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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"King Richard": Will Smith brilha como pai de Venus e Serena Williams

"King Richard: Criando Campeãs" acompanha o pai de duas das maiores atletas da História. Atuação de Will Smith o coloca como provável indicado ao Oscar

Vitória
Publicado em 04/12/2021 às 02h46
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Filme "King Richard: Criando Campeãs". Crédito: Warner/Divulgação

Diz a lenda que Richard Williams assistia a um jogo de tênis na TV, da romena Virginia Ruzici, quando descobriu que a atleta ganhava cerca de R$ 225 mil em quatro dias de trabalho, valor bem próximo de sua renda anual. Em sua autobiografia, Williams diz jamais ter imaginado que uma mulher pudesse ganhar esse dinheiro em tão pouco tempo, foi quando ele teve a ideia “vou ter mais duas crianças e transformá-las em jogadoras de tênis”.

A história de Richard e de suas filhas mais famosas, Venus e Serena Williams, é uma jornada pronta para ser levada para as telas. O obstinado pai não queria que suas filhas passassem tempo demais nas ruas de Compton, cidade da Califórnia famosa tanto pela violência quanto pela quantidade de famosos nascidos por lá - nomes como o ator Kevin Costner, a cineasta Ava Duvernay, o jogador da NBA Demar DeRozan e rappers como o lendário grupo N.W.A e o ótimo Kendrick Lamar.

Em “King Richard”, que no Brasil ganhou o nada sutil título “Criando Campeãs”, Will Smith vive o patriarca dos Williams em uma de suas maiores atuações. Conhecemos o protagonista enquanto ele tenta convencer empresários e treinadores do mundo do tênis a treinar, de graça, suas filhas - Richard escreveu um plano de carreira de 78 páginas para as duas e os seguiu sempre que pode.

Logo depois conhecemos toda a família capitaneada pela matriarca Oracene “Brandi” (Aujanue Ellis), um núcleo que funciona em torno dos objetivos de Richard para as filhas Venus e Serena. As outras estudam e são cobradas por isso, mas as duas já tinham seus destinos traçados pelo pai desde antes do nascimento. Aos poucos vamos sendo apresentados a outros nomes importantes no tênis mundial e na carreira das irmãs, nomes como Paul Cohen e Rick Maci, entre outros.

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Filme "King Richard: Criando Campeãs". Crédito: Warner/Divulgação

“King Richard” é uma cinebiografia curiosa, pois centraliza sua narrativa no pai de duas das maiores esportistas da história. Richard é construído como um sujeito obstinado e que não aceita um “não” como resposta quando o assunto é tênis - ele tem seu plano e pretende segui-lo. Interpretadas respectivamente por Saniyya Sidney e Demi Singleton, Venus e Serena são coadjuvantes durante quase todo o filme. A dinâmica só muda um pouco quando Venus disputa seu primeiro torneio profissional, aos 14 anos, e Richard fica um pouco de lado.

Carismático como poucos no ramo, Smith atua pronto para ser indicado ao Oscar. Richard é um pai carinhoso, um treinador atencioso, que identifica pontos fortes e fraquezas de suas filhas, mas também é um sujeito teimoso e às vezes de difícil convivência. O texto até ensaia alguma profundidade maior ao personagem, mas, como acontece em quase toda cinebiografia, é superficial. O roteiro até questiona as reais motivações de Richard em sua “missão”, mas esse questionamento não é levado adiante.

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Filme "King Richard: Criando Campeãs". Crédito: Warner/Divulgação

Em contrapartida, o texto de Zach Baylin reforça o tempo todo - visualmente ou em diálogos - a relevância das irmãs Williams no tênis, um esporte considerado de rico e, principalmente, de brancos. A presença da família em locais de treino e torneios causa estranhamento, eles são os únicos negros por ali. Isso fica claro na conversa de Richard com um empresário que parece crer que, devido ao fato de os Williams serem negros, eles são pobres.

Nesse aspecto, inclusive, o filme pesa um pouco a mão. Na já citada autobiografia, Richard afirma que a família tinha condições de morar em outro lugar, mas garante ter escolhido Compton por opção, para que as filhas entendessem como é a vida e que nem sempre ela é fácil. No filme, a cidade é vista como um antagonista, um local de onde eles precisam sair, e isso depende do sucesso das tenistas. A escolha narrativa, talvez, seja para aproximar o filme do adorado “À Procura da Felicidade”, também protagonizado por Will Smith, que se tornou filme favorito de quem busca histórias de superação.

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Filme "King Richard: Criando Campeãs". Crédito: Warner/Divulgação

O roteiro traça paralelos interessantes entre as irmãs e Jennifer Capriati, um fenômeno dos anos 1990. A princípio, o filme trata a tenista americana como um objetivo, uma história de sucesso de quem se tornou Top 10 do mundo aos 14 anos. Aos 18, porém, teve um burnout, lidou com a depressão e foi presa após envolvimento com drogas.

A presença de Capriati na narrativa funciona para reforçar a importância de Richard na carreira de Venus e Serena. Ele exigia que elas estudassem e tivessem vidas compatíveis com as idades que tinham, sem se preocupar com diversos torneios juvenis e com a pressão da competição enquanto amadureciam. Mesmo sendo uma biografia de Richard, o filme também ressalta a importância de Brandi para a família e até para segurar a onda do marido quando ele se perdia em suas ambições.

Além de uma biografia, “King Richard: Criando Campeãs” também é um bom drama esportivo. Ajuda muito o fato de tanto Saniyya Sidney quanto Demi Singleton saberem jogar tênis bem, reforçando o realismo das sequências. No terceiro ato, quando a narrativa caminha para a estreia profissional de Venus, o filme ganha energia, principalmente se você não conhecer previamente os resultados das partidas.

“King Richard: Criando Campeãs” não é um filmaço, mas vai cair suavemente no gosto do espectador em busca de histórias inspiradoras. O filme de Reinaldo Marcus Green esbarra em diversos problemas clássicos de cinebiografias e tem uma estrutura formulaica, mas a história das irmãs Williams e de seu pai é ótima de ser contada, uma história cheia de afeto, com alguns momentos divertidos e personagens carismáticos.

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