Todo estudante de Economia estuda, já no primeiro semestre de graduação, o diagrama mais icônico da disciplina, o Fluxo Circular de Renda. Desenhado pela primeira vez por Paul Samuelson (1915-2009) em 1948, destinava-se originalmente apenas a ilustrar como a renda flui na economia (do século XX).
Esse diagrama mostra a relação de mercado entre agregados familiares e empresas. Os primeiros fornecem sua mão de obra e capital em troca de salários e lucros, e então gastam essa renda comprando bens e serviços de empresas. É essa interdependência de produção e consumo que cria o fluxo circular de renda.
E esse fluxo seria ininterrupto não fossem três alças externas – envolvendo bancos, governo e comércio internacional – que desviam parte da renda para outros usos. O modelo mostra os bancos sugando renda na forma de poupança e então devolvendo-a na forma de investimento.
O governo estrai renda na forma de impostos, porém a reinjeta na forma de gastos públicos. Os comerciantes estrangeiros precisam ser pagos pelas importações do país, mas em troca pagam pelas exportações. Todos esses desvios criam vazamentos e injeções no fluxo circular de renda, mas, tomado como um todo, o sistema é fechado e completo.
Samuelson pretendia que o diagrama ilustrasse a visão de John Maynard Keynes (1883-1946) de como as economias podem entrar em espiral até uma recessão: se os gastos das famílias começassem a cair, então as empresas precisam de menos trabalhadores; quando demitem funcionários, cortam a massa salarial do país, reduzindo ainda mais a demanda. O resultado é uma recessão, o que, segundo Keynes, podia ser evitado aumentando os gastos governamentais até que as coisas voltassem a se mover e a confiança fosse restaurada.
Trata-se de uma imagem útil, que torna visíveis muitas ideias econômicas básicas. O problema, no entanto, encontra-se naquilo que o diagrama deixa de mostrar. Ele não faz menção à energia e aos materiais dos quais a atividade econômica depende, nem à sociedade dentro da qual essas atividades têm lugar.
Nesse sentido, a economista Kate Raworth (Universidade de Oxford, Inglaterra) propõe o diagrama da Economia Integrada. Ele mostra a Terra – o mundo vivo – alimentada pela energia do Sol. Dentro da Terra está a sociedade humana e, dentro desta, a atividade econômica, no qual o agregado familiar, o mercado, os bens comuns e o Estado são todos domínios importantes de provisão para as necessidades e vontades humanas, e possibilitados por fluxos financeiros. Nesse artigo, vamos focar a relação entre a economia e a Terra.
Longe de ser um laço circular, fechado, a economia é um sistema aberto com fluxos de matéria e energia entrando e saindo. A economia depende da Terra como fonte (extraindo recursos finitos e cultivando outros renováveis), ao mesmo tempo que depende dela como escoadouro para os seus dejetos. A Terra, porém, é um sistema fechado, porque quase nenhuma matéria sai deste planeta ou chega a ele.
Redesenhar a economia como um subsistema aberto do sistema fechado da Terra é uma mudança de paradigma que vem se tornando cada vez mais importante, dada a escala cada vez mais crescente da economia. Quando Adam Smith (1723-1790) publicou "A Riqueza das Nações", em 1776, havia menos de 1 bilhão de pessoas vivendo na Terra, e, em termos monetários, o tamanho da economia global era trezentas vezes menor do que é hoje. Quando Paulo Samuelson publicou "Economia", em 1948, ainda não havia 3 bilhões de pessoas na Terra e a economia global era dez vezes menor do que é hoje.
No século XXI, deixamos para trás a era do “mundo vazio”, em que o fluxo de energia e matéria através da economia global era pequeno em relação à capacidade das fontes e dos escoadouros da natureza. E agora vivemos num “mundo cheio”, com uma economia que excede a capacidade de regeneração e absorção da Terra devido a fontes excessivamente utilizadas, tais como peixe e florestas, e escoadouros excessivamente cheios, tais como a atmosfera e os oceanos.
O diagrama de Economia Integrada é vital para entender algumas das principais questões econômicas do século XXI. Os economistas precisam deixar de lado o diagrama do Fluxo Circular de Renda e adotar o diagrama da Economia Integrada, visto que ele transforma o ponto de partida da análise econômica.
As grandes questões ambientais, sociais e econômicas deste século demandam novos formas de analisá-las e superá-las por parte dos economistas para que uma nova história (esperamos que melhor) seja contada para nossos filhos e netos.