É preciso entender que não basta combater o crime em Vitória ou mesmo no ES inteiro. Isso, no melhor dos casos, apenas desloca a violência. É urgente ter uma política nacional de segurança pública que integre as informações e ações de todas as polícias do país
Toda vez que conversamos sobre investimento no Brasil, falamos de segurança jurídica, que é quando o empresário sabe quais são as regras e tem garantia de que elas não mudarão no curto prazo. Mas existe um tipo de segurança que é ainda mais essencial e se tornou um dos grandes entraves para o crescimento do Brasil: a segurança de ir e vir, de saber que a sua empresa não será roubada e de saber que o seu consumidor, seu funcionário e a sua família vão poder andar pela rua sem medo.
Segundo as pesquisas de opinião, a segurança já é o segundo maior problema do país, atrás apenas da saúde. Dois de cada três brasileiros se sentem inseguros de andar pelas ruas. 75% das brasileiras dizem ter medo de violência nas cidades.
Todo mundo tem uma história de violência para contar. A criminalidade nos atinge a todos, indistintamente. Pode ter sido o furto de um celular, o roubo de um carro e, infelizmente, muita gente sofreu tragédias nas mãos de bandidos. Quando essas histórias ganham espaço na TV e nas redes sociais, muita gente vem com a solução óbvia: precisamos de mais policiais. Mas não é tão simples.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança, o Brasil tem 2 policiais militares por mil habitantes, média parecida com a dos Estados Unidos. No total, são 796.180 profissionais da segurança pública distribuídos em 1.595 órgãos federais, estaduais, distritais e municipais, como PM, polícia civil, guardas municipais, corpos de bombeiros e Polícia Federal, sem falar de outros, como Anatel, Coaf e o Banco Central, que atuam contra o crime organizado.
De fato, não se faz segurança pública sem polícia. Mas também não se faz só com polícia. É fundamental entender que o crime no Brasil é uma organização bilionária que não vai ser combatida com métodos antigos. De acordo com o Ministério da Justiça, existem 72 diferentes facções vinculadas ao narcotráfico no Brasil, sendo que duas delas - o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, e o PCC, de São Paulo - já são multinacionais do crime. O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de cocaína, droga que movimenta o equivalente a US$ 65 bilhões por ano, entre vendas internas e exportações para a Europa.
Além disso, o crime organizado controla a maior parte dos garimpos ilegais de ouro, o mercado do contrabando de cigarro, o transporte coletivo e a coleta de lixo de várias grandes cidades e, aos poucos, está ajudando a eleger seus representantes na política.
A captura de parte do estado pelo crime ocorreu na Colômbia nos anos 1990, deixando um rastro de mortes e pobreza que demorou décadas para o país recuperar. Nós temos as condições para evitar que isso aconteça no Brasil.
Para isso, é preciso entender que não basta combater o crime em Vitória ou mesmo no Espírito Santo inteiro. Isso, no melhor dos casos, apenas desloca a violência. É urgente ter uma política nacional de segurança pública que integre as informações e ações de todas as polícias do país. As forças de segurança devem ter acesso imediato e constante aos dados umas das outras e aos mandados judiciais em execução.
Outra medida é intensificar o uso da tecnologia: satélites, drones, câmeras e modelos de policiamento preditivo, que por meio de bancos de dados e de Inteligência Artificial conseguem prever onde haverá um aumento de ações criminosas.
Ressalto a importância do aparato de reconhecimento facial. A experiência das “cidades inteligentes” mostra que os criminosos procurados pela Justiça, em algum momento, acabam usando serviços do Estado, como instituições de saúde e transporte público. E essa é uma oportunidade para o Estado capturá-los. Se houver um serviço de reconhecimento facial conectando câmaras dos metrôs e hospitais às delegacias, a polícia ganhará um grande instrumento de combate ao crime.
Tecnologias de reconhecimento facialCrédito: Reuters/Folhapress
Meu terceiro ponto é a melhoria no treinamento e nos ganhos salariais dos policiais. Quem protege a sociedade precisa ter aulas não só de tiro e de Direito, mas também de tecnologia. E o salário de quem arrisca a vida pelo bem comum não pode ser como hoje: de acordo com o Fórum de Segurança, um soldado da PM recebe em média R$ 6,3 mil. Priorizar a segurança pública significa valorizar quem está na linha de frente.
Por fim, e não menos importante, o progresso nos índices de segurança pública passa por solucionar questões estruturais da nossa sociedade, como a defasagem da legislação penal e processual, a desigualdade econômica, a garantia de Educação de alta qualidade e o acesso dos jovens ao mercado de trabalho e ao empreendedorismo.
A violência de que todos somos vítimas precisa ser enfrentada com inteligência, tecnologia, coordenação. E com coragem para adotar medidas inovadoras.
Rafael Furlanetti
Capixaba de São Gabriel da Palha, é sócio e diretor de Relações Institucionais da XP e presidente da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias). Escreve quinzenalmente neste espaço sobre empreendedorismo, inovação e negócios ao público do Espírito Santo