Recentemente, a ArcelorMittal anunciou um investimento de R$ 4 bilhões na sua unidade no Espírito Santo para implantar um laminador de tiras a frio (LTF) e uma linha de revestimento contínuo. O tamanho do investimento impressiona e logo a imprensa local especializada em economia começou a falar em “um novo ciclo de desenvolvimento para a economia capixaba”.
Calma lá, caro(a) leitor(a), vou tentar explicar um pouco melhor essa questão do “ciclo de desenvolvimento”, que é um pouco mais complicada do que aparenta. O ponto teórico/conceitual nesse caso é que o termo “ciclo” é muito caro aos economistas.
O economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) desenvolveu uma teoria dos ciclos econômicos que enfatiza o papel da inovação e do empreendedorismo na economia. Para ele, os ciclos econômicos são resultado da interação entre a inovação e a adaptação da economia a essas inovações.
Schumpeter identificou três tipos de ciclos econômicos: (i) ciclo econômico de longo prazo, que dura cerca de 50 anos, caracterizado por uma sequência de inovações; (ii) ciclo econômico de médio prazo, que dura cerca de 10 anos, caracterizado por uma sequência de investimentos em capital fixo; (iii) ciclo econômico de curto prazo, que dura cerca de 3-4 anos, caracterizado por uma sequência de flutuações na produção e no emprego, que são causadas por mudanças na demanda e na oferta de bens e serviços. Dessa forma, essa noção de ciclo econômico é mais adequada para análise de países.
No caso da história econômica do Brasil, os ciclos econômicos são uma teoria da historiografia brasileira que procura explicar o desenvolvimento da economia nacional com base em ciclos nos quais um produto foi o mais importante nela. A datação de cada ciclo leva em consideração o período em que determinado produto foi o mais importante na economia ou então experimentou o seu auge de prosperidade.
O fim de um ciclo econômico não marca necessariamente o fim dessa atividade econômica no Brasil, apenas quer dizer que outra mercadoria se estabeleceu como importante na sua economia.
OS GRANDES CICLOS
Na história econômica do Brasil os seus grandes ciclos econômicos foram: ciclo do pau-brasil (século XVI), ciclo do açúcar (séculos XVI e XVII), ciclo do ouro (século XVIII) e ciclo do café (séculos XIX e XX). Esses ciclos econômicos se estenderam na história do país até a década de 1930, quando então a economia brasileira passou por uma industrialização que se prolongou até os anos 1980.
Essa análise da história econômica brasileira por meio de ciclos econômicos nucleados em um produto se encontra bastante presente nas obras de grandes intelectuais como Celso Furtado (1920-2004) e Caio Prado Júnior (1907-1990) para se analisar o Brasil, e não para uma análise regional, embora esses ciclos econômicos tivessem repercussões importantes para regiões brasileiras.
NO ES
No caso do Espírito Santo, é provável que o uso da expressão “ciclo de desenvolvimento” tenha se inspirado nesses estudos da historiografia nacional para se analisar a economia capixaba. É possível também que ela tenha se iniciado com o “ES 2025”, o plano estratégico do Estado publicado em 2006. Aliás, uma grande iniciativa e que o Espírito Santo vem evoluindo na construção do pensar no seu futuro desde então: em 2013 foi lançado o “ES 2030” e em 2025 será publicado o “ES 500 anos”.
O “ES 2025” considera que: “No decorrer de toda a sua história, o Espírito Santo atravessou dois grandes ciclos de desenvolvimento – o ciclo do café e o ciclo da industrialização – que, embora tenham trazido grandes benefícios para o Estado, tiveram um traço marcadamente excludente, à semelhança do que ocorreu em escala nacional.”
Nesse sentido, cabem duas ponderações: (i) acredito que a periodização da história econômica capixaba é um pouco mais complexa do que isso, o que vou explorar em outro artigo; (ii) partindo da premissa que o conceito adotado no “ES 2025” é adequado, não me parece que a economia estadual está iniciando um “novo ciclo de desenvolvimento”.
Por que ainda é cedo para se dizer que a economia do Espírito Santo está inaugurando um “novo ciclo de desenvolvimento”? Porque o investimento anunciado pela ArcelorMittal e os investimentos anunciados pela Suzano no Estado são, no fundo, um aprofundamento do modelo industrial que se implantou nos anos 1970/1980, isto é, baseado na produção de commodities intensivas em recursos naturais.
É óbvio que esses investimentos são vultosos, importantes para geração de empregos e renda e agregam mais valor agregado a estrutura produtiva capixaba, mas não entendo que representam um “novo ciclo de desenvolvimento”.
Para que um “novo ciclo de desenvolvimento” seja inaugurado seria preciso que a estrutura produtiva estadual mudasse seu padrão no sentido de maior complexidade econômica. O acréscimo de verticalização na estrutura produtiva que esses investimentos proporcionam são muito interessantes, pois os produtos gerados por eles tendem a reduzir a dependência e a volatidade da economia estadual de humores do mercado internacional, uma vez que serão mais direcionados para o mercado doméstico.
Mas não representam um “novo ciclo de desenvolvimento”, eles aprofundam o “ciclo da industrialização” capixaba, no sentido conferido pelo “ES 2025”.
Contudo, as perspectivas que essa planta industrial da ArcelorMittal de LTF e revestimento contínuo abrem para o Espírito Santo, a partir da sua entrada em operação prevista para 2029, são muito promissoras. Isso porque os produtos dessa nova planta poderão ser utilizados na fabricação de veículos e eletrodomésticos em território capixaba. Tal fato pode preencher um elo importante na cadeia produtiva capixaba que já conta com empresas como, por exemplo, Weg, Itatiaia, Marcopolo, Britânia e Agrale.
A partir do momento que essas atividades econômicas (fabricação de veículos e fabricação de eletrodomésticos, bem como outras atividades de maior valor agregado e de maior complexidade econômica) passarem a ter uma participação relativa mais importante que a produção de commodities na economia capixaba, aí poderemos falar em um “novo ciclo de desenvolvimento”.
Em síntese, a história da economia capixaba é uma história de busca continuada pela sofisticação econômica. A produção de commodities tem cumprido um papel muito importante para o desenvolvimento econômico e social do Espírito Santo, pois foi ela que ajudou a transformar o Estado de uma região pobre em uma região de renda média.
Todavia, o que vai possibilitar ao Estado passar a ser uma região de renda alta é ter na sua estrutura produtiva indústrias que agreguem ainda mais valor adicionado, que incorporem ainda mais conhecimento e inovação em seus produtos e processos produtivos, demandando cada vez mais empregos de alta qualificação, que é o caminho que o Espírito Santo está trilhando. Aí inauguraremos um “novo ciclo de desenvolvimento”!