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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

Por que o Globo de Ouro não deve ser levado tão a sério?

O Globo de Ouro, cerimônia de entrega dos prêmios da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, será realizado neste domingo novamente com acusações de corrupção

Vitória
Publicado em 27/02/2021 às 20h40
Atualizado em 27/02/2021 às 20h40
Emily in Paris
"Emily in Paris": indicação da série ao Globo de Ouro levantou suspeitas de corrupção na Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood. Crédito: STEPHANIE BRANCHU/NETFLIX

Mais um ano e mais um texto explicando por que o Globo de Ouro não é um prêmio para ser levado a sério. É divertido? Sim, mas sua importância é bem menor do que nos fazem levar a crer. Para início de conversa, são apenas 87 jornalistas da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA) (todos brancos) que selecionam todos os vencedores; no Oscar, por exemplo, são cerca de 8.500 votantes.

“Ah, mas como eles escolhem vários dos filmes que depois são indicados ao Oscar?” A essa altura, no início da temporada de premiações, não é difícil saber quais filmes estarão concorrendo e até mesmo quais serão os favoritos - uma surpresa como “Parasita” no ano passado não acontece sempre.

Às vezes, como os filmes demoram mais para chegar por aqui, temos a impressão de que eles estão adiantando tendências, ledo engano. Todos os filmes já estrearam nos EUA e rodam festivais de cinema mundo afora desde meados do ano que antecede a premiação. No final do ano anterior, já é possível encontrar listas com os possíveis indicados ao Oscar, não é uma ciência complicada.

Ainda, ao longo dos anos, o Globo de Ouro foi várias vezes acusado de favorecer um filme aqui ou uma série acolá em troca de mimos recebidos pelos membros da HFPA. No início dos anos 2000, após Sharon Stone enviar um relógio de cerca de US$ 400 para cada membro durante a campanha de divulgação do péssimo “A Musa”, a HFPA limitou os “mimos” ao valor máximo de US$ 125. Pouco adiantou.

Isso não impediu que os estúdios, sedentos por uma premiação, levassem os jornalistas em viagens de primeira classe com tudo pago para lugares como Las Vegas, com direito a show de Cher e estadia em hotel, para promover o péssimo “Burlesque”. Como resultado, o filme teve três indicações ao Globo de Ouro, incluindo Melhor Filme Comédia ou Musical, e ainda levou um prêmio de canção para casa. A mesma viagem, bancada pela Sony, também serviu para divulgar o péssimo “O Turista”, com Johnny Depp e Angelina Jolie, e adivinhem só: o filme foi indicado a três categorias, incluindo Melhor Filme Musical ou Comédia, na qual eles encaixam qualquer coisa.

A espetacular
A espetacular "I May Destroy You" foi ignorada pelo Globo de Ouro. Crédito: HBO/Divulgação

Neste ano, a polêmica foi novamente levantada com a indicação de “Emily in Paris”. O jornal “The Los Angeles Times” revelou que mais de 30 votantes do Globo de Ouro foram levados à Europa em uma viagem de luxo para visitar os sets de filmagens. Ao jornal, a fonte afirmou que a Paramount, produtora da série disponível na Netflix, pagou estadias em um hotel cinco estrelas cujas diárias valem US$ 1.400 (quase R$ 8.000) e almoços luxuosos a seus convidados.

Vale ressaltar que as viagens para visitas de set e entrevistas são comuns no meio, mas pesou contra a HFPA seu histórico e o fato de “Emily in Paris” ter sido indicada no lugar de séries como “Ramy”, “Insecure” ou “Dead to Me”.

Nos anos 1960, a cerimônia de entrega dos Globos de Ouro ficou sem sua casa, a NBC. Uma investigação sobre a falta de ética acerca das escolhas de indicados e escolhas dos premiados chegou à conclusão que o prêmio era um desserviço. Anos depois, a HFPA garantiu ter mudado suas práticas e a CBS colocou a cerimônia em sua programação anual.

Pia Zadora venceu o prêmio de Revelação após forte lobby de seu milionário marido. A carreira da atriz nunca decolou
Pia Zadora venceu o prêmio de Revelação após forte lobby de seu milionário marido. A carreira da atriz nunca decolou

A CBS, porém, abandonou o barco após 1982, quando a desconhecida Pia Zadora foi premiada Revelação do Ano pelo péssimo “Butterfly”. No mesmo ano, Pia Zadora foi vencedora do Framboesa de Ouro de Pior Atriz (prêmio que deve ser levado ainda menos a sério, vale dizer). O marido de Pia, o multimilionário Meshulam Riklis, bancou uma viagem aos membros da HFPA a Las Vegas com hospedagem, alimentação, shows e apostas bancadas por ele. A repercussão foi grande e fez com que a CBS desistisse do Globo de Ouro; também foi a última vez que o prêmio de Revelação do Ano foi entregue.

Há ainda algumas escolhas questionáveis, como a de manter “Minari”, um filme americano falado em coreano, fora da disputa de Melhor Filme Drama, relegando-o a Melhor Filme Internacional. Também há a já citada falta de diversidade; sem um votante negro, não é acaso que tenham ficado de fora das principais categorias obras aclamadas como a minissérie “I May Destroy You”, da HBO, e filmes como “A Voz Suprema do Blues”, “Destacamento Blood”, “Uma Noite em Miami” e “Judas e o Messias Negro”, todos cotados ao Oscar e, surpresa, protagonizados e produzidos por negros.

A cerimônia deste ano obviamente será virtual, com Tina Fey apresentando de Nova York e Amy Poehler, de Los Angeles. O canal TNT transmite a premiação a partir das 21h30 deste domingo (28), com a entrega dos prêmios começando às 22h e comentários de Michel Arouca e Aline Diniz, que entendem bastante do que falam. Será divertida? Provavelmente sim. Mesmo sem o álcool para os convidados, um diferencial do Globo de Ouro, Fey e Poehler são ótimas. Vale também ficar de olho nos indicados, pois há bons filmes e boas séries concorrendo que talvez você não conheça.

O Globo de Ouro é uma premiação divertida, espertamente a primeira da temporada. Justamente por isso é que se convencionou equivocadamente chamá-la de “termômetro para o Oscar” enquanto outras, como o PGA, o SAG e o DGA, prêmios dos sindicados de produtores, atores e diretores, esses sim verdadeiros indicadores, passam despercebidos pelo grande público. A HFPA tem muita gente boa em seus quadros, como a brasileira Ana Maria Bahiana, mas é um prêmio que não merece e nem deve ser levado a sério.

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