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A banalidade das coisas

Tecnologia ao nosso redor não supre as necessidades emocionais

Transcorrido mais de um ano de pandemia, muita gente admite que já está cansada de viver e ver o mundo através de uma tela

Publicado em 01 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

01 jul 2021 às 02:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Mulher no celular
Confinamento fez com que as pessoas demandassem ainda mais o uso de aparatos tecnológicos Crédito: Freepik
“Anda, vem jantar / Vem comer, vem beber, farrear / Até chegar Lumiar / E depois deitar no sereno / Só pra poder dormir e sonhar” (“Lumiar”, Beto Guedes / Ronaldo Bastos)
O homem, ao longo de toda a sua história, vem buscando meios de tornar sua vida cada vez mais cômoda, segura e longeva.
E, de fato, temos vivido cada vez mais, apesar de tantas mortes provocadas por armas de fogo, por acidentes de trânsito ou mesmo por um vírus até então desconhecido e que anda junto com muita gente que insiste em fechar os olhos para a ciência e os protocolos sanitários. Ou seja, se de um lado temos os avanços científicos e tecnológicos que nos fornecem comodidade, segurança e longevidade, por outro, o próprio ser humano em seu egoísmo, mesquinhez e arrogância, desfaz todas aquelas conquistas que poderiam nos deixar ainda mais longe em termos de progresso social e qualidade de vida.
Entretanto, sob a ótica da prosperidade e desenvolvimento que a humanidade vem galgando, saber coar café, fritar um ovo ou tomar um bom banho após um dia de labuta, acabam sendo quase tão necessários quanto uma vacina que salva vidas ou um serviço de streaming que entretém as pessoas. E nem se trata de uma contradição, mas aparentemente a banalidade do café, do ovo frito e do banho ganharam ainda mais importância nestes tempos de Covid-19.
A questão é o momento atual que, graças ao confinamento, fez com que as pessoas demandassem ainda mais o uso de aparatos tecnológicos e de seus aplicativos, afinal de uma hora para outra estávamos migrando do mundo presencial para o on-line.
Aulas remotas, home office, internet banking, telemedicina, e-commerce, além do já citado streaming, eram termos pouco presentes em nossas vidas, mas que chegaram como uma avalanche e, pelo jeito, não sairão mais de cena. Lives musicais, comemorações e reuniões via Zoom ou Meet, treinos físicos via YouTube, enfim, a galera, com ajuda da tecnologia, encontrou solução pra tudo. Mas transcorrido mais de um ano de pandemia, muita gente admite que já está cansada de viver e ver o mundo através de uma tela.
Fica um sentimento de que toda esta tecnologia ao nosso redor é insuficiente para suprir nossas necessidades emocionais e afetivas. Presos dentro de casa, nos demos conta que nada nos faria mais feliz agora do que poder estar numa casinha simples, rodeada de verde, em contato com nossos bichinhos de estimação, mas também vendo os passarinhos voando soltos e depois, já pousados nos galhos das árvores, ouvi-los cantar.
Algumas coisas não poderiam faltar na casinha: a primeira, com certeza, é uma rede na varanda, de onde se poderia ver o sol se pôr atrás da mata. Um fogão à lenha também seria algo a ser considerado, deixando ali um bule de café sempre quente para aquecer as manhãs. À tarde, o calor seria dado por uma boa cachaça da roça.
Claro, nada disso faria sentido se ali não estivessem conosco nossa família e aqueles amigos especiais.
Nesse lugar, mesmo que tivesse conexão de internet, uma facilidade do mundo contemporâneo, provavelmente esqueceríamos das lives, dos encontros on-line, ou qualquer outro tipo de atrativo vindo por uma tela de vidro. Após o café, uma caminhada de manhã acompanhado do nosso cachorrinho e mais tarde ler um livro de papel, deitado na rede, seriam duas boas opções para gastar o dia.
Ainda que estivesse um pouco afastado dos melhores médicos e serviços hospitalares, pode-se prever que muitas doenças estariam longe dali, principalmente aquelas comportamentais que tanto estrago fazem nos dias atuais e que também contribuem para a diminuição da imunidade do nosso organismo, atraindo assim outros distúrbios, num círculo vicioso.
Longe das telas de vidro, nossa visão estaria descansada, dormiríamos num sono profundo e relaxado. Sem serviço de delivery de comida a disposição na região, o jeito é ir pro fogão, botar a mão na massa, usar temperos colhidos na própria horta, comendo significativamente melhor, com mais sabor e mais felizes.
É, talvez muitos não se vejam neste lugar, vivendo deste jeito, nesta casinha, e prefiram continuar num apartamento, totalmente conectado com o mundo via wi-fi, 4G ou fibra ótica. É mais fácil e rápido um café numa máquina de expresso, pedir comida por aplicativo ou, senão, preparar algo no air fryer, e assim por diante. O problema é que pra isso vamos precisar de muita energia, energia elétrica, cada vez mais cara. Sem falar no banho, que terá que ser rapidinho para poupar água, seja aqui ou lá na casinha.
“Levantar e fazer café / Só pra sair caçar e pescar / E passar o dia / Moendo cana, caçando lua / Clarear de vez Lumiar”

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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