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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

Não vamos deixar de viver no Paraíso por causa das serpentes que andam por aí

A despeito do seu esplendor, este lugar quase paradisíaco que é o Brasil vem sofrendo muito por conta da insensibilidade de algumas pessoas que parecem ter deixado o altruísmo de lado e mostram-se como verdadeiras serpentes

Publicado em 08/07/2021 às 02h00
Cataratas
Cataratas do Iguaçu, em época de cheia:  baixos índices pluviométricos mudaram a paisagem. Crédito: Christian Rizzi/Fotos Públicas

Desde que Eva, seduzida pela serpente, pisou na bola e fez com que fôssemos expulsos do Paraíso, o homem tem como grande desafio um embate com e contra a natureza. De qualquer modo, é preciso reconhecer que o nosso lugar é formidável, afinal o que dizer de uma praia nordestina ou das montanhas mineiras? Ou dos manguezais que margeiam nosso litoral, ou ainda dos nossos rios e cachoeiras espalhadas por todo o território brasileiro, só para ficarmos nesta parte do mundo.

E parece que é mesmo o momento de focarmos em nossa terrinha, afinal, por causa da pandemia, que no Brasil atingiu níveis trágicos quando comparado com outras partes do planeta, o brasileiro se tornou persona non grata. Com isso, à medida que a vacinação avançar, as coisas melhorarem e pudermos voltar a viajar, o jeito será praticar o turismo doméstico, ou seja, viagem só por aqui mesmo.

O problema é que, a despeito do seu esplendor, este lugar quase paradisíaco que é o Brasil vem sofrendo muito por conta da insensibilidade de algumas pessoas que parecem ter deixado todo o altruísmo de lado, mostram-se como verdadeiras serpentes, tal qual aquela do Gênesis, e insistem em querer destruir as benesses que a natureza nos vem dando ao longo da história.

É muito estranho, pois sem as dádivas divinas que formam o nosso ambiente natural, nós não teríamos chegado até aqui. E se tudo continuar como tais pessoas vem querendo, certamente que não chegaremos muito longe.

O que se viu há pouco no Canadá, com pessoas morrendo por causa de uma onda de calor intenso e inesperado em um lugar conhecido por ser extremamente frio, é só um dos muitos exemplos dos riscos que todos nós corremos. Um acontecimento desse num país desenvolvido pode ser exemplar, pois o Brasil atual, que parece caminhar na contramão de tudo que seja sensato e prudente, poderia tirar alguma lição da tragédia.

Como é o caso da atual crise hídrica que estamos vivendo aqui e agora, pois ela talvez seja um sinal dessa desmesura com o meio ambiente. A conta mais cara da energia elétrica é apenas um paliativo que afetará principalmente a população mais pobre, que já cortou até o gás de cozinha e vem usando lenha para fazer comida.

O Paraíso terrestre não é perfeito não, é preciso alguns ajustes para nele vivermos. Esse é o destino da humanidade após a mordida na maçã. Mas até agora a relação sempre foi, na maioria das vezes, amistosa.

Contudo, o que estamos vendo atualmente é uma insana e alienada tentativa deliberada de acabar com a biodiversidade daquelas áreas que sobreviveram à ambição humana pregressa, achando que tal insanidade e alienação não terão consequências futuras.

Uma das características do planeta é a sua heterogeneidade, seja na paisagem, clima, biomas, cultura, entre outros aspectos, e que faz com que cada lugar seja diferente dos demais, cada parte do território tenha sua particularidade. Neste sentido, sempre há alguns lugares mais bonitos e espetaculares do que outros, sempre encontraremos ambientes mais propícios para a ocupação humana, enquanto outros serão mais inóspitos.

Mas um lugar árido, quase desértico, pode também ter sua beleza na sua quase infinitude, singeleza e aparente monotonia paisagística que lhe dá uma imagem forte, potente, caso tudo isso seja a sua vocação. Algo muito diferente é ver um ambiente antes farto, variado, repleto de verde, com intensa flora e fauna tornar-se quase um deserto por causa da estupidez humana, principalmente quando tal estupidez é motivada por uma simples ambição financeira e desprovida de qualquer sentido de benevolência com o conjunto da sociedade.

O que ocorre nas Cataratas do Iguaçu, em consequência tanto dos baixos índices pluviométricos (que alguns poderão dizer que é decisão divina), como da diminuição da Mata Atlântica na região, e em especial da perda da mata ciliar na margem do Rio Iguaçu (agora sim, o culpado é o homem, e apenas ele), é mais um exemplo do que não gostaríamos que fosse o nosso destino,  de mais uma vez deixar de viver no Paraíso, agora por causa da astúcia e inconsequência de não apenas uma, mas de muitas serpentes que andam por aí.

E assim, tornando-nos párias impedidos de visitar outros países, e vendo nossos destinos turísticos perdendo sua beleza e exuberância, teremos que nos conformar em ficar em casa?

Alô governo, alô grileiro, alô madeireiro, alô garimpeiro, alô latifundiário, alô seu deputado e seu senador que, entre outras coisas, votarão o PL 490, vossas excelências não se enganem, a fatura virá!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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