Publicado em 10 de abril de 2025 às 06:39
Durante dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e sua equipe da Casa Branca insistiram que estavam totalmente comprometidos com a decisão de impor tarifas "recíprocas" abrangentes a dezenas de países. Eles chegaram até a ridicularizar uma reportagem na terça-feira (08/04) que dizia que o presidente estava considerando uma pausa de 90 dias na cobrança das tarifas — notícia que desencadeou uma breve alta no mercado de ações.>
Mas agora esta pausa nas taxas tarifárias mais altas, com algumas exceções notáveis, é uma realidade. A reformulação da ordem econômica global está em suspenso, e a promessa de Trump de uma era de ouro da manufatura americana vai ter que esperar.>
A Casa Branca afirmou que o plano desde o início era impor tarifas altas e depois dar uma pausa antes de iniciar negociações com países individualmente.>
"Mais de 75 países entraram em contato conosco, e imagino que, depois de hoje, haverá mais", declarou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a jornalistas logo após o anúncio.>
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Essa formulação da Casa Branca não é surpreendente, é claro. E é difícil ignorar o pânico dos investidores, a queda no mercado de títulos, o coro crescente de críticas republicanas e a desaprovação pública que precederam o anúncio.>
Mas, afinal, foi um recuo estratégico diante de uma resistência inesperada ou mais um exemplo da estratégia da "arte da negociação" de Trump em ação?>
Não demorou muito para que os assessores de Trump — muitas das mesmas pessoas que disseram que ele jamais recuaria — se dispersassem e comemorassem a decisão do presidente.>
Peter Navarro, assessor comercial de Trump, disse que a situação tarifária do presidente "se desenrolou exatamente como deveria".>
"Vocês claramente não conseguiram ver o que o presidente Trump está fazendo aqui", afirmou a secretária de Imprensa, Karoline Leavitt, a um grupo de jornalistas reunidos. "O mundo inteiro está ligando para os Estados Unidos da América".>
Eles foram menos claros sobre os detalhes da suspensão das tarifas de Trump, anunciada por meio de uma postagem em sua plataforma Truth Social. >
A trégua em relação às tarifas mais altas se aplicava à União Europeia? O México e o Canadá, que haviam evitado as tarifas básicas originais de 10%, foram de alguma forma incluídos agora? As tarifas direcionadas a setores específicos foram afetadas?>
No fim das contas, a Casa Branca acabou esclarecendo algumas destas questões — mas durante horas os parceiros comerciais dos EUA tiveram que analisar a postagem de Trump na plataforma Truth Social e obter detalhes a partir das respostas às perguntas feitas por grupos de jornalistas.>
Na tarde de quarta-feira, Trump reconheceu que os mercados pareciam "bastante abatidos" e que "as pessoas estavam ficando um pouco nervosas" — um reflexo que minou parte da bravata que ele expressou na semana passada, e pode sugerir o verdadeiro motivo da sua mudança de curso em relação às tarifas.>
No início do dia, ele estava na plataforma Truth Social, pedindo às pessoas para "manterem a calma!" e prometendo que "tudo vai dar certo". E, na segunda-feira, ele atacou o que chamou de "panicans" — um partido baseado em "pessoas fracas e estúpidas" que não tiveram paciência com seus esforços.>
Por fim, foi Trump quem adotou uma mudança abrupta de rumo.>
Ele insistiu, no entanto, que seu anúncio de tarifas era algo que precisava ser feito, e que qualquer distúrbio econômico refletia uma enfermidade que havia sido autorizada a se alastrar na economia americana.>
Os democratas, por sua vez, pintaram um quadro menos otimista. O líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, acusou Trump de "governar pelo caos".>
"Ele está cambaleando, está recuando, e isso é uma coisa boa", ele disse.>
No fim das contas, o raciocínio por trás da decisão de Trump pode não ter importância.>
A realidade é que os EUA agora estão sendo gentis — ou pelo menos mais gentis —com as nações que enfrentaram seu ataque comercial retaliatório, embora Trump ainda esteja impondo uma tarifa geral de 10% que, por si só, teria sido uma grande notícia há apenas algumas semanas.>
No entanto, é um recuo suficiente para que o mercado de ações se recupere, e agora Trump está se voltando para uma guerra comercial com a China, que ele atacou com tarifas de 125%.>
Isso vai ter suas próprias repercussões econômicas globais, mas está mais alinhado com a recente política externa americana — incluindo a do ex-presidente democrata Joe Biden —, uma vez que busca conter as ambições chinesas.>
A grande incógnita, no entanto, é se as ações de Trump na semana passada — que colocaram aliados em apuros e ameaçaram a ordem global estabelecida — vão tornar essa estratégia mais difícil de ser adotada.>
E em 90 dias, quando a pausa de Trump expirar, o drama econômico e a incerteza desta semana podem recomeçar.>
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