Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Economia

ES 500 anos: a tradição de planejar o desenvolvimento econômico no ES

Essas mudanças começaram com os governos de Muniz Freire (1892/1896 e 1900/1904). O seu principal objetivo foi tornar Vitória o grande centro comercial do Estado e, talvez, levá-la a exercer também alguma polarização sobre regiões mineiras

Públicado em 

01 mar 2025 às 02:00
Sávio Bertochi Caçador

Colunista

Sávio Bertochi Caçador

O Espírito Santo entrou no século XX com uma economia muito incipiente se comparada com seus vizinhos da região Sudeste. Essa visão deteriorada do Estado fez despertar, em certos setores da elite política local, anseios por mudanças.
Essas mudanças começaram com os governos de Muniz Freire (1892/1896 e 1900/1904). O seu principal objetivo foi tornar Vitória o grande centro comercial do Estado e, talvez, levá-la a exercer também alguma polarização sobre regiões mineiras. Cabe lembrar que nessa época Vitória exercia um papel mais burocrático, pois concentrava os órgãos da administração pública estadual, e grande parte do café produzido no Estado era escoado pelo porto do Rio de Janeiro.
Para atingir tal objetivo, o plano de Muniz Freire contemplava três ações: (i) investir em infraestrutura no ES para facilitar o escoamento interno da produção de café; (ii) estimular a imigração; e (iii) implementar a modernização estrutural da Capital capixaba, projeto que ficou conhecido como o “Novo Arrabalde”.
Muniz Freire não viu todas essas ações se concretizarem durante seus dois mandatos, contudo, cabe destacar que todos os processos posteriores de dotação de uma infraestrutura logística no ES são um aprofundamento e derivam da visão defendida por ele no final do século XIX.
Outro governante com uma visão de futuro para o desenvolvimento econômico capixaba foi Jerônimo Monteiro (1908/1912). O seu principal objetivo era diversificar a economia capixaba, que sendo exclusivamente agrícola, se tornava vulnerável às oscilações de preços do café. A ideia foi investir na criação de condições para o desenvolvimento da indústria, que culminou com a constituição da Companhia Industrial do Espírito Santo, holding que abrigava inúmeros empreendimentos industriais instalados, sobretudo em Cachoeiro de Itapemirim.
Essa primeira experiência de industrialização capixaba fracassou porque não tinha lastro financeiro e mercadológico que a sustentasse. Todavia, a visão de Jerônimo Monteiro acendeu um alerta na elite política local: a economia capixaba precisava se diversificar para reduzir sua dependência do café e a industrialização seria um caminho para se atingir tal objetivo.
Jones dos Santos Neves governou o ES em dois momentos (1943/1945 e 1951/1955) e tinha um audacioso projeto desenvolvimentista. Uma de suas mais celebres expressões mostra a grandeza de seu projeto: “Os galhos dos cafezais do Espírito Santo já são insuficientes para suportar o peso de nossa economia”.
A proposta de Jones estava voltada para reestruturar a economia do Estado, com direção e sentido industrial, orientando-se pela diversificação econômica e diminuição da dependência da produção rural. A criação da Companhia Ferro e Aço de Vitória, em Cariacica, e da Itabira Agroindustrial, em Cachoeiro de Itapemirim, pode ser colocada como iniciativas da diversificação industrial local.
No governo Jones o planejamento mais formal se fez presente e de forma inédita. Com uma estrutura administrativa organizada, sua gestão elaborou o “Plano de Obras e Equipamentos”, considerado a primeira experiência brasileira de planejamento governamental. Outra ação governamental planejada foi o “Plano de Valorização Econômica do ES”, que priorizou um conjunto de investimentos públicos à época. Jones não viu a plenitude do seu projeto de um ES urbano-industrial acontecer, mas ele deixou um importante legado para o processo de mudança estrutural na economia capixaba que viria a se concretizar posteriormente.
No início da década de 1960, o governo federal, por meio do Instituto Brasileiro do Café (IBC), com o intuito de modernizar a cafeicultura em termos de produtividade, estabeleceu a política de erradicação dos cafezais antieconômicos. Isso representou um duro golpe na economia capixaba, em que 70% da sua renda dependia do setor agrícola: cerca de 54% dos cafeeiros capixabas foram erradicados!
A saída para essa crise econômica e social se deu com o governo de Christiano Dias Lopes (1967/1970). Na sua gestão foram orquestradas as mudanças administrativas e institucionais, que se fazem presentes e são relevantes até a atualidade para o ES. O documento que fundamentou o seu plano de governo foi o “Diagnóstico para Planejamento Econômico do Estado do ES”, a pedido e com financiamento da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes).
Imagem de conteúdo patrocinado
Porto de Tubarão - Vale Divulgaçao Crédito: Vale/Divulgação
Dias Lopes foi o grande artífice da passagem da economia capixaba do café para a indústria. Foi na sua gestão que o projeto de industrialização do ES, idealizado por Jones nos anos 1940, começou a ser colocado de pé. A estratégia básica do desenvolvimento deu-se através dos incentivos fiscais e fundos públicos como o Funres, o Fundap e o Decreto Lei nº 880/1969. A Codes, depois o Bandes, foi o órgão gestor de todo esse processo. Dias Lopes trabalhava a ideia de industrializar o Estado juntamente com a diversificação agrícola.
Já a gestão de Arthur Carlos Gerhardt Santos (1971/1975) foi marcada pelo aprofundamento e pela mudança da natureza do processo de industrialização do ES. Foi na sua gestão que se integrou o planejamento estadual com o federal via II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que tinha por meta desenvolver a indústria de base nacional.
A atração de investimentos de grande porte, que ficaram conhecidos como “Grandes Projetos”, representava a possibilidade de a economia capixaba dar um salto de desenvolvimento. Tais projetos foram a ampliação da atuação local da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a construção da unidade de pelotização da Samarco Mineração, da fábrica da Aracruz Celulose e da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST).
Esses “Grandes Projetos”, aliados à expansão e à modernização da agricultura capixaba e ao posterior crescimento da urbanização e dos setores de comércio e serviços,  possibilitaram que o ES passasse de um Estado de renda baixa, nos anos 1960, para um Estado de renda média, na atualidade. A importância que eles representam para o desenvolvimento econômico local é inegável, fruto do planejamento e articulação das elites políticas locais com o setor produtivo e com o governo federal.
O “Plano Estadual de Desenvolvimento” (PED) do governo Élcio Alvares (1975/1978) foi o último do gênero no século XX. A partir daí, a cultura local de planejamento foi perdendo força e conteúdo. Vale lembrar que desde o final dos anos 1970 até o final dos anos 1990 o ES passou por um período de baixa articulação política, mas conseguiu manter um dinamismo econômico, muito em função da maturação dos “Grandes Projetos”.
Nos anos 2000, o planejamento volta à cena da política capixaba, mas sem a mesma força que teve nos anos 1970: (i) não se tinha muita clareza das transformações econômicas e sociais que se queria perseguir; e era (ii) baixo engajamento dos atores sociais.
Nesse sentido, o Plano de Governo 1999/2002 (Diagnósticos, Propostas e Ações) da gestão de José Ignácio apresentou um diagnóstico da economia e da situação social naquele final de século, seguido de um conjunto de propostas alinhadas com o pensamento desenvolvimentista. Ele propunha intensificar o projeto de industrialização que deveria, a partir daquele momento, focar o potencial de especialização de cada microrregião  apoiado no desenvolvimento científico e tecnológico.
Em paralelo, mas articulado ao Plano de Governo, um grupo de empresários financiou a elaboração de um estudo para identificar oportunidades de investimentos, principalmente nas áreas de infraestrutura e de indústria, que ficou conhecido como Masterplan. Houve uma separação entre plano de governo e guia de investimentos privados, que o governo deveria apoiar para acelerar o desenvolvimento local. Contudo, o ambiente político naquele período estava distante das pré-condições necessárias para executar as ações planejadas.
Em 2006, no primeiro mandato de Paulo Hartung, o governo lançou o plano de desenvolvimento de estado “ES 2025”, cujo horizonte para conclusão de seus projetos e de suas metas era 2025. Diferentemente da gestão anterior, esse plano contou com o engajamento da sociedade e com o apoio do setor produtivo.
Cabe lembrar que em 2003 o ES iniciou uma longa, mas bem-sucedida, caminhada de reconstrução institucional. E a revitalização da extração de óleo e gás natural, capitaneada pela Petrobras, elevava as expectativas de um futuro econômico e social ainda mais promissor.
Os quatro grandes pilares de sustentação do “ES 2025” eram: a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades para ampla inclusão social; o desenvolvimento do capital humano capixaba segundo padrões internacionais de excelência; a diversificação econômica, agregação de valor à produção e adensamento das cadeias produtivas; e o desenvolvimento do capital social e a devoção absoluta à ética republicana por parte das instituições públicas.
E em 2013, no primeiro mandato de Renato Casagrande, foi publicado o “ES 2030” (em suas últimas semanas de vigência), cujo horizonte para conclusão de seus projetos e de suas metas é 2030. De forma similar ao “ES 2025”, o “ES 2030” conta com o engajamento da sociedade e com o apoio do setor produtivo. Porém, ele tem um viés mais desenvolvimentista, no qual a inovação e a questão ambiental foram incorporadas, assim como ele tem uma visão territorial dos potenciais das microrregiões capixabas.
Em termos de investimentos, ele indica as oportunidades de investimentos privados que poderão alavancar o desenvolvimento local, de onde busca extrair o que cabe ao governo viabilizar. Além disso, ele identifica os investimentos públicos que precisam ser realizados para se alcançar o melhor cenário desenhado.
Por fim, no próximo mês de maio está programado o lançamento do “ES 500 anos” (uma atualização do “ES 2030”) o mais novo plano de desenvolvimento do ES, pelo governador Renato Casagrande. A principal proposta desse plano é criar um movimento para construir um Estado mais próspero, sustentável e inovador até 2035, quando completaremos 500 anos de colonização do solo espírito-santense. Em suma, o “ES 500 anos” coroará essa tradição do Estado em planejar o seu desenvolvimento econômico.

Sávio Bertochi Caçador

É economista, doutor em Economia pela Ufes, professor e consultor

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Doenças cardiovasculares: 3 exames decisivos que podem salvar sua vida
Imagem de destaque
Amado Batista e BYD entram na 'lista suja do trabalho escravo' de ministério
Imagem de destaque
Estreias da semana no cinema: 5 filmes que você precisa ver 

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados