Como todo bom interiorano, aos sábados o meu pai me pedia para lavar o carro dele para que, depois, a gente desse uma volta pelo centro de
São Gabriel da Palha. E, ali nos anos 1990, lavar o carro significava deixar a mangueira jorrando água até sair toda a sujeira. Hoje, isso daria vídeo nos grupos de WhatsApp e o meu cancelamento nas redes sociais. Mas os tempos eram outros, e a sociedade não tinha a consciência atual. Aprendemos que os recursos naturais são finitos e precisamos usá-los com eficiência e sem desperdício.
Essa lição não serve apenas para quem deixa a torneira aberta. Ela passou a ser parte da estratégia de países e grandes corporações, preocupados com recursos que vão se esgotar e em substituí-los por opções ambientalmente amigáveis. No caso do petróleo, tornou-se fundamental que os governos e o setor empresarial invistam hoje em alternativas de energia renovável para garantir o nosso amanhã. E poucos países se posicionam tão bem nessa corrida quanto o Brasil.
Todo mundo considera a Índia como a "bola da vez" da economia global. Pois a Índia tem um problema: 82% da sua matriz energética é à base de carvão, diesel e madeira — altamente emissores de gases de efeito estufa. O grande motor do mundo, a China, tem liderado os investimentos em energia renovável, mas ainda assim tem 61% da sua eletricidade dependente do carvão. A China queima mais carvão todo ano que o resto do mundo somado.
O Brasil é bem diferente: 61% da eletricidade consumida aqui vem de hidrelétricas, 12% de usinas eólicas, 8% de biomassa, 5% de solar e 2% de nuclear. Ou seja, 88% da energia elétrica que você, eu e todos os 210 milhões de brasileiros consumimos é gerada por fontes renováveis.
Esse cenário nos dá uma enorme vantagem competitiva, num mundo de uso intensivo de Tecnologia da Informação e numa economia centrada em dados. Explico. Você já deve ter testado algum sistema de inteligência artificial, como o Chat GPT. É muito legal. Agora, deixe-me dar uma informação: um dia de uso do Chat GPT demanda energia equivalente ao consumo de 26 mil casas de um morador americano médio em um ano! Em outras palavras, o consumo de dados, de TI e de IA é um consumo de energia.
E de onde vai sair essa energia? Onde os grandes data centers globais vão se instalar? Na Índia, com energia a carvão, provocando alto impacto ambiental e precisando compensar suas emissões de carbono na atmosfera? Ou no Brasil, com energia limpa? Não podemos perder essa chance de atrair as grandes empresas de tecnologia e de liderar a transição energética.
Num contexto de tensões geopolíticas cada vez maiores, nós temos duas coisas que o mundo todo quer: alimentos e energia produzidos com respeito ao meio ambiente. Esta é uma vantagem comercial e de investimentos que devemos trabalhar melhor.
Para isso, a gente precisa se orgulhar mais do que há de bom por aqui e divulgar esses fatores positivos. O Brasil é um país sustentável, com um potencial de geração de energia fantástico. Onde o mundo vai produzir aço verde, biocombustível de aviação e motores de carros elétricos? No Brasil! Se o Congresso aprovar uma legislação que incentive o investimento privado e assegure a proteção ambiental, o Brasil pode virar o grande polo mundial de energia renovável.
O Espírito Santo também tem muito trabalho a fazer. Dados da Agência de Regulação de Serviços Públicos do Espírito Santo mostram que a produção de energia renovável no Estado foi de 11,1% em 2021. Há espaço para mais. A média brasileira é de quase 40%.
Precisamos parar de falar que investir em sustentabilidade não dá dinheiro. Dá muito dinheiro, e estamos diante de uma oportunidade gigantesca. No ano que vem, Belém, no Pará, vai sediar o maior evento global de meio ambiente, a COP 30, com líderes de mais de 100 países e presidentes das principais corporações multinacionais. É uma chance de mostrarmos o que já fizemos e que podemos fazer mais e melhor daqui para a frente.