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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"The Voyeurs": thriller erótico da Amazon se perde em virada medonha

Em "The Voyeurs" ("Observadores"), um jovem casal passa a bisbilhotar a intimidade dos vizinhos. Filme tenta ser sexy, mas tem roteiro preguiçoso

Vitória
Publicado em 18/09/2021 às 14h56
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Filme "The Voyeurs" ("Observadores"), da Amazon Prime Video. Crédito: Amazon Prime/Divulgação

Vivo escrevendo sobre as fórmulas e suas utilizações no cinema. Realmente, não há nada errado em seguir esta ou aquela fórmula, é como a indústria funciona. “The Voyeurs”, ou “Observadores” (a Amazon Prime usa os dois títulos), tem uma inspiração óbvia, “Janela Indiscreta” (1954), um dos vários clássicos de Alfred Hitchcock, para tentar criar um thriller erótico que até tem seus momentos, mas se perde em suas necessidades de enganar o espectador.

Escrito e dirigido por Michael Mohan, “The Voyeurs” é a história de um jovem casal, Pippa (Sydney Sweeney) e Thomas (Justice Smith), enfim tendo o seu próprio cantinho para dar início à vida adulta a dois. O novo apartamento tem janelas enormes, daquelas que possibilitam ver tudo lá dentro, e o mesmo acontece no prédio da frente.

Logo no primeiro dia de casa nova, Pippa e Thomas veem um belo e jovem casal tendo relações. Logo eles percebem que o sexo na casa dos vizinhos é algo frequente, mas nem sempre entre marido e mulher… Não demora para eles criarem certa obsessão pelos vizinhos, algo potencializado quando Pippa por acaso conhece Julia (Natasha Liu Bordizzo) e ambas criam um vínculo.

“The Voyeurs” se esforça para criar um clima de thriller erótico e até consegue em um primeiro momento. Michael Mohan e a diretora de fotografia Elisha Christian, que já trabalharam juntos na série “Everything Sucks”, conseguem criar um clima de perigo, uma sensação de que Pippa e Thomas estão fazendo algo proibido e sexy ao observar Julia e Seb (Ben Hardy). A produção entende bem que às vezes é melhor não mostrar, ficar na provocação.

Mesmo se mostrando um tanto ingênuo desde o início, o texto é esperto e não demora a colocar suas peças em movimento. Pippa e Thomas parecem ter problemas que vão além da obsessão pelos vizinhos, quase como se o “próximo passo” na relação fosse uma tentativa de salvá-la. Assim, observar problemas de outros, como em um reality show particular, oferece um frescor à relação.

Os problemas do roteiro começam quando a obsessão ganha novos contornos - de repente, o jovem casal não quer apenas ver o que se passa no agitado apartamento vizinho, mas também ouvir. Dá-se início, então, a uma escalada de absurdos que se encadeiam até o medonho terceiro ato do filme.

“The Voyeurs” se perde na ideia e oferece alguns momentos de vergonha alheia para o espectador, como toda a sequência da impressora, fundamental à trama do filme. Enquanto Sydney Sweeney e Justice Smith até convencem como o problemático casal (apesar dos diálogos artificiais), Ben Hardy e Natasha Liu Bordizzo têm atuações beirando a canastrice.

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Filme "The Voyeurs" ("Observadores"), da Amazon Prime Video. Crédito: Amazon Prime/Divulgação

A virada que dá início ao terceiro ato é daquelas capazes de fazer o espectador se contorcer de vergonha no sofá. A questão não é o teor da virada, mas a maneira como ela é conduzida, sem ter sido dado dica alguma antes e realizada pelo simples intuito de chocar a audiência. Daí pra frente, “The Voyeurs” é ladeira abaixo. O texto deixa de lado toda a provocação e a sensualidade de seus momentos iniciais e se transforma em algo diferente.

Os acontecimentos, que obviamente não serão revelados aqui, não suportam uma simples análise lógica, principalmente os dos 15 minutos finais. O filme tenta discutir uma suposta falta de privacidade, o preço que se paga pela exposição e a maneira como a vida de todos é pública, mas o faz em um diálogo tosco que ainda é muito prejudicado pela atuação de Hardy. A tentativa de justificar as ações dos personagens é completamente equivocada e os argumentos utilizados pelo filme são simplistas, algo facilmente derrubado por qualquer um com o mínimo de noção da realidade.

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Filme "The Voyeurs" ("Observadores"), da Amazon Prime Video. Crédito: Amazon Prime/Divulgação

Falta ao filme de Michael Mohan a sutileza que ele tem nos momentos iniciais apesar dos péssimos diálogos e de toda a exposição didática. Ao invés de provocar o espectador com um “você observaria?”, o roteiro prefere subestimar a inteligência de todos com situações improváveis - um repentino conhecimento sobre espionagem, a impressora como recurso e o total absurdo de tudo que envolve o terceiro ato.

“The Voyeurs” é uma oportunidade desperdiçada, um filme esteticamente bem feito, mas com um texto horroroso e algumas soluções preguiçosas. O roteiro parece ter sido escrito por um adolescente interessado apenas em criar uma trama “de impacto”, sem se preocupar com a lógica ou com os furos deixados pelo caminho, para preencher o espaço entre algumas cenas de nudez feminina.

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