Sempre me lembro das eleições da minha infância em São Gabriel da Palha, no interior do Espírito Santo. Eram um verdadeiro Fla-Flu. A cidade se dividia, a turma andava com adesivo no carro e no peito, e a eleição tomava conta de todas as conversas. Havia exagero, claro, mas havia também gente que se importava com o destino da cidade.
Neste ano, porém, não vi nada parecido. Estive lá recentemente, a poucos dias da votação. Ninguém com adesivo. Nem no carro, nem no peito. A eleição está morna. O povo, desengajado.
No próximo domingo, 158,7 milhões de brasileiros estarão aptos a votar no primeiro turno das eleições. Serão escolhidos presidente, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. É um dos maiores momentos de participação coletiva da vida nacional. E acontece, paradoxalmente, em um país que parece cada vez mais cansado da política.
A abstenção cresce há cinco eleições presidenciais seguidas, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral: 16,75% em 2006, 18,12% em 2010, 19,39% em 2014, 20,33% em 2018 e 20,95% em 2022, o maior índice da série. Um em cada cinco eleitores não compareceu às urnas. Em números absolutos, os ausentes saltaram de 21 milhões para quase 33 milhões.
A eleição de 2026 pode ter a maior abstenção das últimas décadas. Mantida a tendência, os ausentes podem passar de 22% do eleitorado, mais de 35 milhões de pessoas. O cientista político Jairo Nicolau, da FGV, considera possível a maior taxa em eleições gerais desde 2002 e classifica esta campanha como uma das menos mobilizadas desde a redemocratização.
Os sinais já apareciam nas eleições municipais de 2024, quando 21,7% dos eleitores faltaram ao primeiro turno, índice só inferior ao de 2020, em plena pandemia.
O desânimo alcança também os mais jovens: são 1,6 milhão de eleitores de 16 e 17 anos aptos a votar neste ano, contra 2,1 milhões em 2022. Parte da abstenção se explica pelo envelhecimento do eleitorado, já que o voto é facultativo acima dos 70 anos. Mas não tudo.
Não é que o brasileiro tenha deixado de se interessar pelo tema. Mas, enquanto uma pesquisa do Datafolha realizada em agosto mostra que 74% dos eleitores têm algum interesse por política, estudos recentes também apontam crescimento do desalento e da indiferença. É compreensível. O debate público muitas vezes se transforma em disputa permanente, e a política passa a ocupar mais espaço pelo conflito do que pela capacidade de produzir soluções.
Mas há uma consequência prática quando nos afastamos. Decisões importantes não podem ser tomadas por omissão. Quando um eleitor deixa de participar, os demais continuam participando. E são eles que, juntos, definem os representantes que tomarão decisões em nome de toda a sociedade.
E vale a pena prestar atenção ao Legislativo. Deputados e senadores elaboram leis, fiscalizam o Executivo e têm papel decisivo na discussão do orçamento e das políticas públicas. Regras tributárias, infraestrutura, educação, segurança jurídica, inovação, ciência e tecnologia e equilíbrio das contas públicas não dependem apenas de quem ocupa o Palácio do Planalto. Dependem também do Congresso.
A escolha de deputado e senador, portanto, não deveria ser feita de última hora. É fundamental conhecer a trajetória dos candidatos, entender suas propostas, avaliar suas prioridades e verificar o que já fizeram. Assim como procedemos antes de investir, contratar ou tomar uma decisão empresarial importante, vale dedicar algum tempo para entender onde estamos colocando nossa confiança.
E essa é só uma parte da participação política. Ela pode acontecer de muitas outras formas: acompanhando o trabalho dos eleitos, integrando entidades empresariais e organizações sociais, discutindo projetos de lei, utilizando canais de participação do Congresso, cobrando resultados ou simplesmente mantendo-se informado.
Talvez precisemos recuperar essa ideia mais simples de política: a de que participar não significa brigar. É possível ter convicções firmes e conviver com quem pensa diferente, discordar sem transformar o outro em inimigo, dialogar com serenidade, respeito e foco no interesse comum.
Isso é importante para a democracia, mas também para a economia. Nenhum país constrói prosperidade de longo prazo apenas com capital e empreendedorismo. É preciso ter instituições capazes de produzir regras, decisões e previsibilidade. Empresas investem quando conseguem enxergar algum grau de estabilidade à frente.
Empreendedores assumem riscos quando acreditam que existe espaço para construir. A qualidade das instituições faz parte desse ambiente.
Por isso, a eleição não deveria ser vista apenas como um evento isolado, que acontece a cada quatro anos. Depois que as urnas forem fechadas, começa outra etapa: acompanhar quem foi eleito, cobrar compromissos, participar das discussões e prestar atenção às decisões que serão tomadas em nosso nome. A cidadania não termina quando o voto é depositado.
Entendo o cansaço. Mas não podemos desistir da política, porque a solução para os problemas do país passa necessariamente por ela. Carga tributária, qualidade da escola pública, segurança, custo do crédito, infraestrutura: nada disso se resolve fora das instituições e das escolhas que fazemos nas urnas. Não existe atalho. Quem se afasta da política não resolve nada, apenas deixa de ter voz sobre o que será feito.
Talvez o Brasil precise menos de cidadãos apaixonados pela política e mais de cidadãos interessados no país. Não precisamos concordar sobre tudo. Precisamos apenas entender que o futuro coletivo também é responsabilidade nossa.
No domingo, vale a pena comparecer, escolher com consciência e exercer o direito de participar. Porque, quando deixamos de participar das decisões que definem o futuro, outras pessoas o farão em nosso lugar. E o futuro do Brasil é importante demais para ser decidido por omissão.