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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

"A Escavação": filme da Netflix é um elegante ensaio sobre o fim

Com classe, elegância e grande elenco, filme britânico "A Escavação", da Netflix, reconstrói uma das maiores descobertas arqueológicas da Europa

Vitória
Publicado em 30/01/2021 às 15h06
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Filme "A Escavação", da Netflix. Crédito: Larry Horricks/Netflix

Em 1939, às vésperas da entrada da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, o autodidata escavador amador Basil Brown encontrou um grande tesouro na propriedade de Sutton Ho, ao Sul da Inglaterra. Comprada pelo casal Frank e Edith Pretty, a propriedade era calma, mas com uma topografia diferente que gerava vários boatos sobre o que teria acontecido por lá séculos antes.

Após a morte de Frank, Edith resolveu escavar a terra para desvendar seus mistérios. Na primeira escavação, já com o auxílio de Basil, eles encontraram três túmulos em um monte pequeno de terra . Mais tarde, Basil resolveu escavar um monte maior e mais próximo da casa de Edith, lá descobriu restos de um barco, um “navio fantasma” contendo diversos artefatos, caixões e história.

Primeiramente tida como uma embarcação viking datada da chegada e ocupação dos nórdicos na Inglaterra, a descoberta datava de antes, do Império Bizantino, e mostrava que os anglo-saxões, ao contrário do que se acreditava, eram um povo socialmente organizado, bem diferente da ideia que os ingleses tinham da “Idade das Trevas”.

Desde o início, há em “A Escavação”, filme lançado nesta sexta (29) pela Netflix, a eminência do fim. Dirigido pelo jovem australiano Simon Stone, o filme recria os momentos da descoberta do “navio fantasma” com elegância e até uma urgência inesperada para esse tipo de narrativa.

O filme já começa com a chegada de Basil (Ralph Fiennes) à propriedade de Edith (Carey Mulligan). Pouco depois já acompanhamos os dois em campo e o início das escavações. Não demora também para que o barco seja descoberto, e é a partir daí que “A Escavação” se desenvolve. A descoberta faz com que a Coroa Britânica envie arqueólogos para a região. Todas as pessoas que lá chegam são, de alguma forma, afetadas pela descoberta.

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Filme "A Escavação", da Netflix. Crédito: Larry Horricks/Netflix

A relação entre Basil e Edith é silenciosa, de respeito e admiração, mas também de muitas interrogações. Ela lida com a proximidade do fim enquanto ele entende a possibilidade de ter seu nome na História. É interessante que o filme trate da importância da descoberta ao mesmo tempo em que convive com a destruição eminente - aviões da Força Aérea Britânica sobrevoam o local da escavação diariamente. Por momentos, também acompanhamos Londres às vésperas dos bombardeios alemães. No momento em que descobrem um artefato histórico, o legado britânico se vê em risco de destruição.

Aprendendo sobre o passado e diante de algo grandioso, tudo parece pequeno para aquelas pessoas que, de uma forma ou de outra, convivem com esse paradoxo. O roteiro dá espaço para subtramas, como a do casal Peggy (Lily James) e Stuart (Ben Chaplin) e seus respectivos conflitos (não vou entrar em spoilers). “A Escavação”, assim, quase esbarra no melodrama, mas se afasta com classe e elegância.

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Filme "A Escavação", da Netflix. Crédito: Larry Horricks/Netflix

Simon Stone usa elipses para tratar a escavação, sua verdadeira protagonista, como uma memória. Há saltos temporais e até diálogos em que os personagens não mexem a boca, como uma história narrada e construída por eles mesmos a partir de recortes de lembranças. Isso também reforça o clima de sonho em alguns relacionamentos, principalmente no arco de Peggy.

“A Escavação” é um filme surpreendentemente fácil, o que acontece principalmente pelas atuações de Carey Mulligan (que substituiu Nicole Kidman aos 45 do segundo tempo) e Ralph Fiennes. Edith é construída como uma mulher fisicamente frágil, mas moralmente imponente não apenas por seu status.

Já Basil é um sujeito que luta contra o mundo por não ter uma educação formal sobre o assunto, mas possuir mais conhecimento sobre ele do que todos envolvidos. Edith enxerga isso, mesmo em poucas palavras - ambos são introspectivos, silenciosos, mas se entendem nos gestos, nas atitudes e nos olhares.

A ausência de grandes embates e de uma narrativa mais convencional pode incomodar, mas o filme de Simon Stone tem seu conflito principal sustentado pelo antagonismo entre mortalidade e legado. “A Escavação” é um filme delicado, construído com classe e elegância que funciona quase como uma homenagem a pessoas que por anos ficaram apagadas da História.

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