ASSINE
Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Um Lugar Silencioso - Parte II" é tão bom quanto o primeiro

"Um Lugar Silencioso - Parte II" finalmente chega aos cinemas oferecendo muita tensão, um universo ampliado e com influências de Steven Spielberg

Vitória
Publicado em 13/07/2021 às 01h31
Filme
Filme "Um Lugar Silencioso - Parte 2". Crédito: Paramount Pictures/Divulgação

O filma a que eu mais queria assistir antes da pandemia era “Um Lugar Silencioso - Parte II”. Inclusive, assistiria à continuação do excelente filme de John Krasinski dois dias após o fechamento das salas de cinema e a vinda para o home office em que me encontro trabalhando desde 16 de março de 2020.

Finalmente chegando aos cinemas brasileiros em 22 de julho, cerca de 16 meses depois de sua data de estreia original, “Um Lugar Silencioso - Parte II” é o filme que faz o espectador se lembrar do encanto do cinema, da tela grande, da sala escura, de não ser interrompido durante o filme e, principalmente, do som.

Também dirigido por John Krasinski, o filme é a continuação que o suspense de 2018 merecia. Tudo tem início anos antes do primeiro filme, com a chegada das criaturas à Terra. Era um dia normal na pequena cidade dos Abbott antes do caos se instaurar. Tudo isso é demonstrado numa grandiosa sequência de ação e desespero, com muita correria, mortes e as primeiras aparições dos monstros.

Krasinski faz uma escolha interessante ao iniciar o filme com a urgência desse flashback antes de diminuir o ritmo e nos levar de volta aos momentos que dão sequência ao filma anterior. A opção possibilita que o diretor também esteja no filme como ator, mas serve principalmente para “introduzir” Emmett (Cillian Murphy) ao universo. A sequência é também uma mostra de que, ao contrário da primeira parte do filme de 2018, “Um Lugar Silencioso 2” não pretende esconder seus monstros, algo que nem sequer faria mais sentido.

De volta à fazenda dos Abbott, Krasinski promove uma espécie de passeio por cenários marcantes da primeira parte da história, uma maneira sutil de resgatar as lembranças da audiência. Assim, vemos o porão da cena final, a banheira, o fatídico prego na escada e o celeiro em que Marcus (Noah Jupe) e Reagan (Milicent Simmonds) protagonizaram uma das cenas mais tensas do longa. Esse retorno serve também para deixar a fazenda para trás e partir para um novo local. Após a resposta ao sinal de fogo de Marcus, Evelyn (Emily Blunt) e os filhos se despedem da antiga casa em uma jornada pelo desconhecido.

Filme
Filme "Um Lugar Silencioso - Parte 2". Crédito: Paramount Pictures/Divulgação

“Um Lugar Silencioso - Parte II” tem muito da essência do primeiro filme, mas amplia seu universo para além da fazenda dos Abbott. As regras continuam a mesma, silêncio absoluto e, caso isso não seja possível, corra ou se esconda. A mudança de cenário e a introdução de Emmett garantem o fator novidade ao texto. O novo personagem tem seus momentos, muito em função da entrega de Cillian Murphy, mas o texto poderia tratá-lo melhor justamente por depender da dualidade dele para construir certa tensão entre os protagonistas.

O roteiro utiliza três linhas narrativas distintas, uma para cada personagem. Lidando com o luto do pai, Reagan decide agir como ele agiria e parte em uma missão solo para encontrar outros possíveis sobreviventes. Millicent Simmonds é a alma do filme e assume o protagonismo que todos acreditariam que ficaria com Emily Blunt.

Além da ameaça das criaturas, Reagan ainda tem que lidar com outros humanos, algo apenas superficialmente abordado do filme de 2018. Em certo momento ao final do segundo ato, a situação vivida por Emmett e Reagan remete diretamente à urgência de obras como o jogo “The Last of Us” ou qualquer outro filme/série em que a sociedade já se reorganizou após o apocalipse, mas a humanidade foi deixada de lado.

Essa nova dinâmica oferece frescor ao texto de Krasinski, que alterna algumas situações similares à do longa anterior a outras novas, com novas referências. Há muito de “Jurassic Park” (1993) e, consequentemente, de Steven Spielberg - a já citada sequência inicial lembra os melhores momentos de “Guerra dos Mundos” (2005), enquanto é impossível não comparar outra situação com os velociraptors do primeiro filme do parque dos dinossauros. Pode parecer falta de originalidade, mas emular Spielberg é para poucos.

Do ponto de vista técnico, o filme continua um primor. As criaturas parecem pertencer àqueles ambientes mesmo quando vistas de perto - elas têm peso e parecem orgânicas, ao contrário do que acontece em “A Guerra do Amanhã”, por exemplo. O som é o destaque absoluto, pois ele é um personagem, a força motriz, daí a potência de se assistir ao filme no cinema.

Filme
Filme "Um Lugar Silencioso - Parte 2". Crédito: Paramount Pictures/Divulgação

A mixagem de som, reforçada pelo aspecto visual, torna tudo uma ameaça; um passo mais pesado, o fim de uma trilha de areia ou uma folha seca podem significar o fim para um personagem, e o espectador percebe isso. A sensação de ameaça é ampliada ainda mais quando o filme nos coloca na pele da imparável Reagan, com pouquíssima sensibilidade auditiva. Nesses momentos, Krasinski dá uma aula de construção de tensão.

Um Lugar Silencioso - Parte II”, assim como seu antecessor, se destaca por fazer com que a audiência se importe com aqueles personagens e tema pela vida deles. O primeiro filme, desde seus momentos iniciais, já deixa claro que todos estão em risco naquele mundo, clima que o segundo mantém vivo.

Com um filme tão interessante, é quase frustrante o fim repentino que deixa claro que “Um Lugar Silencioso - Parte II” é um segundo ato preparando a história para uma conclusão que se espera ser espetacular, mas que também se provará um desafio. Krasinski não tinha planos para um segundo filme, mas o terceiro agora é inevitável. O universo está criado e estabelecido, resta saber aproveitá-lo sem desgastar a fórmula e encerrar com dignidade a história dos Abbott.

Filme
Filme "Um Lugar Silencioso - Parte 2". Crédito: Paramount Pictures/Divulgação

A Gazeta integra o

Saiba mais
Cinema Rafael Braz

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.