O Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, para o mês de março de 2024, revelou que o salário nacional médio de admissão foi de R$ 2.081,50. No Espírito Santo, por sua vez, esse salário foi de R$ 1.919,78, abaixo, portanto, das médias nacional e do Sudeste. Ainda que o saldo seja positivo entre admitidos e desligados, o fator renda pesa sobre o “humor” (bolso) de trabalhadores e de suas famílias.
Com aproximadamente 39% dos trabalhadores ocupados na informalidade, a democracia brasileira continua correndo sérios riscos. O IBGE divulgou que a taxa de desocupação foi de 7,9% para o trimestre encerrado em março de 2024, sendo que a taxa composta de subutilização de trabalhadores foi de 17,9%. Essa é a síntese do quadro geral de um mercado de trabalho estruturalmente precário e distópico.
Nesse sentido, a matéria publicada na revista Carta Capital, na edição 1308, do dia 1º de maio de 2024, assinada por André Barrocal, trouxe informações preocupantes sobre a realidade do mercado de trabalho brasileiro. Em síntese, o crescimento dos rendimentos desde 2014 foi de apenas 4%, enquanto a inflação oficial acumulou 76% no período.
Citando fontes públicas e confiáveis, o jornalista ponderou que o capital avançou sobre a renda do trabalho. Entre as causas do problema, destaco da matéria que “a estagnação salarial em uma década resulta da combinação de um trio de fatores: fim da política de valorização do salário mínimo, economia em marcha lenta e reforma trabalhista”.
De acordo com o ministro Luiz Marinho, do Trabalho e Emprego, citado na matéria, “estamos gerando empregos, porém com remuneração muito baixa”. O jornalista informou que as pesquisas internas feitas no fim de 2023 pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência identificaram que a população percebe que o país está caro.
Clemente Ganz Lúcio, ex-diretor do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), entrevistado pela matéria, afirmou que “os governos dos últimos dez anos, incluído o atual, têm culpa pela carestia, pois suas políticas econômicas permitiram o encarecimento da comida, da eletricidade e dos combustíveis”. A mera reprodução de políticas públicas não é suficiente para reverter o quadro estrutural de desigualdades extremas.
A desindustrialização, o empobrecimento da estrutura produtiva e o enfraquecimento dos sindicatos foram citados na matéria como fatores que contribuíram para as perdas dos trabalhadores brasileiros. Injustificáveis desigualdades salariais de gênero persistem ainda entre nós e o racismo, estrutural ou institucional, também precisa ser enfrentado.
Em relação ao trabalho infantil, o ano de 2023, destacou Barrocal, registrou o maior número de crianças resgatadas desde 2017, enquanto no combate ao trabalho análogo à escravidão houve também um recorde de resgatados desde 2014. A “polarização afetiva”, conforme descreveram Felipe Nunes e Thomas Traumann, no livro ‘Biografia do abismo’ (2023), integra o quadro histórico do tempo presente.
De acordo com Nunes e Traumann, “quando a polarização vira uma relação de afeto, o adversário passa a ser seu inimigo, uma ameaça à própria existência do grupo, um mal a ser destruído”. A formatação de indivíduos mais autoritários e violentos é a consequência da polarização afetiva, segundo os autores. Esse fenômeno, infelizmente, não é novo na história brasileira.
O problema identificado pelos autores diz respeito à calcificação desse tipo de polarização. Para eles, “a calcificação produz endurecimento e rigidez: as pessoas ficam mais firmes no lugar e é mais difícil se afastarem de suas predisposições”. O diálogo construtivo e a política civilizada se tornam mais difíceis nesse ambiente.
Segundo afirmou o ministro do Trabalho e Emprego, para a matéria da revista Carta Capital citada acima, “o resultado eleitoral foi uma vitória da democracia, mas nós perdemos no Parlamento, é muito difícil reconstituir direitos trabalhistas no curto prazo”. O jogo político brasileiro conseguirá dar respostas razoáveis a esses problemas em um contexto de polarização afetiva?