Capítulo 1: Homens são máquinas movidas a sexo, dizia Tia Lydia, e não muito mais. Eles querem apenas uma coisa. Vocês têm que aprender a manipulá-los, para o bem de si mesmas. Levá-los pelo nariz para onde quiserem; isso é uma metáfora. É a maneira como funciona a natureza. É o plano de Deus. É a maneira como são as coisas. Eles não conseguem deixar de fazê-lo, dizia ela. Deus os fez assim, mas Ele não as fez assim. Ele as fez diferentes. Cabe a vocês impor os limites. Mais tarde receberão agradecimentos.
Capítulo 2: É a história habitual, as histórias habituais. Deus para Adão, Deus para Noé. Frutificai e miltiplicai-vos, enchei abundantemente a Terra. Então vem aquele negócio velho e bolorento da Raquel e da Lea que nos martelaram na cabeça no Centro. Dá-me filhos, ou senão eu morro. Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto do teu ventre? E ela lhe disse: Eis aqui a minha serva, Bilha; Entra nela para que tenha filhos sobre os meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela.
Capítulo 3: As mães deixaram as garotas de véus brancos em posição e retornaram a suas cadeiras. Há um pouco de choro entre elas, algumas trocas de palmadinhas confortadoras e de mãos segurando mãos, o uso ostentoso de lenços. O comandante dá continuidade ao serviço: Que a mulher aprenda em silêncio com toda a sujeição. E Adão não foi enganado, mas a mulher ao ser enganada cometeu a transgressão. Não obstante isso ela será salva pela concepção, se continuar na fé e caridade com sobriedade.
Capítulo 4: Os homens vestem jalecos brancos, como os que eram usados por médicos e cientistas. Cada um tem um cartaz pendurado ao pescoço para mostrar por que foi executado: um desenho de um feto humano. Eles eram médicos, na época, no tempo de antes. Esses homens, disseram-nos, são como criminosos de guerra. Não é desculpa o fato de que o que fizeram fosse legal na época. Esses corpos pendurados no muro são viajantes do tempo, anacronismos. Eles não mexeram nas lápides nem, tampouco, com a igreja. É apenas a história mais recente que os ofende. Somos úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.
Esses trechos são da distopia criada por Margaret Atwood, “O Conto da Aia”, escrito em 1985. Infelizmente, diante da narrativa que vem tentando ser construída no Brasil, nada mais presente. Pior, é um desenho de futuro possível para alguns que estão no exercício do poder. Seremos sempre resistência.