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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

Carla Diaz é destaque em irregulares filmes sobre Suzane Von Richthofen

“A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais” chegam nesta sexta (24) ao Amazon Prime Video com diferentes visões do crime que chocou o Brasil

Vitória
Publicado em 23/09/2021 às 17h09
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Carla Diaz vive Suzane Von Richthofen em filmes lançados pelo Amazon Prime Video. Crédito: Stella Carvalho/Divulgação

Em março de 2020, a sessão dupla sobre o caso Suzane Von Richthofen estava pronta para chegar aos cinemas, com ingressos já sendo vendidos e uma curiosidade quase mórbida sobre o caso da menina que assassinou os pais ao lado do namorado, Daniel Cravinhos. Veio a pandemia e os cinemas, obviamente, fecharam. O interesse sobre os filmes se esvaiu e ninguém mais se importava quando eles chegariam às salas. Veio aí o grande plot twist, ou a reviravolta da história toda: o “Big Brother Brasil” deste ano, com a presença de Carla Diaz, que interpreta Suzane nos filmes.

Empolgada com a popularidade da atriz no programa (e ela falava sobre o filme lá dentro), a distribuidora tinha dois caminhos: esperar os cinemas reabrirem ou negociar com uma plataforma de streaming e aproveitar o hype em cima do nome da atriz. A escolha foi pela primeira opção, e não parece ter sido uma escolha acertada. Apenas nesta sexta (24), seis meses depois da saída da atriz do reality, os filmes estão sendo lançados.

“A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais” chegam ao Amazon Prime Video com pompa de grande lançamento e trazendo versões diferentes para o crime. Dirigidos por Maurício Eça e escritos pela dupla Ilana Casoy e Raphael Monte (“Bom Dia, Verônica”), os filmes se completam na tentativa de apresentar uma história ampla, mas também se repetem no início e no fim - o que importa aqui é o que se passa no meio de cada obra.

A construção de ambas é interessante, um trabalho de edição e roteiro que funciona ao mostrar em um filme algo apenas citado no outro. Isso também torna os dois filmes uma obra só, sem que nenhum deles funcione como um filme independente. A diferença, óbvia, está no tom de cada um.

Quando é Daniel Cravinhos (Leonardo Bittencourt) narrando os fatos, no primeiro filme, Suzane é vista como uma jovem rica e mimada, uma menina com traumas familiares frutos de abuso dos pais; uma manipuladora que se aproveitou de sua paixão por ela para colocar em prática suas fantasias e planos macabros.

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Carla Diaz vive Suzane Von Richthofen em filmes lançados pelo Amazon Prime Video. Crédito: Stella Carvalho/Divulgação

Já quando Suzane (Carla Diaz) conta a história, no segundo, Daniel é retratado como um jovem pobre e ambicioso que cresceu perto do crime e viu na namorada uma possibilidade de ascensão social. Assim, segundo Suzane, foi Daniel, controlador e abusivo, quem a convenceu a matar os pais ricos para colocar as mãos em uma polpuda herança.

Ilana Casoy e Raphael Montes têm dito que se mantiveram “fiéis aos documentos” para fugir de polêmicas sobre o caso. É estranho, assim, que a dupla tenha optado por deixar de fora o depoimento de Andreas, irmão de Suzane, que derruba algumas das narrativas criadas pelos depoimentos dos assassinos.

É claro, a ideia dos filmes é contrapor os dois depoimentos, mas o resultado é que eles quase se anulam, deixando o espectador à deriva acerca do que realmente aconteceu e dando a ele pouco sobre o que pensar a respeito. Ainda, ter o depoimento de Andreas, fundamental para o julgamento, seria uma reviravolta interessante para o que foi mostrado antes.

A dedicação de Carla Diaz aos filmes é visível. Em uma atuação cheia de camadas, ela se sai bem nas duas narrativas, tanto como a psicótica e traumatizada menina rica quanto como a recatada menina de família influenciada pelo namorado perigoso. Nas cenas do tribunal, é possível ver Suzane como uma manipuladora capaz não apenas de mentir, mas principalmente de ser bem flexível com a linha que separa os fatos das mentiras. A química da atriz com Leonardo Bittencourt nas cenas que recheiam ambos os filmes também é bem interessante - Suzane é uma personagem, em ambas as histórias, intencionalmente exagerada pelo roteiro e por sua intérprete, mas Daniel é um sujeito mais “real”, o que chega até a assustar em algumas sequências.

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Carla Diaz vive Suzane Von Richthofen em filmes lançados pelo Amazon Prime Video. Crédito: Stella Carvalho/Divulgação

Somados, os dois filmes têm cerca de 2h40 de duração. Ao assistir aos dois, em sequência, a impressão é de que a história seria mais eficaz em um único filme de cerca de 2h15 e um texto que contrapusesse os depoimentos. Ainda assim, é inegável a ousadia do projeto e a boa condução de Maurício Eça. “A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais” são produtos interessantes e que talvez precisassem ser refinados - rever cenas com pequenas mudanças nos dois filmes é uma experiência narrativa que vale a pena, mas o filme também repete algumas delas exatamente da mesma forma.

Talvez os filmes funcionem melhor para quem não acompanhou a história, da mesma forma que provavelmente acontece quando acompanhamos por aqui filmes e séries sobre crimes reais ocorridos em outros países. A ignorância sobre os fatos nos faria ignorar haver muito mais do que é mostrado em quase três horas de filmes. Os dois depoimentos são obviamente narrativas de cada um dos envolvidos e não necessariamente caminham juntos à realidade. O problema é que, ao optar por essa narrativa subjetiva, texto e direção optam por não mostrar, ao fim, uma história que se aproxime da realidade, um erro crasso para uma obra que se vende como “true crime”.

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