Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô / Mas que calor, ô ô ô ô ô ô / Atravessamos o deserto do Saara / O Sol estava quente, queimou a nossa cara / Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô / Mas que calor, ô ô ô ô ô ô” (“Allah-la-ô”, Haroldo Lobo)
Nem era necessário que a imprensa noticiasse que provavelmente 2023 será o ano mais quente da história, afinal a gente está sentindo na própria pele. E dependendo de onde se mora ou do tipo de trabalho que se faz, a quentura só piora. Fico imaginando, por exemplo, quem trabalha ao lado de um forno de pão ou vive numa cidade como Cuiabá ou Cachoeiro de Itapemirim, que inferno deve ser!
E tampouco é preciso ventar, pois o ar chega quente na nossa cara, aumentando o nosso desconforto.
Um calor assim só é bom mesmo para quem mora em cidade litorânea e pode curtir uma praia; ainda assim é algo que a maioria da população costeira apenas pode aproveitar nos finais de semana, e às vezes ainda tendo que enfrentar um busão sem ar-condicionado até conseguir chegar à areia beirando o mar e lá poder se refrescar.
Para tentar driblar o calor o mais comum é o ar-condicionado, algo que ameniza nosso desconforto, tem como desvantagem o valor gasto não só com o equipamento, como também com a energia.
Muitos cientistas há tempos nos alertam para o problema do aquecimento global, sempre lembrando que todos nós temos nossa parcela de contribuição nessa questão, apesar de termos a convicção que nossos pequenos atos cotidianos pouco podem afetar na piora do clima.
O ser humano do século XXI é também um ser urbano. E são as cidades, responsáveis por grande emissão de CO2 e com enorme consumo de energia, que geram ondas de calor que alteram o microclima local de onde estão assentadas. Elas estão entre as que mais sofrem com a reviravolta climática.
O caso mais evidente é São Paulo, com sua enorme mancha de concreto e asfalto se estendendo por centenas de quilômetros quadrados. Lá os temporais de fim de tarde são cada vez mais frequentes, provocando um enorme caos na vida da população, com engarrafamentos, quedas de árvores, falta de energia, enfim, transtornos e prejuízo econômico generalizado.
Há, porém, diversas estratégias capazes de diminuir o impacto ambiental causado pelas cidades e pelas pessoas que nelas vivem. Algo simples, por exemplo, é aumentar a quantidade de árvores por habitante no espaço urbano.
De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde) o mínimo recomendado para as cidades é uma árvore ou 12 m² de área verde por habitante, sendo que o ideal são três árvores ou 36 m² de área verde para cada cidadão. Mas não basta que se tenha tal quantitativo, pois é importante que haja uma distribuição homogênea do plantio por toda a região urbanizada.
No Brasil é comum vermos cidades que possuem avenidas inteiras sem nenhuma árvore, ou até mesmo bairros com poucas áreas verdes e sombreadas. Como é possível caminhar num lugar árido sob um sol intenso? E o que dizer dessas ciclovias (muito bem-vindas) que estão se espalhando por nossas cidades, porém sem que seja considerado a arborização como um item fundamental para amenizar o percurso do ciclista?
Entre os benefícios que as árvores proporcionam no meio urbano, podemos destacar:
- Melhoria da temperatura local do lugar arborizado, reduzindo a sensação térmica sob as áreas sombreadas;
- Absorção das águas pluviais, amenizando a rede de drenagem;
- Melhoria da poluição do ar;
- Melhoria da poluição sonora (afinal a folhagem absorve ruídos, principalmente do tráfego de veículos);
- Melhoria de paisagem urbana, deixando as cidades mais bonitas e agradáveis, e; também em função disso:
- Melhoria da autoestima da população pela presença do verde.
Uma estratégia que começa a ser amplamente defendida por órgãos técnicos e de pesquisa são os projetos de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que vão ao encontro dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), tal como preconizado pela ONU.
Resumidamente, para enfrentar os desafios que se colocam para o nosso planeta e as futuras gerações não é preciso “reinventar a roda”, pois parte das soluções já foram dadas pela própria natureza, ou alguém tem dúvida que nada melhor do que sombra e água fresca para enfrentar o calor.
Então, que sombreemos o mundo e preservemos nossas águas.