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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Arquivo 81": série de terror da Netflix é uma ótima surpresa

Misturando diversos subgêneros do terror em uma narrativa sempre em crescimento, "Arquivo 81" brinca com a paranoia e o sobrenatural

Vitória
Publicado em 18/01/2022 às 21h29
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Série "Arquivo 81", da Netflix, mistura diversos elementos do terror. Crédito: QUANTRELL D. COLBERT/NETFLIX

“Arquivo 81” não é uma série de consumo fácil e pode ser até um pouco cansativa para uma maratona, mas é uma obra que recompensa o espectador. O nome de James Wan (“Invocação do Mal” e “Aquaman”) entre os produtores chama a atenção, mas a série de terror lançada pela Netflix busca outro ritmo, tirando o máximo de proveito de uma narrativa longa e bem desenvolvida.


Em oito episódios de cerca de 50 minutos, “Arquivo 81” acompanha o arquivista Dan Turner (Mamoudou Athie), um especialista em restauração e digitalização de material danificado. Dan tem um emprego estável, mas recebe uma proposta irrecusável do misterioso milionário Virgil Davenport (Martin Donovan) para restaurar fitas VHS resgatadas de um incêndio. O problema é que elas foram tão danificadas que não podem ser transportadas para outro lugar, ou seja, Dan se muda para o meio do nada, sozinho e sem contato com o resto do mundo, para a execução do trabalho.

O material é uma série de fitas que contam as histórias dos moradores de um prédio que pegou fogo em 1994, um edifício que já havia sido construído no terreno de uma mansão que também acabou em chamas em 1920. Acompanhamos Dan assistindo às imagens registradas por Melody Pendras (Dina Shihabi), uma estudante que busca registrar tudo no local e entrevistar os moradores, pois sua mãe morou no prédio há algum tempo. Em determinado momento, Dan começa a perceber haver algo mais naquelas fitas e na proposta que aceitara.

O cenário e a prévia informação de que Dan já teve alguns problemas psicológicos no passado inicialmente nos remetem a algo próximo de “O Iluminado”, com um personagem no limite de sua sanidade. De fato, o conflito inicial da série, quando as primeiras manifestações estranhas surgem, é o questionamento acerca da veracidade daquilo que é vivenciado pelo protagonista.

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Série "Arquivo 81", da Netflix, mistura diversos elementos do terror. Crédito: QUANTRELL D. COLBERT/NETFLIX

“Arquivo 81” brinca com a estética das obras “found footage” de maneira eficaz - “você acha que os caras de ‘A Bruxa de Blair’ inventaram aquilo?”, brinca um personagem. A qualidade do material possibilita que Dan enxergue - ou acredite ter enxergado - coisas estranhas nas imagens e nos leve junto em seus questionamentos, criando parte da tensão inicial da série.

A narrativa é inicialmente dividida entre Dan e Melody à medida que as fitas vão sendo analisadas. “Arquivo 81” é esperta ao não abusar das imagens antigas, utilizando apenas trechos delas para levar o espectador ao momento em que elas foram registradas por Melody, como se a imagem tosca fosse apenas um portal de entrada para o passado e as experiências de outra pessoa.

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Série "Arquivo 81", da Netflix, mistura diversos elementos do terror. Crédito: QUANTRELL D. COLBERT/NETFLIX

A narrativa cadenciada cria climas distintos durante as quase oito horas de série; há momentos em que tudo parece uma grande conspiração, em outros, parece que estamos diante de uma trama básica de terror, mas tudo muda para uma possível paranoia antes de ganhar uma nova direção lá pelo quinto episódio, quando “Arquivo 81” começa a mostrar sua verdadeira cara.

Quando mergulha no terror sobrenatural, a série da Netflix deixa de lado toda sutileza com a qual fora inicialmente construída. Neste ponto, “Arquivo 81” opta por uma saída um tanto quanto cômoda ao utilizar-se de diálogos expositivos e extremamente didáticos para “explicar” (as aspas são importantes) o que foi visto até ali e as possibilidades adiante. A escolha é curiosa, pois há um episódio que nos leva ainda mais ao passado e quase dispensa algumas explicações. Ainda assim, mesmo explicando tudo, em determinado ponto a suspensão da descrença é imprescindível.

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Série "Arquivo 81", da Netflix, mistura diversos elementos do terror. Crédito: QUANTRELL D. COLBERT/NETFLIX

Apesar da temporada irregular, a showrunner Rebecca Sonnenshine (produtora de “The Boys”) consegue criar uma narrativa coesa e surpreendente que cresce sem pressa, imprimindo um ritmo interessante à série - algo no estilo “Missa da Meia-noite”, mas sem o excesso de monólogos.

“Arquivo 81” é uma boa e surpreendente série de terror que usa bem subgêneros variados, brincando tanto com o real quanto com o sobrenatural para criar tensão e oferecer alguns sustos a seu público. Ainda, com boas atuações e um texto bem construído, a série prende a atenção e faz com que nos importemos com aqueles personagens (pelo menos com alguns deles). A temporada tem altos e baixos, algo normal para uma narrativa longa, e um final que, apesar de satisfatório, deixa possibilidades abertas para novos episódios.

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