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Economia

A baixa qualidade da elite no Brasil e os impactos na sociedade

O país ocupou a posição de número 69 no ranking EQx de 2023, com 15 1 países, em um nítido contraste com o seu peso econômico mundial

Públicado em 

24 jun 2024 às 02:00
Rodrigo Medeiros

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Rodrigo Medeiros

O podcast do g1 “O Assunto”, em sua edição de número 1.231, de 10 de junho, trouxe uma discussão relevante sobre a qualidade do mercado de trabalho brasileiro. Baseado no mais novo censo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o programa apresentou números públicos que merecem a nossa reflexão.
Em síntese, “a quantidade de trabalhadores com diploma universitário que ocupam vagas fora da própria área – e nem sequer exigem formação superior – aumentou mais de 20% em 3 anos”. Ainda assim, para o setor de tecnologia, “estima-se um déficit de 500 mil profissionais até o ano que vem”, ressaltou o programa apresentado pela jornalista Natuza Nery.
Uma matéria publicada no jornal Extra, na edição digital de 2 de junho e que foi assinada por Juliana Causin, Leticia Lopes e Mayra Castro, citou uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, mostrando que “a renda de brasileiros escolarizados encolheu 16,7% na última década, entre os que têm de 12 a 15 anos de estudo”. Entre aqueles que estudaram de 5 a 8 anos, a queda na renda foi de 2,9%.
Segundo um professor da Fundação Dom Cabral entrevistado, “se queremos ser um país que exporta conhecimento e vai além das commodities, vamos precisar ter um olhar técnico e aprofundado para ciência, tecnologia e formação de mão de obra”. Para completar, foi registrado que “as últimas pesquisas sobre o mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um aumento da massa salarial, mas concentrada nas atividades de menor qualificação”.
Como, afinal, deveríamos completar essa análise? Proponho olharmos para o Índice de Qualidade da Elite (EQx, em inglês), que é uma medida comparativa e internacional das elites dos países. Trata-se de um índice que mede a capacidade dos modelos de negócios das elites em um país para criar valor, ao invés de apenas extrair valor das sociedades.
A metodologia empregada entende que as elites têm uma capacidade crítica de coordenação dos recursos da economia. Ao moldar as instituições que permitem essa coordenação, as elites determinam a qualidade do desenvolvimento humano e econômico dos países, a riqueza das nações, bem como a sua ascensão e queda.
O EQx avalia o grau de criação de valor dos modelos de negócios, conforme está refletido em dados macro e micro. O índice em questão procura provocar uma discussão pública construtiva e baseada em evidências sobre as elites e sobre como elas contribuem, ou não, para as sociedades.
Elites de alta qualidade executam modelos de negócios que criam valor, ou seja, ofertam mais à sociedade do que recebem. As elites de baixa qualidade, por outro lado, operam modelos de extração de valor das sociedades.
No seu relatório sobre as elites, o EQx de 2023, o ranking foi composto por 151 países. O Brasil ocupou a posição de número 69, em um nítido contraste com o seu peso econômico mundial. Em relação às perspectivas comparadas de criação de valor para a próxima geração, o Brasil ocupou a posição de número 106.
Constam entre as áreas que compõem o EQx o poder político, o poder econômico, o valor político e o valor econômico. Doze pilares sustentam essas áreas para a composição final do EQx, conforme detalha a metodologia apresentada no relatório. A questão ambiental também foi destacada na respectiva edição do relatório.
Como pode um país estar entre as dez maiores economias e a qualidade de suas elites ser relativamente tão ruim? Reconhecer que somos um país que passou por um longo processo de colonização, de exploração da natureza e de humanos, é necessário. Também é preciso reconhecer que a escravidão deixou marcas profundas entre nós.
As estatísticas públicas revelam ainda como a cor da pele está associada a vantagens ou desvantagens diversas no Brasil. O racismo, estrutural ou institucional, é um perverso legado colonial. Após a abolição da escravidão, as desigualdades extremas não foram efetivamente enfrentadas desde o golpe que fundou a República, em 1889.
A criação de valor para o longo prazo requer mudanças nas políticas econômicas, bem como nos modelos de negócios. Devemos levar em conta a equidade intergeracional na formulação das políticas públicas. Nesse sentido, a tragédia ambiental do Rio Grande do Sul deveria servir como um ponto de inflexão no Brasil.
Segundo a metodologia do EQx, as elites brasileiras são vistas como altamente extrativas, algo que se traduz na prática de que elas extraem mais valor da sociedade do que criam. Tal perspectiva nos ajuda a reforçar as explicações sobre as estruturais e históricas desigualdades extremas que persistem no Brasil.
De acordo com o IBGE, a taxa composta de subutilização da força de trabalho foi de 17,4% no trimestre móvel referente aos meses de fevereiro a abril de 2024, ou seja, 20,1 milhões de pessoas estavam subutilizadas no Brasil. O rendimento médio mensal real foi de R$ 3.151, com a maior massa de rendimentos da série histórica.
A informalidade atingiu 39 milhões de trabalhadores. Os números públicos revelam um mercado de trabalho estruturalmente precário. A desindustrialização, o empobrecimento da estrutura produtiva, a reforma trabalhista e o enfraquecimento dos sindicatos contribuíram para as perdas dos trabalhadores brasileiros.

Rodrigo Medeiros

É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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