“Não podemos deixar o protagonismo virar uma nova pressão sobre nós. Para também termos tempo de entender quem a gente quer ser, o que gostamos de fazer e, inclusive, o que não queremos e, eventualmente, esperam que a gente faça.” O alerta da jornalista e apresentadora da GloboNews, Aline Midlej, deu o tom da segunda edição de 2026 do painel Todas Elas, realizado nesta quinta-feira (21), no auditório da Rede Gazeta, em Vitória, com o tema “Protagonismo Feminino”.
O palco do evento reuniu, além de Aline Midlej, a gerente de Relações Institucionais do Sebrae/ES, Alline Zanoni, e a presidente e sócia da marca Caderno Inteligente, Cris Ribeiro. A mediação foi conduzida pela jornalista e gerente-executiva de Produto Digital de A Gazeta, Elaine Silva, uma das idealizadoras do projeto.
O encontro contou ainda com a apresentação da jornalista e apresentadora do Gazeta Meio-Dia, Rafaela Marquezini, e teve como proposta ampliar o debate sobre a construção de novas narrativas pelas mulheres com o empreendedorismo, na tomada de decisões e na ocupação de espaços estratégicos na sociedade.
Logo na abertura do debate, Aline Midlej chamou atenção para os riscos de transformar o protagonismo feminino em mais "uma nova fonte de cobrança social". "Já são muitas cobranças que se sobrepõem às mulheres que ousam ser livres”, afirmou.
Segundo a jornalista, protagonizar a própria trajetória passa por estar em ambientes que permitam liberdade, desenvolvimento e autonomia. “O protagonismo tem a ver com você estar num ambiente que te permite ser quem você quer ser, que te dá condições de construir aprimoramento a partir dos seus talentos, que te faz entender quem você pode ser e te dá recursos para isso”, destacou.
Durante o painel, as participantes discutiram como a liberdade de escolha ainda representa um desafio para muitas mulheres. Aline Midlej ressaltou que ser livre no Brasil ainda é uma realidade marcada por dificuldades e violência.
Porque ser livre nesse país, sendo mulher, ainda é uma grande ousadia, por vezes bastante perigosa
Aline Midlej Jornalista
O debate também abordou a sobrecarga feminina e a romantização do esgotamento. Um consenso entre as palestrantes é a importância de aprender a impor limites, dizer não e preservar a saúde mental diante das múltiplas cobranças sociais.
Cris Ribeiro compartilhou experiências pessoais relacionadas à saúde mental, burnout e autoconhecimento. Para ela, protagonizar a própria vida exige autenticidade e coragem.
Se tornar protagonista da nossa vida é se autoconhecer. O recado que eu dou é seja você. Pode parecer abrangente, mas é simples. É sobre ser autêntico e não ter vergonha
Cris Ribeiro Empresária
Aline Midlej também pontuou que a autonomia financeira é essencial para ampliar a equidade e enfrentar desigualdades estruturais. “Autonomia financeira, para mim, hoje, é o tema central para debater equidade, inclusão e violência”, ressaltou.
A discussão passou pelo tema da maternidade e os impactos na carreira profissional das mulheres. Aline Midlej compartilhou reflexões sobre a decisão de engravidar e as transformações após o nascimento da filha, Celeste.
“No alto do meu privilégio, fui adiando a maternidade porque eu não queria ser mãe antes de ser uma profissional realmente estável. Adiei pelo medo da maternidade aniquilar minha carreira. Não suportava a ideia de ser dependente financeiramente de qualquer pessoa, muito menos do meu companheiro. Acho que a autonomia financeira é o ponto central para debater equidade, inclusão e violência.”
A jornalista destacou a importância da rede de apoio para que as mães consigam retornar ao mercado de trabalho e possam viver além da maternidade.
"Eu fui mãe e minha carreira melhorou. Mas por quê? Porque foi me dada condição para isso. Mas eu sou exceção, tenho rede de apoio 24 horas, para que eu possa dizer sim para a vida e para a carreira apesar da maternidade. Que mulher tem isso hoje no Brasil? Isso não pode ser privilégio. O ecossistema no país não é compatível para a mulher que quer ser emancipada para além da maternidade. E o pior é que toda a sociedade perde. Perde uma mulher com muitos potenciais, muitos talentos e cria anomalias onde não é possível existir plenamente de forma igual”, analisou.
A gerente de Relações Institucionais do Sebrae/ES, Alline Zanoni, falou sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no empreendedorismo, especialmente relacionados à tripla jornada e ao acesso a oportunidades.
“A jornada empreendedora para a mulher é diferente. A mulher encontra uma série de desafios pela frente, como a tripla jornada. Não basta capacitar só a parte técnica, se não olharmos para o aspecto emocional”, afirmou.
Ela complementa que o sucesso no empreendedorismo passa pelo planejamento e pela capacitação.
O objetivo é que as mulheres, que têm uma jornada complexa, consigam se capacitar. É através do conhecimento que elas podem impulsionar seus negócios
Alline Zanoni Gerente de Relações Institucionais do Sebrae/ES
Ela destacou ainda dados sobre o crescimento do empreendedorismo feminino no Brasil e reforçou a importância de políticas e iniciativas voltadas ao fortalecimento das mulheres empreendedoras.“Não basta olhar apenas para a capacitação técnica. Precisamos entender os desafios da mulher de forma integral”, disse.
A empresária Cris Ribeiro defendeu a importância da cooperação entre mulheres e criticou a lógica de competição frequentemente imposta aos ambientes profissionais.“O propósito é estar com outras mulheres cooperando e não competindo”, destacou.
Ao longo do encontro, as participantes defenderam a construção de espaços mais acolhedores, diversos e respeitosos para as mulheres. Elaine Silva destacou que o protagonismo feminino tem três pilares fundamentais: voz, inspiração e empoderamento.
Porque as mulheres têm voz e dão voz, são exemplos e se inspiram em outras, empoderam sem se esquecerem das que vieram antes
Elaine Silva Gerente-executiva de Produto Digital de A Gazeta
O painel questionou os principais desafios enfrentados pelas mulheres na busca por equidade, como a cultura da rivalidade feminina e a pressão social constante para se adequar a determinados espaços e padrões.
O painel encerrou com um chamado ao fortalecimento dos vínculos femininos e ao reconhecimento da própria identidade. “O desafio hoje é lutar para não caber, a não ser que seja dentro de você mesma. Cada mulher é única e a história de vocês importa”, enfatizou Aline Midlej.