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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"A Guerra do Amanhã": filme de ação da Amazon é grandioso

Filme protagonizado por Chris Pratt ("Guardiões da Galáxia") tem todas as qualidades e os defeitos dos grandes blockbusters do gênero, mas não faz feio

Vitória
Publicado em 01/07/2021 às 16h00
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Filme "A Guerra do Amanhã", da Amazon Prime Video. Crédito: Frank Masi/Divulgação

Carisma não se compra - ou se tem ou se lamenta não ter. Na indústria do cinema, o carisma pode separar uma estrela capaz de comandar um blockbuster de um ator de papéis medianos, um Dwayne “The Rock” Johnson de um Sam Worthington. Claro, carisma não é tudo, afinal Russell Crowe e Kirsten Stewart, por exemplo, têm carreiras bem sólidas em papéis muitas vezes construídos justamente nessa ausência, mas é sobre o apelo pop de atores carismático que a indústria se torna uma engrenagem milionária. Em Hollywood, apostar alto em atores carismáticos em ascensão traz mais recompensas do que escolher por um consagrado com o magnetismo de uma maçã.

Chris Pratt é uma aposta que deu certo. Seu primeiro papel de destaque, o Andy Dwyer de “Parks & Recreation”, duraria apenas a primeira temporada, mas todo mundo (audiência e produção) gostou tanto dele que o papel se tornou recorrente; os seis episódios iniciais se tornaram 116. Consolidado como um ator em ascensão, Pratt foi sendo convidado para papéis maiores por cineastas como Spike Jonze (“Ela”), Bennett Miller (“O Homem que Mudou o Jogo”) e Kathryn Bigelow (“A Hora Mais Escura”) antes de sua grande chance: seria o protagonista de “Guardiões da Galáxia”, de James Gunn.

Um dos filmes mais legais do Universo Cinematográfico Marvel, “Guardiões da Galáxia” se sustenta muito no carisma de Pratt como Peter Quill, o “Senhor das Estrelas”. O filme foi um sucesso tremendo e, para provar que não foi ao acaso, o ator emendou com outro sucesso, “Jurassic World”. Pronto, Chris Pratt havia se tornado uma estrela capaz de segurar filmes com seu carisma e, principalmente, levar gente aos cinemas.

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Essa longa introdução serve apenas para justificar a grandiosidade de “A Guerra do Amanhã”, filme protagonizado por Pratt que chega nesta sexta (2) à Amazon Prime Video (na verdade às 21h de quinta…). Dirigido por Chris McKay, do bom “Lego Batman”, a estreia da Amazon é um filme de grande escopo, feito para a telona, com investimento de cinema, mas agora lançado no streaming após ser adquirido pela bagatela de US$ 200 milhões.

Em “A Guerra do Amanhã”, humanos de 30 anos no futuro conseguem abrir um caminho temporal como último recurso para ganhar a guerra contra uma raça alienígena que deixou apenas 500 mil pessoas vivas em todo o planeta. Sem soldados para lutar, a única solução foi recrutar novos soldados no passado.

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Filme "A Guerra do Amanhã", da Amazon Prime Video. Crédito: Frank Masi/Divulgação

Pratt vive Dan, um professor de colegial com histórico militar que acaba recrutado para uma incursão de uma semana. Ao lado de outros civis, ele chega ao futuro com uma missão e logo se vê no centro da ação contra os garra-branca, os tais alienígenas. A situação da humanidade é desoladora, faltando pouco para sua total eliminação. Por isso, Dan se alia a uma brilhante cientista (Yvonne Strahovski, de “The Handmaid’s Tale”) em um arriscado plano que pode dar ao passado uma chance de evitar o extermínio dos humanos.

“A Guerra do Amanhã” é um filme de ação com sequências que empolgariam no cinema - nesse aspecto ele lembra muito “No Limite do Amanhã”, com Tom Cruise, com o elemento da viagem temporal no lugar da repetição do dia.

As cenas de ação mostram a ambição do projeto, com grandes cenários e tomadas aéreas para mostrar ao público a dimensão da destruição. As criaturas alienígenas, vistas de perto, impressionam pelos detalhes, dando impressão de pertencerem ao ambiente, e lembram esteticamente os monstros de “Um Lugar Silencioso”. De longe e em grandes bandos, porém, fica claro a utilização de computação gráfica, recurso quase inevitável no estilo

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Filme "A Guerra do Amanhã", da Amazon Prime Video. Crédito: Frank Masi/Divulgação

O roteiro é muito eficaz ao esconder os monstros durante boa parte do filme e oferece até uma desculpa para isso: ninguém aceitaria a convocação se soubesse o que iriam enfrentar. Assim, descobrimos as criaturas ao mesmo tempo que Dan e seu esquadrão, já com mais de 40 minutos de filme - primeiro por um reflexo, para aumentar a tensão, e alguns minutos depois da forma explícita que continua até o final.

Essa alternância da exposição muda o tom do filme, como se saíssemos de “Alien, o 8º Passageiro”, de Ridley Scott, para “Aliens, O Resgate”, de James Cameron; “A Guerra do Amanhã” perde um pouco no mistério e na construção de suspense, mas ganha em ação.

É curioso como “A Guerra do Amanhã” divide seus atos. Os tradicionais três atos do cinema - apresentação, desenvolvimento e conclusão - são utilizados de maneira diferente, quase como se o segundo ato tivesse seu próprio terceiro ato, um clímax, uma conclusão para a história. O recurso funciona, mas torna o filme mais longo que o necessário com seus 140 minutos.

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Chris Pratt e Yvonne Strahovski em "A Guerra do Amanhã", da Amazon Prime Video. Crédito: Frank Masi/Divulgação

O texto tem problemas comuns a blockbusters, filmes que não podem ficar sem explicação, e por isso abusa do didatismo e diálogos expositivos - todas as ações são explicadas detalhadamente antes, durante ou depois de serem vistas em tela, em alguns momentos apenas tornando fala o que acabou de ser mostrado. Apesar disso, o roteiro de Zach Dean foge de algumas escolhas que seriam fáceis de ser tomadas para efeito dramático.

“A Guerra do Amanhã” usa a viagem no tempo como um recurso narrativo, algo central de sua história, mas não a utiliza para confundir o espectador. É interessante que, por alguns momentos, ele até parece caminhar para algo com paradoxos temporais, mas o filme de Chris McKay é uma obra com arco fechado e que funciona sem a necessidade de se formar um novo universo, uma nova franquia. Isso, claro, não significa que outras histórias não possam ser contadas com o carisma neste mesmo universo e sustentadas pelo carisma de Chris Pratt, há até possibilidades para isso, mas o filme não deixa nada em aberto.

Ao fim, “A Guerra do Amanhã” é um bom filme de ação com um pano de fundo de ficção científica. Chris Pratt segura bem o peso da produção e tem a companhia luxosa de J. K. Simmons e do divertidíssimo Sam Richardson. É um filme mais longo do que o necessário, tal qual a introdução deste texto, e com muita exposição quando deveria apenas deixar o espectador digerir o que vê em tela, mas funciona como um entretenimento que cumpriria muito bem seu papel de blockbuster de verão nas telonas.

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Rafael Braz

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