O case de sucesso da ISH mostra o potencial dos nossos empreendedores e trabalhadores na área de TI. Formando mão de obra especializada e criando postos de trabalho aqui, vamos atrair investimentos e dar ao Estado novas oportunidades
O episódio, resolvido no mesmo dia, é revelador de como a nossa vida hoje é completamente digital e depende da indústria de segurança para impedir ações de hackers e corrigir sistemas em pane, como os da CrownStrike.
Como cada vez mais as empresas precisam proteger as suas informações, o mercado da cibersegurança é dos que mais crescem no mundo. A receita global desse setor saltou de US$ 83 bilhões em 2016, para US$ 147 bilhões em 2022 - e tem previsão de ultrapassar os US$ 250 bilhões até 2028, de acordo com o site de inteligência de mercado Statista.
O crescimento se deve muito à adoção do trabalho remoto em muitas companhias e pelo uso de ambientes de computação em nuvem. Esse movimento trouxe ganho de produtividade para as empresas, mas também novos riscos de ataques de hackers, pois demanda proteção não apenas de sistemas locais, mas também de dados remotos.
Ou seja, estamos nos deparando com um desafio que, ao mesmo tempo, é uma oportunidade - inclusive para o nosso Espírito Santo.
Existe uma empresa capixaba que enxergou o potencial da tecnologia quando a internet mal havia começado. Fundada em 1996, em Vitória, como uma consultoria de TI, a ISH Tecnologia é a única empresa brasileira entre as 22 primeiras colocadas no ranking das melhores empresas do mundo em serviços de cibersegurança na pesquisa MSSP Alert.
Crescendo 30% ao ano, a ISH Tech é hoje a maior empresa brasileira de cibersegurança e, além da matriz em Vitória, tem oito escritórios espalhados pelo Brasil e um na Flórida, nos Estados Unidos.
Tecnologias da informaçãoCrédito: Pixabay
Além do orgulho capixaba de ver uma empresa nossa se destacando, um dos princípios da ISH me impressionou: “Não parar. Nunca. Tudo para oferecer as ferramentas certas e ajudar as empresas a crescerem em um mundo digital mais seguro e acessível para todas as organizações”. Uma empresa que tem no DNA a satisfação do cliente está no caminho certo.
E o sucesso não se faz apenas de empreendedores com coragem de investir, seriedade na entrega dos produtos e um mercado em ebulição. Ele se faz na formação da equipe, e é notável como a ISH se orgulha dos vários prêmios que recebeu por ter um bom ambiente de trabalho.
O fundador, Rodrigo Dessaune, destaca que “a ISH demonstra que o Espírito Santo tem uma tradição na formação e atração de talentos tecnológicos, possibilitando o desenvolvimento de tecnologias e empresas de referência global”.
A área de TI tem um mercado de trabalho muito disputado no mundo. Graças à tecnologia, um programador não precisa estar nos EUA para trabalhar numa empresa americana e, por isso, a concorrência por um bom profissional é global.
Quem está à frente disso no Brasil é o projeto Porto Digital, do Recife, o maior parque tecnológico urbano da América Latina, com 415 empresas.
Fundado em 2000, o Porto Digital é gerenciado de forma privada por uma associação sem fins lucrativos e é a versão brasileira do Vale do Silício, uma região criada para gerar inovação, incentivar startups e premiar a criatividade. O polo empresarial do Porto Digital já é a terceira maior fonte de receita de Pernambuco e, no ano que vem, deve ser o segundo setor, ultrapassando o faturamento da construção civil.
O Porto Digital é uma história de sucesso que pode ser replicada no Espírito Santo. Precisamos da vontade política para fazer um Porto Digital capixaba e de altos investimentos na formação de profissionais de TI, cujos salários começam na faixa de R$ 4 mil e podem atingir, no topo da carreira, os R$ 50 mil, segundo a recrutadora Robert Half.
Felipe Paiva, fundador e CEO da Ada, uma empresa de ensino de programação, lembra que, na última década, o Brasil se tornou um importante polo de TI na América Latina, com mais de 600 mil profissionais no setor. Mas acrescenta: “A geração de emprego no setor seria ainda maior se o governo investisse em formações técnicas direcionadas para o mercado de trabalho, com efeitos imediatos em 1 a 2 anos. Também não podemos ignorar o esforço de longo prazo necessário na Educação Básica. Apenas 5% dos jovens entre 16 e 24 anos sabem programar, colocando o Brasil numa das piores posições no ranking da OCDE.”
O case de sucesso da ISH mostra o potencial dos nossos empreendedores e trabalhadores na área de TI. Formando mão de obra especializada e criando postos de trabalho aqui, vamos atrair investimentos e dar ao Estado novas oportunidades de geração de riqueza para quando o ciclo do petróleo se encerrar. Temos um caminho aberto à nossa frente.
Rafael Furlanetti
Capixaba de São Gabriel da Palha, é sócio e diretor de Relações Institucionais da XP e presidente da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias). Escreve quinzenalmente neste espaço sobre empreendedorismo, inovação e negócios ao público do Espírito Santo