Encerrei recentemente uma agenda em São Paulo participando de um leilão em benefício do Hospital de Amor, ao lado de Henrique Prata. Voltei para casa pensando que aqueles lances representavam muito mais do que um evento que reuniu pessoas em torno do mesmo propósito.
A disputa por animais, obras ou objetos, na verdade, é um mecanismo social em que cada recurso arrecadado pode se transformar em diagnóstico precoce, tratamento, pesquisa e, sobretudo, esperança.
Esse mecanismo é muito mais do que benemerência: é um valor estratégico para a sociedade.
O Hospital de Amor mostra o poder da filantropia quando ela deixa de ser apenas generosidade e se transforma em uma instituição capaz de atravessar gerações. A história começou em Barretos, em 1962, com os médicos Paulo Prata e Scylla Duarte Prata. Em 1967, foi criada a Fundação Pio XII. Décadas depois, o que era um pequeno hospital tornou-se uma das maiores referências brasileiras em oncologia.
Henrique Prata assumiu a direção em 1989 e ajudou a transformar aquela iniciativa familiar em um projeto nacional. Em 2023, o Hospital de Amor realizou 1,74 milhão de atendimentos, diagnosticou mais de 23 mil casos de câncer e atendeu gratuitamente 568,9 mil pessoas de 2.581 municípios. Segundo o relatório da instituição, apenas 21% dos custos eram cobertos pelo SUS. O restante foi viabilizado pela sociedade.
É difícil encontrar demonstração mais concreta de que filantropia pode ser também uma forma de infraestrutura social. E, nisso, o Brasil ainda tem muito a avançar.
O brasileiro doa. Mas ainda não consolidamos uma cultura de filantropia estruturada, recorrente e de longo prazo, especialmente entre grandes patrimônios e empresas.
A Pesquisa Doação Brasil 2024, do IDIS, mostra que 78% dos brasileiros com mais de 18 anos e renda familiar superior a um salário mínimo fizeram algum tipo de doação em 2024. Foram estimados R$ 24,3 bilhões em doações individuais.
O desafio, portanto, não é apenas aumentar o volume. É transformar a doação em compromisso, confiança e impacto mensurável.
Há bons exemplos próximos de nós. O Instituto Ponte, do Espírito Santo, é um deles. Criado em 2014, conecta doadores a jovens talentosos de baixa renda e transforma recursos privados em educação de qualidade e oportunidades de ascensão social.
Em 2026, a organização chegou a 568 alunos de 19 estados. Seus resultados mostram que filantropia pode funcionar com metas, acompanhamento, transparência e visão de longo prazo.
Esse é um ponto importante. Filantropia não deveria ser confundida com caridade episódica. Ela pode ser investimento social estratégico.
Nos Estados Unidos, a Giving USA estimou em US$ 592,5 bilhões as doações para organizações filantrópicas em 2024. Indivíduos responderam por dois terços desse total.
No Reino Unido, mecanismos como o Gift Aid permitem que o governo acrescente 25 pence a cada libra doada a instituições elegíveis. São estruturas que ajudam a transformar solidariedade individual em um sistema mais previsível de financiamento social.
No Brasil, também existem avanços. O Censo GIFE mostrou R$ 4,8 bilhões investidos em 2022 por organizações participantes da pesquisa, revelando uma filantropia empresarial e institucional cada vez mais profissionalizada.
Ainda assim, estamos longe de explorar todo o potencial do capital privado para financiar educação, ciência, saúde, cultura, empreendedorismo e inovação.
Isso importa porque desenvolvimento econômico não é produzido apenas por empresas e governos. Há uma terceira e subestimada força: a sociedade organizada.
Uma empresa pode gerar empregos e inovação. O Estado, oferecer políticas públicas e infraestrutura. A filantropia pode assumir riscos, experimentar soluções e apoiar projetos cujo retorno social é enorme, mas cujo retorno financeiro não é imediato.
É assim que surgem iniciativas capazes de formar talentos, financiar pesquisa, ampliar o acesso à saúde ou criar oportunidades para quem nasceu sem elas.
Não se trata de substituir o Estado. Uma filantropia madura complementa políticas públicas e ajuda a sociedade a construir soluções que podem, no futuro, ganhar escala por meio delas.
Há uma mudança cultural a fazer: deixar de enxergar a doação como desprendimento e começar a entendê-la também como construção.
Quem doa para uma instituição séria está comprando tempo para uma ideia dar certo, financiando uma oportunidade que talvez não existisse ou ajudando a criar uma solução que poderá beneficiar milhares de pessoas. Quando a filantropia funciona, a doação deixa de ser dinheiro e vira impacto.
É esse tipo de mentalidade que precisamos fortalecer no Brasil: menos doação episódica, mais compromisso; menos improviso, mais estratégia; menos preocupação com o tamanho do cheque, mais atenção ao tamanho da transformação. Porque construir o futuro também é uma forma de doar.