“- Mas isso é mentira!
- A Administração não mente. (...) Nem a Defesa. Elas simplesmente fazem omissões estratégicas, conforme autorizado pelo regimento interno oficial da cidade. Qualquer coisa necessária para proteger a cidade é permitida. Para manter todos seguros e produtivos.”
(“Dezesseis”, Rachel Vincent)
Desde que surgiu como resposta humana ao desenvolvimento dos primeiros grupos sociais, a cidade sempre vem sofrendo transformações que repercutem em seus próprios cidadãos, num processo de troca em via dupla, ou seja, a cidade é determinante para a visão de mundo do homem que nela habita, tanto quanto o conjunto da sociedade composto pelo homem determina os aspectos da forma urbana.
O fato é que ela, a cidade, é um organismo em constante mutação que sequer consegue paralisar suas ações em algum momento do seu dia a dia. Desde a aldeia primordial, passando pela antiga vila, e depois a cidade propriamente dita, que hoje se tornou metrópole e até megalópole, em alguns casos, a trajetória das urbes é caracterizada por uma incessante transfiguração, com destaque aos impactos sofridos no período da Revolução Industrial com a chegada das estruturas fabris e dos veículos motorizados, entre eles o bonde, o trem e o automóvel.
O modernismo, da virada do século XIX para o século XX, tentou dar resposta para as necessidades desta nova cidade motorizada, mecanizada e industrializada, o que provocou tantas mudanças na sua forma como as que ocorreram no período anterior.
Agora, porém, está em curso uma nova etapa da história urbana, e da qual muitos pesquisadores, centros de investigação, empresas (notadamente na área de tecnologia) e até mesmo alguns governos enxergam como um novo marco capaz de revolucionar as cidades. Trata-se do conceito de “cidades inteligentes”, estruturado nas soluções de TI (tecnologia da informação), visando monitorar e gerenciar o funcionamento das áreas urbanas.
São várias as soluções disponíveis para as administrações municipais controlarem a dinâmica da cidade. Bueiros com sensores emitirão alerta do fluxo de água pluvial na rede de drenagem. O nível da iluminação pública será controlada conforme a claridade do dia, e sempre que uma lâmpada queimar, um aviso será dado à central de monitoramento, que imediatamente enviará uma equipe para efetuar a troca do item com defeito.
Semáforos controlarão a passagem de veículos, pedestres e bicicletas num cruzamento de acordo com a demanda local e até expandida. Se adiante, numa via, houver um engarrafamento, o semáforo poderá reter uma maior quantidade de veículos naquele sentido, liberando no outro, cuja via encontra-se livre. Assim não dependeremos da presença física de guardas tentando controlar o fluxo, até por que, na hora do rush, num dia de chuva, quase não os vemos nas ruas, justamente quando eles são mais necessários.
Os sensores serão cada vez menores, mais baratos, mais eficientes e mais interconectados, de tal modo que tudo na cidade será monitorado. Mas não será aí justamente que mora o perigo?
O chamado “cerco inteligente de segurança” já usado em algumas cidades, recapturando veículos roubados ou bloqueando-os quando são suspeitos de alguma irregularidade ou infração, se é positivo para a paz urbana, não poderia também extrapolar para uma vigilância total, privando-nos do direito à privacidade? Não seria uma espécie de Grande Irmão ou BBB?
Cidades como Londres e Nova Iorque, entre outras, sempre ameaçadas por atos terroristas, cada vez investem mais no monitoramento social, que coloca todo cidadão como suspeito. A China, na ambiguidade do seu regime político, já faz do controle biométrico facial uma prática recorrente.
Ditaduras existem, tanto as de esquerda quanto de direita, e ambas agem para ter controle absoluto sobre o povo governado por elas, usando como argumento a falácia de que eles sabem o que é melhor para as pessoas. Entretanto, esse talvez não seja o principal risco da expansão deste monitoramento que busca um controle total sobre do espaço no qual vivemos.
Sabemos que não há nenhum sistema que seja infalível, ou mesmo inviolável. Imaginem uma pane geral numa central de controle e monitoramento urbano, qual seria o resultado? Caos, caos, e mais caos, tal como já vimos muitas vezes naqueles filmes hollywoodianos de catástrofes. Uma descarga elétrica provocada por um raio ou um hacker teriam mais poder de paralisar uma cidade do que uma trágica enchente.
Uma das contradições da vida tecnológica contemporânea é o fato de que estamos sempre criando soluções, aparatos, dispositivos para resolver problemas que antes sequer existiam. Ou seja, inventamos novos problemas e depois nos esforçamos para achar um jeito de resolvê-los. Não seria melhor simplesmente voltar no tempo, numa época na qual nada destes problemas existiam?
Uma época na qual as cidades nem faziam questão de se considerarem “inteligentes”...