Matéria publicada na Folha de S.Paulo, assinada por Fernando Canzian, na edição impressa de 4 de setembro, trouxe informações relevantes para o debate contemporâneo. Em síntese, “os últimos dez anos foram trágicos em termos de renda e qualidade de empregos para os brasileiros que se esforçaram para estudar mais, terminar o ensino médio ou ingressar na faculdade”. Farei alguns comentários sobre esse assunto.
Perdeu mais quem mais estudou nos últimos dez anos, de acordo a pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), com base nos dados do IBGE. Ficou bem claro, segundo revelou a matéria, que “os resultados revelam uma economia que cria predominantemente empregos de baixa qualidade e pouco produtivos”.
Brasileiros mais escolarizados foram empurrados para ocupações que pagam menos e que são, cada vez mais, informais, comprometendo o crescimento potencial do país. Em artigo anterior, destaquei que quase 60% das empresas registradas no Brasil são microempreendedores individuais (MEIs).
No primeiro quadrimestre de 2023, a cada 100 empresas abertas no Brasil, 75 eram MEIs. O crescimento de MEIs revelou que muitas empresas buscam ainda reduzir custos com trabalhadores e que os brasileiros precarizados buscam alguma proteção social mínima. Estamos normalizando o quadro distópico da precarização laboral crônica.
Uma estrutura produtiva de baixa sofisticação tecnológica vem revelando o seu custo social. Entre 2012 e 2023, mostrou Fernando Canzian, “o rendimento médio dos que estudaram entre 12 e 15 anos recuou 11,2%”. Para quem estudou 16 anos ou mais, a queda real foi de 16,7% na renda do trabalho.
O quadro geral é de uma economia pouco dinâmica, com empresas que pouco investem e pouco se desenvolvem. A informalidade laboral cresceu mais entre quem estudou mais. Segundo a matéria, “de 2012 a 2023, a renda do trabalho só aumentou para os menos escolarizados”.
A taxa média de desemprego ficou em 8% no segundo trimestre e muitas consultorias estimam o crescimento econômico neste ano em 3%, com a geração de mais empregos. No entanto, conforme consta na matéria, “estamos gerando empregos ruins, que pagam pouco”.
O debate sobre a baixa complexidade econômica da estrutura produtiva capixaba está presente entre nós. A industrialização substitutiva de importações ajudou a construir uma classe média e a urbanizar aceleradamente o Brasil na segunda metade do século XX. Esse processo, entretanto, carregou endogenamente as suas fragilidades ao longo do tempo.
A baixa complexidade econômica capixaba, algo que tratei em outros artigos, tem correlação com o diagnóstico acima exposto. Necessitamos, portanto, de uma discussão ampla, para além de resultados burocráticos e de fins estatísticos, sobre como as políticas públicas poderiam ajudar a mudar esse quadro.
Caso as políticas públicas, nacionais e subnacionais, continuem reforçando cronicamente esse quadro, dificilmente poderemos esperar por resultados diferentes no horizonte. Afinal, as políticas públicas vigentes ainda estão reforçando, estruturalmente, um modelo econômico esgotado?
Modernizações conservadoras e reformas regressivas deveriam ter nos ensinado que a excessiva concentração de riquezas pode muito bem levar a distorções na alocação de recursos produtivos e reforçar aspectos perversos da preferência pela liquidez da parte de uma minoria abastada. Concentrações excessivas de riquezas e poder distorcem inclusive os processos políticos nas democracias liberais, colocando a própria democracia em risco.