Um tempo atrás, fui apresentada a teoria da cauda ou dente. A referida teoria oriunda do ambiente militar, que poderia ser encontrada nas entrelinhas do badaladíssimo tratado “A Arte da Guerra” do general, estrategista e filósofo chinês Sun Tzu, mas não se tem ao certo a sua gênese, traz a reflexão de que o tubarão, para poder atacar a presa com seus dentes, precisa de todo impulso da cauda, que em um serpentear sincrônico garante velocidade ao grande peixe e força nas mandíbulas, que ao serem cravadas no alvo por meio dos dentes afiados alcança o objetivo.
Os dentes do tubarão somente têm a força que tem por causa da cauda, ou seja, aquela que fica atrás, mas que garante a potência dos dentes que estão à frente. Uma estratégia de guerra. Uma estratégia de vida.
A teoria em comento desvela um exímio trabalho em equipe, de sintonia fina e precisão cirúrgica para alcance de um objetivo. Ao ver o trabalho de equipe dos hospitais que têm atendido os vitimados pela Covid-19, composta por auxiliar de serviços gerais, técnicos de enfermagem, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, técnicos em equipamentos de imagem, técnicos em análises laboratoriais e médicos, a teoria da cauda e dente me ressaltou, restando patente que em qualquer guerra o trabalho em equipe é imprescindível para o alcance do resultado satisfatório.
Outro fator que é determinante para o bom resultado, além de conhecer o inimigo, é conhecer-se, ou melhor, conhecer a equipe, saber das potências e das fragilidades, e superar as intempéries que surgir no front de uma guerra que ainda está longe de ver seu fim, mas que já acumula mortos e mutilados.
Ressaltar o trabalho em equipe em tempos de individualismo é no mínimo interessante, ao passo que ao analisarmos que os doentes acometidos pela Covid-19 precisam ficar isolados, e sozinhos enfrentar seu deserto, sem familiares ou amigos, restando somente os membros da equipe de um hospital. Na sua solidão, os pacientes somente têm com eles agora uma equipe que mal conhece, mas que faz de tudo para lhe salvar, como em uma guerra, sendo cauda ou dente.
Já se sabe que a pandemia não deixou a humanidade melhor, considerando que cotidianamente nos deparamos com situações lamentáveis de pessoas que, não importa os tempos difíceis, a prioridade ainda reside no “eu”. Mas um aprendizado precisamos ter de que a saída para a situação que hoje vivemos é coletiva e não individual. Se assim não for, continuar-se-á patinando entre propostas mornas e enganadoras, como se placebo fossem, para dar um acalento falso à consciência, e enquanto isso, milhares de pessoas perdem a vida. E vamos pensando que não temos nada a ver com isso.
A existência do estrategista chinês é questionada por alguns historiadores, contudo alguns mais recentes datam seu trabalho no período dos Reinos Combatentes, cerca de 200 a.C. Mesmo com controvérsias, a sua obra ganhou o mundo e influencia culturas e políticas, e nos faz pensar calculadamente no enfrentamento em uma situação de múltiplas variáveis que nem sempre são somente objetivas, mas também subjetivas.