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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

Do limite físico e emocional ao sonho de dias melhores

Talvez seja a hora de as coisas voltarem um pouco ao que eram. Talvez seja a hora de voltarmos a sonhar

Publicado em 15/07/2021 às 02h00
Emprego: construção civil
É claro que alguém que carregou saco de cimento nas costas diariamente durante anos e anos sonha em se aposentar e nunca mais fazer nada na vida. Crédito: Skeeze/Pixabay

“Ora bolas, não me amole / Com esse papo, de emprego / Não está vendo, não estou nessa / O que eu quero? / Sossego, eu quero sossego” (“Sossego”, Tim Maia)

É claro que alguém que carregou saco de cimento nas costas diariamente durante anos e anos sonha em se aposentar e nunca mais fazer nada na vida. A legislação que obriga a substituição do saco de cimento de 50 kg por embalagens mais leves, em prol da saúde do trabalhador, e absurdamente postergada em acordo judicial pelas empresas do setor, chega tarde demais para aqueles que estiveram se dedicando a construir todo tipo de construção até agora.

Do ponto de vista da produção dos sacos de cimento, não há nenhuma justificativa técnica que impeça a mudança imediata para pacotes menos pesados. Ou seja, os operários da construção civil ainda vão sofrer um bocado.

Na verdade, sabe-se que muitos outros trabalhadores chegam ao limite físico e emocional bem antes do que as regras previdenciárias possibilite a aposentadoria. O jeito é estender a vida profissional até o ponto no qual encontram-se esgotados, já sem força que permita aproveitar o tempo que lhes restam. Bem, pensando melhor, excluindo muito político, é provável que quase todo mundo só consiga mesmo parar de trabalhar quando se encontre na exaustão total.

A expressão “divisão social do trabalho” acabou ganhando um viés ideológico no qual esquerda e direita, ou ainda, o socialismo e o capitalismo vivem medindo forças. Não era pra ser assim. Do ponto de vista técnico, trata-se da organização da sociedade por categorias produtivas, nas quais cada um realiza uma atividade específica (conforme sua vocação, oportunidade, interesse, etc.), uma vez que não somos capazes nem temos conhecimento para fazer tudo que necessitamos para viver.

Alguém que domine as técnicas agrícolas, produz alimentos que, por sua vez, serão transportados por quem saiba dirigir um caminhão. Os produtos transportados serão vendidos por quem tem aptidão para o comércio, cujos clientes podem ser donos de restaurantes ou um professor, que tem como trabalho ensinar a seus alunos, e que compra os alimentos para ele preparar sua própria comida nos finais de semana, quando não dá aula. Durante a semana, como o tempo é curto, ele é obrigado a comer no restaurante perto da escola.

Tem quem nasceu para ser médico ou enfermeiro, todos eles nossos heróis do momento. Outros são artistas que alegrarão e poetizarão nossas vidas. Alguns têm predisposição para construir casas, pavimentar ruas, instalar redes de TI, que nunca foram tão necessárias como agora.

E assim a vida vai se organizando. Ou melhor, estava organizada, já que a pandemia, o confinamento, o fechamento de empresas, a crise econômica, o desemprego, bagunçou muita coisa. Felizmente, parece que a Covid-19 está arrefecendo e, em consequência, a economia dá leves sinais de melhora.

Mas muitos danos foram severos, e algumas sequelas sócio-comportamentais podem perdurar ou até mesmo se tornarem permanentes.

Estamos todos muito cansados. E isso vale tanto para aqueles que permaneceram trabalhando presencialmente durante a pandemia, adotando os protocolos sanitários para protegerem-se de possível contágio, como para os que migraram para o formato remoto, que misturou os afazeres domésticos com as atividades laborais. Para estes, em particular, a divisão social do trabalho passou a fazer todo sentido, afinal, de uma hora pra outra, seus compromissos profissionais se juntaram aos cuidados com os filhos no ensino on-line, na limpeza da casa, em fazer a comida e lavar a louça, e assim por diante. De repente eles se viram esgotados, e nem atividade física estavam fazendo, pois tiveram que trancar a academia.

Talvez seja a hora de as coisas voltarem um pouco ao que eram. Talvez seja a hora de voltarmos a sonhar. O curioso é que o sonho traz lembranças de um passado que se foi e não volta mais. Mas é provável que o projetemos para o futuro, sonhando na chegada do momento no qual poderemos deixar tudo de lado, chutar o pau da barraca, dar um ninja, sair à francesa, jogar fora a máscara e juntar a galera pra dançar até o sol raiar.

“Tira essa escada daí / Essa escada é prá ficar / Aqui fora / Eu vou chamar o síndico / Tim Maia! / Tim Maia! / Tim Maia! Tim Maia!” (“W/Brasil”, Jorge Ben)

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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