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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Casa Gucci" tem ótimos momentos, mas é uma grande novelona

Lady Gaga e Adam Driver vivem Patrizia Reggiani e Maurizio Gucci em "Casa Gucci", filme que conta a trágica história do herdeiro da milionária grife

Vitória
Publicado em 25/11/2021 às 21h16
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Filme "Casa Gucci". Crédito: Universal/Divulgação

Alardeado desde as primeiras imagens de Lady Gaga e Adam Driver, “Casa Gucci” não é um filme fácil. Dirigido por Ridley Scott e com roteiro de Becky Johnston e Roberto Bentivegna, adaptado do livro “ Casa Gucci: Uma História de Glamour, Cobiça, Loucura e Morte”, de Sara Gay Forden, o filme poderia rumar para caminhos diversos; poderia ser um filme de máfia, a história de um crime ou até mesmo uma comédia de erros sustentada por sotaques exagerados (como são). Ridley Scott aproveita um pouco de todas as ideias para recontar a história do assassinato de Maurizio Gucci (Adam Driver) planejado pela ex-esposa, Patrizia Reggiani (Lady Gaga).

“Casa Gucci” tem um ótimo primeiro ato em que o texto apresenta os protagonistas em uma relação afetuosa e sexy durante os anos 1970. A opção por abrir o filme desta forma funciona para quebrar as expectativas geradas pela história que desencadeia no notório crime. Patrizia era uma mulher simples, mas cheia de autoestima, que encontrou em Maurizio, um sujeito popular, mas sem muito tato social, sua alma gêmea. A construção da relação desses opostos funciona para imprimir uma dinâmica ao relacionamento e à narrativa.

A história de amor se transforma quando entra em cena Rodolfo Gucci (Jeremy Irons), pai de Maurizio, que obviamente enxerga em Patrizia uma golpista doida para se aproveitar da fortuna da família. A família, vale dizer, é retratada como manipuladora e com as rédeas da vida de Maurizio sendo conduzida pelos homens Gucci desde sempre. Cansado, ele se afastou dos negócios da família, mas acabou convencido por Patrizia a retornar após convite do tio Aldo (Al Pacino) - apenas dois homens poderiam assumir o controle dos negócios, Maurizio e o bobalhão Paolo (Jared Leto).

Passado o momento de apresentação das dinâmicas da família, “Casa Gucci” perde o ritmo. Patrizia, tão bem construída nos primeiros 50 minutos, assume uma postura diferente, se mostrando uma alpinista social ambiciosa de poucos escrúpulos. A mudança comportamental dá espaço para Lady Gaga brilhar com uma personagem mais complexa, que usa o charme a seu favor sempre que pode.

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Lady Gaga e Adam Driver no filme "Casa Gucci". Crédito: Universal/Divulgação

Essa transformação da personagem, no entanto, gera um distanciamento do público, pois nunca entendemos ao certo o motivo da mudança comportamental. O texto também entrega a simpatia da audiência nas mãos de Maurizio, que se transforma quase numa bússola moral da família, tendo que lidar com os jogos de poder e as disputas por dinheiro das quais ele sempre tentou se manter afastado.

Acompanhamos o casamento dos protagonistas se esvaindo quando “Casa Gucci” se transforma em uma grande novelona, sem nenhum demérito no uso do termo justamente porque a história de Patrizia e Maurizio é, sim, digna de uma grande novela. O filme de Ridley Scott busca esse aspecto ao dar bastante atenção a personagens secundários que pouco acrescentam à trama principal - com o elenco de apoio que tem nomes como Al Pacino, Jeremy Irons, Jared Leto e Salma Hayek, é até comprensível que o cineasta queira dar tempo de tela a eles.

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Jared Leto no filme "Casa Gucci". Crédito: Universal/Divulgação

“Casa Gucci” tem boas atuações, com Gaga conferindo a Patrizia um charme de elite, mas nunca se esquecendo das raízes populares. Ainda assim, é Driver quem se sai melhor pela transformação de Maurizio ao longo do filme. Al Pacino também funciona be, mas o mesmo não pode ser dito de Jared Leto. O ator é o epítome do exagero em cena, o que dá ainda mais destaque à maquiagem e ao péssimo sotaque italiano - difícil entender como o deixaram atuar dessa forma. O problema é que Paolo ganha destaque na segunda metade do filme e o personagem faz com que o público sinta o peso da duração de “Casa Gucci”, que ultrapassa duas horas e meia.

Apesar de todo tempo de filme, o roteiro torna Patrizia uma coadjuvante no terceiro ato e nunca a vemos se transformar na mulher que arquitetou a morte do ex-marido. Sem esse desenvolvimento, o clímax de “Casa Gucci” se torna bem menos interessante e sem o peso necessário para fechar a trama, algo imperdoável em uma história da qual já sabemos o desfecho.

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Filme "Casa Gucci". Crédito: Universal/Divulgação

O filme poderia dar menos importância a personagens secundários, enxugar a trama e torná-la mais ágil. Ao optar por um novelão, Ridley Scott opta também por sacrificar o desenvolvimento de arcos e personagens, chegando até a tirar o foco dos personagens que deveriam ser protagonistas - a empresa se torna o foco da narrativa e deixa de lado qualquer identificação que tínhamos com Patrizia e Maurizio.

“Casa Gucci” tem ótimo início, mas um desenvolvimento irregular e conclusão falha. Ainda assim, o filme de Ridley Scott, quando larga o ar novelesco e se aproxima de seus personagens principais, tem boas doses de “O Poderoso Chefão” e uma história trágica que poderia ser utilizada com mais impacto.

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