Quando falamos sobre liderança feminina, o debate costuma se concentrar no mundo corporativo. A presença das mulheres no topo das empresas brasileiras permanece baixa — apenas 17,4% das presidências são ocupadas por mulheres, conforme o Panorama Mulheres 2025, pesquisa realizada pelo Instituto Talenses em parceria com o Insper.
Os números mostram que ainda estamos longe da equidade nas estruturas empresariais tradicionais.
Mas existe um espaço onde a presença feminina é marcante: o terceiro setor. Segundo dados do Mapa das Organizações da Sociedade Civil (2025), 65% das pessoas colaboradoras das organizações da sociedade civil são mulheres e 46% dos cargos de liderança são ocupados por elas. Além disso, dados da PNAD Contínua (2019) indicam que 62% das pessoas que realizam trabalho voluntário no Brasil são mulheres.
À primeira vista, poderíamos interpretar esses números como uma vitória inequívoca. De fato, trata-se de um avanço relevante quando comparado ao setor corporativo. No entanto, é preciso analisar esses dados com maior profundidade. Se somos 65% da base, por que ainda não somos maioria também na liderança? A presença feminina expressiva no terceiro setor revela uma conquista, mas também expõe uma contradição.
A primeira liderança que a maioria de nós experimentou é feminina. Na figura da mãe, da avó ou de outra mulher que organizava a rotina da casa, administrava conflitos, planejava o futuro e resolvia problemas inesperados às oito da noite — como a cartolina necessária para o trabalho do dia seguinte. Era ela quem cuidava do orçamento, garantia a educação e mantinha a estrutura funcionando.
Ainda assim, quando essa mesma mulher ocupa espaços formais de poder, muitas vezes é subestimada. Historicamente associada ao cuidado, a mulher assumiu funções essenciais na organização da vida familiar e comunitária.
Muitas das primeiras iniciativas filantrópicas surgiram justamente desse papel social atribuído às mulheres. Profissões tradicionalmente ligadas ao cuidado, como o serviço social, também encontraram no terceiro setor um campo natural de atuação.
Mas cuidado não é fragilidade. É estratégia.
O terceiro setor exige uma liderança que vai além da gestão tradicional. Competências historicamente desenvolvidas por muitas mulheres tornam-se diferenciais estratégicos: escuta ativa, articulação comunitária, construção de redes, mediação de conflitos e visão sistêmica.
A liderança feminina nas organizações sociais tende a compartilhar informação, dividir poder e incentivar o protagonismo coletivo — algo essencial em ambientes onde o impacto depende da articulação entre voluntários, parceiros, financiadores e beneficiários. Não por acaso, muitas mulheres são fundadoras de instituições sociais de grande relevância no país.
No entanto, se essas competências são tão evidentes e estratégicas, por que ainda não se traduzem em maioria nos conselhos, diretorias e presidências das próprias organizações sociais?
Celebrar a ocupação de 46% dos cargos de liderança por mulheres no terceiro setor é importante. Mas é igualmente importante reconhecer que ainda não é suficiente. Se somos maioria na base do setor, deveríamos avançar também para a maioria nos espaços de decisão. O desafio agora não é apenas ampliar presença, mas consolidar poder decisório e influência estratégica.
Avançamos, sim. Mas ainda há muito a conquistar.