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Meio Ambiente

Economia circular: crescer agora e limpar depois não funciona

A degradação ecológica não é uma preocupação de luxo para que países/regiões a deixem de lado até que sejam suficiente ricos para lhe dar atenção

Públicado em 

01 fev 2025 às 01:00
Sávio Bertochi Caçador

Colunista

Sávio Bertochi Caçador

No meio empresarial, nos fóruns econômicos e ambientais, e até mesmo no meio acadêmico, existe uma história econômica que circula há décadas: os países/regiões pobres são pobres demais para serem verdes. Além disso, não precisam ser verdes, porque o crescimento econômico acabará por limpar a poluição que cria e substituirá os recursos que esgota. É uma história que um dia já pareceu respaldada pelos dados, contudo, apesar de continuar a dominar a imaginação de políticos e das pessoas, ela acabou por se revelar um mito.
No começo da década de 1990, os economistas Gene Grossman e Alan Krueger descobriram um padrão. Estudando dados de tendência do PIB e dados de poluição do ar e da água em cerca de 40 países, eles descobriram que a poluição primeiro aumentava e em seguida caía com o crescimento do PIB, dando ao gráfico a forma de um U invertido. Esse gráfico ficou conhecido como Curva Ambiental de Kuznets.
Mas Grossman e Krueger acrescentaram uma ressalva ao seu trabalho: eles reconheceram que só dispunham de dados para poluentes atmosféricos e aquáticos locais, não para preocupações globais como emissão de gases de efeito estufa, perda de biodiversidade, degradação do solo e desmatamento. E ressaltaram que uma correlação observada entre crescimento econômico e queda da poluição não demonstrava que o crescimento em si causava a limpeza.
Apesar dessas ressalvas, a Curva Ambiental de Kuznets logo se transformou num mantra econômico amplamente citado, repetido em relatórios sobre políticas públicas, editoriais de opinião e palestras mundo afora: quando se trata de poluição, o crescimento se encarregará de limpar tudo.
Os argumentos usados se concentram em três pontos: 1) à medida que os países crescem seus cidadãos podem começar a se dar ao luxo de se preocupar com o ambiente, e assim começar a exigir padrões mais elevados; 2) as indústrias podem começar a usar tecnologias mais limpas; e 3) essas indústrias passarão da manufatura aos serviços, trocando chaminés por centrais de atendimento.
Dados internacionais revelam que, quando se leva em consideração a pegada global de um país no tocante a materiais – a soma de toda a biomassa, combustíveis fosseis, minérios metálicos e minerais de construção utilizados no mundo todo para criar produtos que o país importa –, então a história de sucesso parece evaporar.
De 1990 a 2007, enquanto o PIB de países de alta renda crescia, o mesmo se passava com suas pegadas materiais globais. E o aumento não foi pequeno: países como Estados Unidos, Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália viram suas pegadas crescerem em mais de 30% ao longo desse período; Espanha, Portugal e Países Baixos observaram um aumento de mais de 50%. A pegada do Japão cresceu 14% e a da Alemanha, 9%. Diferentemente da ascensão e queda prometidas pela Curva Ambiental de Kuznets, esses dados apontam para uma contínua e preocupante ascensão.
Nesse sentido, os economistas Mariano Torras e James K. Boyce publicaram estudo no final dos anos 1990 correlacionando os mesmos dados de poluição interpaíses usados para criar a Curva Ambiental de Kuznets com medidas do poder dos cidadãos. Eles descobriram que a qualidade ambiental é maior onde a renda está distribuída de forma mais igualitária, onde há mais pessoas alfabetizadas e onde os direitos políticos são mais respeitados. Portanto, é a pressão dos cidadãos sobre governos e empresas por padrões mais rigorosos, e não o mero aumento de renda, que obriga as indústrias a adotarem tecnologias mais limpas.
E limpar o ar e a água de um país/região trocando as indústrias pelos serviços não elimina esses poluentes: simplesmente os transfere para o exterior, fazendo com que alguma outra população suporte o sofrimento, enquanto os que ficaram nesse país/região podem importar o produto acabado e bem embalado. Essa estratégia de limpeza ambiental não pode ser seguida por todos os países/regiões, porque, no final, acabará não havendo lugar onde se possa despejar a poluição.
A indústria iniciou a metamorfose de uma concepção degenerativa para regenerativa através do que veio a ser conhecido como “economia circular”. Ela é regenerativa por concepção porque aproveita o fluxo de energia renovável (solar, eólica etc.) para transformar continuamente materiais em produtos e serviços. Ela também é capaz de eliminar todos os produtos químicos tóxicos e, sobretudo, erradicar intencionalmente os dejetos do processo produtivo.
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Desenvolviento sustentável Crédito: Shutterstock
Um exemplo é a empresa de cosméticos britânica The Body Shop, criada por Anita Roddick, em 1976, com uma concepção social e ambiental regenerativa. Ela vendia cosméticos naturais à base de plantas (nunca testados em animais) em frascos reutilizáveis e caixas recicladas (por que jogar fora se você pode usar outra vez?), ao mesmo tempo pagando um preço justo às comunidades de todo o mundo que lhe forneciam manteiga de cacau, óleo de castanha e ervas secas. À medida que a produção se expandia, a empresa começou a reciclar sua água residual para ser usada nos produtos, e foi uma das primeiras a investir em energia eólica. Além disso, parte dos lucros da empresa ia para a Body Shop Foundation, que os direcionava a causas sociais e ambientais.
Em síntese, a degradação ecológica não é uma preocupação de luxo para que países/regiões a deixem de lado até que sejam suficiente ricos para lhe dar atenção. Em vez de esperar que o crescimento faça a limpeza – porque não vai fazer – é muito mais inteligente (e um dos principais desafios do século XXI) criar economias regenerativas por concepção, restaurando e renovando os ciclos de vida dos quais depende o bem-estar humano desde o âmbito local até o global.

Sávio Bertochi Caçador

É economista, doutor em Economia pela Ufes, professor e consultor

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