Quando analisamos os números, não é difícil constatar o quanto a globalização avançou e o quanto isso significou em termos de aumento da eficiência produtiva e geração de renda em nível global nas últimas quatro décadas.
Segundo o Banco Mundial, de 1986 a 2008, a corrente de comércio mundial sobre o PIB global aumentou de 35% para 61%, impulsionada pela criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, e a formalização de centenas de acordos de livre comércio.
Quanto ao comércio de partes e componentes, que na década de 1980 representava cerca de 40% das trocas internacionais, esta participação chegou a 67% em 2008, consequência da formação das cadeias globais e regionais de valor e do redirecionamento do portfólio global de investimentos para os países de mão de obra mais barata, com destaque para a China.
Ao longo desse mesmo período, a taxa de pobreza nos países em desenvolvimento caiu de 40,1% em 1995 para cerca de 10,6% em 2022, enquanto a participação desses países nas exportações de bens e serviços globais aumentou de 16,5% para 32,2% no mesmo período.
Em que pese os ganhos trazidos pelo aumento da integração econômica global das últimas décadas, o número de medidas protecionistas vem crescendo significativamente desde a crise financeira global de 2008, sobretudo nas economias desenvolvidas.
Nessas economias, o aumento da desigualdade de renda e a crescente perda de empregos no setor manufatureiro destes países, geralmente creditada à concorrência desleal das importações chinesas, além da questão migratória, tem-se os ingredientes para o recrudescimento do sentimento antiglobalização, o qual passou a influenciar significativamente as preferências eleitorais nos Estados Unidos.
Esse é o contexto pelo qual Donald Trump foi eleito, em 2024, para comandar a Casa Branca mais uma vez e que justifica, na visão dele e do seu eleitorado, o aumento do protecionismo norte-americano. Em março, os EUA já tinham anunciado tarifas para importação de produtos do México (25%), Canadá (25%) e China (20%), além de tarifas de 25% para importação de aço e de alumínio (que afetam o Brasil, por exemplo).
Essa escalada protecionista culminou com o anúncio feito no último dia 2 de abril de um conjunto de tarifas recíprocas para produtos importados, denominado pelo próprio Trump de “Dia da Libertação”. Tais tarifas variam de um mínimo de 10% até um máximo de 50% para 185 países, em função do déficit comercial dos EUA com essas nações, mas com uma base de cálculo que carece de fundamentos.
O objetivo dessas tarifas, na visão do governo americano, é de reduzir o déficit comercial dos EUA (que chegou a US$ 918,4 bilhões em 2024, o 2º maior desde 1960), e de reindustrializar o país (que já representou 40% do PIB global, em 1960, e atualmente representa cerca de 25%).
Contudo, vários analistas têm estimado que os efeitos dessas tarifas serão adversos para a economia: i) recessão global, sobretudo nos EUA, China e União Europeia; ii) redução do comércio global em até 2,8%; iii) inflação global tende a subir, o que prejudica e muito os mais pobres; iv) o custo de capital tende a subir, pois diversos Bancos Centrais possivelmente terão que aumentar os juros para conter o aumento do nível de preços.
Como esperado, as reações a esse “tarifaço” têm sido muito fortes. Vários líderes mundiais têm expressado preocupação e descontentamento com esse movimento unilateral dos EUA, alegando que isso está pondo em xeque a estrutura de comércio global que vinha sendo construída desde o final da Segunda Guerra Mundial. Além disso, as bolsas de valores têm sofrido fortes quedas e as moedas, sobretudo de países emergentes, têm se desvalorizado.
Em resposta à crise instalada, o governo americano anunciou no último dia 8 a redução das tarifas para 10% por um período de 90 dias. As exceções são: China (125%), Canadá (25%), México (25%) e para produtos como aço, alumínio e automóveis (25%). A China tem respondido a imposição de tarifas dos EUA, numa escalada que não se sabe onde vai parar. O líder chines, Xi Jinping, afirmou no dia 11 que “não há vencedor numa guerra de tarifas, e ir contra o mundo levará ao isolamento”.
No caso do Brasil, a tarifa para produtos exportados para os EUA é de 10%. Em resposta, o Senado Federal aprovou um projeto que cria mecanismos e autoriza o governo a retaliar países ou blocos que imponham barreiras comerciais a produtos brasileiros.
Quais são os principais impactos econômicos dessas tarifas para o Brasil?
- Uma estimativa feita por colegas do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG) mostra que essas tarifas tendem a causar um pequeno aumento do PIB brasileiro (0,02%) em função do aumento das exportações de produtos agrícolas, sobretudo a soja;
- Por outro lado, essa mesma estimativa do Cedeplar/UFMG mostra que o setor industrial tende a perder US$ 3,5 bilhões em exportações, além de redução na sua produção de US$ 5,1 bilhões, o que sugere mais “desindustrialização” na economia;
- No ano passado a China exportou US$ 539 bilhões para os EUA e com as tarifas impostas pelos americanos é provável que o país asiático procure outros mercados para os seus produtos, o que pode aumentar a concorrência com o setor industrial brasileiro;
- Com a instabilidade e o aumento da incerteza nos mercados globais, o Real tende a se depreciar, o que alimenta a inflação. Isso dificulta o afrouxamento da política monetária, o que pode inibir investimentos e elevar o custo de capital.
Nesse sentido, o que poderíamos fazer?
Governo federal:
- No campo diplomático, é essencial acionar os canais adequados para questionar a medida, buscando reversão ou compensação;
- A modernização de portos e a melhoria de infraestrutura logística são medidas de alto impacto. É importante o governo tomar medidas para fortalecer a competitividade do setor produtivo sem recorrer a subsídios, o que pressionaria ainda mais as contas públicas e as taxas de juros;
- Fomentar a diversificação de mercados e de produtos exportáveis, com o objetivo de reduzir a vulnerabilidade externa. Nos últimos 12 meses encerrados em fevereiro, o déficit nas contas externas do Brasil chegou a 3,28% do PIB.
Setor produtivo:
- Para os exportadores, sobretudo aquelas empresas que exportam para os Estados Unidos, devem avaliar oportunidades em outros mercados, dado a imposição de tarifas pelos americanos;
- Para os importadores, é fundamental que façam operações de hedge para “travar” suas operações cambiais, dado a tendência de oscilação e de depreciação do Real;
- E para as empresas que atendem o mercado consumidor interno é preciso aumentar a produtividade, pois as margens tendem a se reduzir e a competição com importados pode aumentar.
Concluindo, não podemos esquecer que em termos de relações internacionais os países não têm “amigos”, eles têm interesses. Esse protecionismo americano não é novidade e marcou a agenda econômica por lá nos anos 1930. Temos que nos preparar para o pior cenário, qual seja, Trump não vai recuar do seu “tarifaço”.
Meu argumento é que o cálculo dele não é econômico nem financeiro, é político. É bem provável que a economia mundial entre em recessão na proporção vista há alguns anos durante a pandemia, com grave desarranjo das cadeias produtivas de valor (por quanto tempo?), e o Brasil tem que se preparar melhor para isso.