agora, Pequim enfrenta a perspectiva de convulsões no Oriente Médio, que oferece as suas principais rotas de navegação e abastece grande parte das suas necessidades de energia.>
Quanto mais tempo se arrastar a guerra, maiores serão os prejuízos, especialmente se o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanecer bloqueado.>
"Um período prolongado de turbulência e insegurança no Oriente Médio prejudicará outros setores importantes para a China", segundo Philip Shetler-Jones, do centro de estudos britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês).>
Ele destaca que "as economias africanas, por exemplo, têm se beneficiado de fluxos constantes e substanciais de capitais do Golfo".>
"Se a onda de investimentos desaparecer, haverá o risco de aumento da instabilidade, o que prejudica a sustentabilidade dos interesses chineses maiores e de longo prazo.">
Ou seja, a pegada global da China faz com que seus investimentos e mercados além do Oriente Médio também fiquem vulneráveis à continuidade da guerra. E, como tantos outros países, a China está atenta a este novo período de imprevisibilidade.>
"Acho que a China pensa da mesma forma que todo mundo", segundo o professor Kerry Brown, do King's College de Londres. "Qual é o plano de jogo? Certamente, os americanos não entraram nisso sem um planejamento.">
"Mas, como todo mundo, provavelmente eles também estão pensando 'oh, meu Deus, eles realmente entraram nisso sem plano nenhum'", prossegue Brown.>
"'Certo, não queremos ser arrastados para isso, como não queremos ser arrastados para nada, mas também precisamos fazer algo.'">
Muitos no Ocidente sempre consideraram o Irã "aliado" da China. E, com certeza, os dois países têm sido amigáveis entre si.>
A última viagem para o exterior do ex-líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), foi para Pequim, em 1989. Ele chegou a ser fotografado na Grande Muralha da China.>
A parceria entre os dois países se aprofundou quando Xi Jinping visitou Teerã em 2016. E ambos assinaram uma parceria estratégica de 25 anos em 2021.>
A China prometeu investir US$ 400 bilhões (cerca de R$ 2,1 trilhões) no Irã ao longo de 25 anos. Em troca, o Irã manteria o fluxo de petróleo para Pequim.>
Mas analistas acreditam que apenas uma fração daquele dinheiro chegou aos iranianos. E o fluxo de petróleo foi mantido.>
A China importou do Irã 1,38 milhão de barris de petróleo por dia em 2025, segundo o Centro de Política Energética Global. O volume representa cerca de 12% do total das importações chinesas de petróleo bruto.>
Grande parte deste volume teria sido remarcada como de origem malaia, para ocultar sua origem.>
O centro de pesquisa da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, publicou um relatório afirmando que há mais de 46 milhões de barris de petróleo iraniano em armazenagem flutuante na Ásia.>
E existe ainda mais em armazenagem restrita, aguardando liberação da alfândega, nos portos chineses de Dalian e Zhoushan, onde há tanques alugados pela empresa National Iranian Oil Company.>
Existem também acusações de vendas de armas entre os dois países.>
A China nega ter vendido a Teerã mísseis de cruzeiros antinavios, mas a inteligência americana acusou Pequim de apoiar o programa iraniano de mísseis balísticos, treinando engenheiros e fornecendo componentes.>
Grupos defensores dos direitos humanos afirmam que a brutal repressão do Irã contra manifestantes e críticos do regime foi alimentada pela tecnologia chinesa de vigilância e reconhecimento facial fornecida por Pequim.>
Com tudo isso, pode parecer que os dois países são grandes amigos. As manchetes dos tabloides chegaram a reunir a China e o Irã em um "eixo da revolta", ao lado da Coreia do Norte e da Rússia.>
Os quatro países desejam questionar a ordem mundial liderada pelos Estados Unidos. Mas, na verdade, seu relacionamento é transacional.>
"Não há motivos reais, sejam eles culturais ou ideológicos, para que a China tenha amizade com o Irã", segundo o professor Brown.>
"O Irã, em alguns momentos, serviu bem à estratégia chinesa de quase 'dividir para conquistar', por ser uma irritação constante para os Estados Unidos", explica ele.>
"Por isso, acho que existem principalmente razões negativas para a China querer manter relações com o Irã, mais do que positivas.">
"Esta é uma base muito frágil para um relacionamento e funcionou até certo ponto. Mas não era uma relação muito profunda", afirma o professor.>
A China não considera suas "alianças" da mesma forma que o Ocidente. O país não assina tratados de defesa mútua e não virá correndo em auxílio ao seu aliado.>
Na verdade, Pequim pretende ficar de fora de qualquer tipo de conflito.>
Isso não significa que a China não esteja profundamente preocupada com o que está acontecendo no Oriente Médio.>
Pequim emitiu uma condenação tênue e previsível ao conflito, convocando um cessar-fogo entre as partes.>
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, afirmou ser "inaceitável que os Estados Unidos e Israel lancem ataques contra o Irã... ainda mais para assassinar flagrantemente o líder de um país soberano e instigar a mudança do regime.">
A verdade é que as ações de Washington na Venezuela, em janeiro, e agora no Irã destacaram os limites das parcerias dos dois países com a China.>
Nas duas ocasiões, Pequim se manteve à margem como observador, incapaz de ajudar os países que se encontram na sua órbita.>
A China tenta se posicionar como "contrabalanço responsável" aos Estados Unidos, explica Philip Shetler-Jones, mas, "em termos de equilíbrio militar, os EUA demonstram o que realmente significa ser uma superpotência, que é a capacidade de forçar resultados em qualquer cenário pelo mundo".>
Para ele, Pequim não é "uma superpotência do mesmo nível", apesar do seu poderio econômico. "A China não está preparada para proteger seus amigos contra este tipo de ação, mesmo se quisesse.">
Para combater estas preocupações, Xi continuará se posicionando como um líder global estável e previsível, em contraste com Donald Trump.>
"O argumento da China será que Donald Trump, mais uma vez, demonstrou além de qualquer dúvida a extensão da hipocrisia ocidental e do discurso do Ocidente sobre a ordem internacional liberal", afirma o professor Steve Tsang, diretor do Instituto China da Escola de Estudos Africanos e Orientais (SOAS, na sigla em inglês) da Universidade de Londres.>
As paralisações do fornecimento de energia e das viagens aéreas causadas por este conflito terão "ramificações econômicas muito maiores no Sul Global do que no Ocidente", segundo Tsang.>
"Alguns países sofrerão falta de alimentos em alguns meses... e serão países do Sul Global. Também estamos observando a ruptura da aliança ocidental, com o Reino Unido e a Espanha sendo escolhidos para críticas.">
Pequim também pode observar uma possibilidade de ajudar a mediar os diálogos com outros países.>
O ministro do Exterior Wang Yi já conversou com seus homólogos de Omã e da França. A China anunciou que irá destacar um enviado especial para o Oriente Médio.>
A China também pisa com cautela porque um dos maiores fatores para o país é o intempestivo presidente americano, que deve chegar a Pequim para uma reunião muito aguardada ainda este mês.>
Nenhuma das críticas chinesas aos ataques israelenses e americanos ao Irã foi dirigida diretamente a Donald Trump, o que pode facilitar um pouco os apertos de mãos durante o encontro.>
Alguns especularam se a visita ainda vai mesmo acontecer. Mas existem sinais de que ela continua programada.>
Autoridades dos dois lados devem se reunir para discutir a viagem, segundo a agência de notícias Reuters.>
Para Shetler-Jones, a China pode considerar esta oportunidade como uma chance de "procurar indicações" sobre como Trump pode reagir a outros pontos de conflito, como a questão de Taiwan, a ilha autogovernada reivindicada por Pequim.>
"À medida que esta guerra se mostrar impopular, ela poderá contribuir para a tendência cada vez maior de 'restrição' na política externa e de segurança dos Estados Unidos.">
"Se for colocada em ação por um governo futuro, esta tendência poderá oferecer à China maior liberdade para buscar seus interesses na sua própria região e no planeta como um todo", afirma ele.>
A crise atual apresenta a alguns na China a oportunidade de rotular Washington como país promotor de guerras, algo que o Exército de Libertação Popular chinês já fez nas redes sociais.>
Mas ter um agente tão "disfuncional e imprevisível" pode ser uma fonte de inquietação para Pequim, segundo Brown.>
"Não acho que a China queira um mundo dominado pelos EUA, mas eles certamente não querem um mundo em que os Estados Unidos sejam um participante tão instável", conclui o professor.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta