ASSINE
Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

"Mulan", no Disney+, é um remake sem o coração do clássico

Lançado nesta sexta-feira (4) pela plataforma Disney+, adaptação live-action de "Mulan" conta novamente a história da guerreira chinesa

Vitória
Publicado em 04/12/2020 às 00h00
Atualizado em 04/12/2020 às 00h00
Filme,
Filme, "Mulan", da Disney. Crédito: Disney/Divulgação

O que fez as animações da Disney tão especiais ao longo de um século de história? São vários aspectos, na verdade, mas algo que nunca faltou aos desenhos animados da empresa foi coração. É curioso, assim, que a Disney não consiga transportar a emoção de suas animações às adaptações live action que tem produzido nos últimos anos. São ruins? Não, óbvio que não - são um primor técnico, um espetáculo visual, mas geralmente vazios. “Alladin” (2019) e “Mogli - O Menino Lobo” (2016) são divertidos, mas o resto é apenas razoável.

“Mulan” era uma das grandes apostas da Disney para os cinemas em 2020, mas acho que, a essa altura do campeonato, não preciso dizer como as coisas caminharam. Lançado como produto premium no Disney+ nos EUA (que requeria assinatura mais pagamento de US$ 29,90), o filme comandado pela neo-zelandesa Niki Caro resume os live-action da Disney: bonito, boa história, mas pouco emocionante.

Esse resultado muito provavelmente é fruto da inevitável comparação do filme que chega nesta sexta (4) ao catálogo da Disney+ no Brasil (sem cobrança extra) com a animação lançada em 1998, um clássico para a geração nascida no final dos anos 1980 e início dos 90.

Filme,
Filme, "Mulan", da Disney. Crédito: Disney/Divulgação

O novo “Mulan” é uma tentativa de abraçar o mercado asiático. A história da princesa guerreira é filmada só com atores asiáticos e oferece um mergulho interessante na cultural chinesa. A história é a mesma, ou seja, a jovem Mulan (Yifei Liu) finge ser um homem para ingressar no exército imperial e impedir que seu pai, com saúde prejudicada, seja obrigado a servir em um combate de que quase com certeza não retornaria.

O filme de Niki Caro toma diversas liberdades em relação original, como, por exemplo, diminuir o tom da comédia e, principalmente, os números musicais (nada de Mushu). O live-action de “Mulan” é um filme de ação - ação Disney, mas, ainda assim, ação. Até uma profundidade e algumas motivações para o vilanesco Böri Khan (Jason Scott Lee) o roteiro se preocupa em dar. Funciona? Isso já é uma questão mais complexa.

O texto explica a habilidade de Mulan como sendo o “Chi”, que, em resumo, é a Força do “Star Wars” levada para a cultura chinesa: “uma energia que permeia o universo e todas as coisas vivas”. O conflito aqui é que essa habilidade especial só pode ser usada por homens e Mulan passou a vida inteira escondendo essas habilidades para não causar desonra em sua família.

Mesmo com Böri Khan sendo o grande vilão da trama, é a feiticeira Xian Lang (Gong Li) que representa uma ameaça real à protagonista. Além, claro, da ameaça física, ela representa também o outro lado da moeda, o que Mulan pode se tornar se não controlar seu Chi e se não escolher o lado certo. Ainda, os poderes de Xian Lang são um espetáculo visual que faria bonito na tela grande, como boa parte do filme.

O fato de ser lançado para o streaming talvez diminua a força de “Mulan”, que perderá o impacto visual do cinema, que, sim, ainda é um fator. Ainda assim, os combates são interessantes e cheios de coreografias criativas. Yifei Liu se sai bem no lado físico da personagem, mas a lenda de Mulan acaba se perdendo dentro do próprio texto.

Filme,
Filme, "Mulan", da Disney. Crédito: Disney/Divulgação

Enquanto a animação de 1998 era uma jornada de coragem e heroísmo, o filme de 2020 é quase o nascimento de uma super-heroína com poderes sobrenaturais - o que afasta a identificação do público que, muito provavelmente, com quase 100% de certeza, não desenvolverá superpoderes.

“Mulan” faria mais sucesso no cinema, mas é uma boa adição ao catálogo ainda carente do Disney+, que conta também com a animação de 1998. Pode não ser o remake com que os fãs do original sonhavam, mas é um filme honesto, com boas cenas de ação e visualmente interessante. Ainda assim, falta ao novo “Mulan” o coração que estava presente no original. O filme até tenta, com a fênix dos ancestrais da personagem, mas não funciona. Essa falta de emoção é um problema que a Disney terá que resolver se quiser continuar investindo nessas refilmagens live-action de seus clássicos.

A Gazeta integra o

Saiba mais
disney Rafael Braz

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.