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Francisquinha Alves: idosa com Alzheimer "cura" preconceito com vídeos

No YouTube, professora aposentada com Alzheimer é verdadeiro fenômeno e tem mais de 120 mil inscritos e vídeos com quase 1 milhão de visualizações; “Francisquinha Alves – O Bom do Alzheimer” quer "curar" o preconceito que a sociedade tem com a doença

Publicado em 09/03/2020 às 07h00
Atualizado em 09/03/2020 às 07h00
Francisquinha Alves, a idosa com Alzheimer que bomba na web mostrando lado bom da doença. Crédito: Reprodução/Instagram @obomdoalzheimer
Francisquinha Alves, a idosa com Alzheimer que bomba na web mostrando lado bom da doença. Crédito: Reprodução/Instagram @obomdoalzheimer

O diagnóstico do Alzheimer pode ser sinônimo do fim para muita gente. Mas Francisquinha Alves, de 85 anos, portadora da doença, ficou famosa na web protagonizando em vídeos feitos pela filha, Cláudia Alves, de 58. Nas gravações, que têm até 988 mil visualizações, a primogênita exibe “o lado bom” – como ela mesma diz – da condição da mãe. 

A idosa realmente pode não se livrar da doença, que acomete estimadamente 1,2 milhão de pessoas só no Brasil. Mas com seus vídeos, Francisquinha e a filha dão uma aula e tanto sobre como curar o preconceito. 

Tudo começou em 2016, quando Cláudia não aguentava mais ver só coisas negativas ligadas ao Alzheimer na internet. “Não é bem preconceito, é que as pessoas não conseguem cuidar com leveza. Porque já existe esse estigma de que é um terror. Quando a pessoa descobre que o parente está com Alzheimer é o fim”, diz, em bate-papo exclusivo com A Gazeta.

A coluna descobriu o canal de Francisquinha pelas voltas no YouTube. E ficou admirada com a forma como a simpática idosa era tratada pela filha, que há 10 anos parou de trabalhar para se dedicar aos cuidados com a mãe. A professora aposentada foi diagnosticada há 8 anos.

“Ela conseguiu esconder a doença subconscientemente por muito tempo e ninguém percebeu. Ela era professora, uma pessoa superinteligente. Às vezes ela deixava um recado para mim, escrito à mão, e eu via que faltavam sílabas, por exemplo. E eu pensava: ‘Nossa, tadinha, ela não percebeu’. Mas já era o Alzheimer”, lembra.

Cláudia Alves e a mãe, Francisquinha Alves. Crédito: Reprodução/Instagram @claudia.alves.s
Cláudia Alves e a mãe, Francisquinha Alves. Crédito: Reprodução/Instagram @claudia.alves.s

Cláudia Alves

Youtuber

"O canal é terapêutico para mim, também, porque as pessoas interagem comigo, conhecem a doença. O cuidador é um solitário. Imagina você ficar 12 horas por dia com uma pessoa que não interage, que você não consegue ter um diálogo. Porque eu converso com ela na língua dela"

Desde então, Cláudia, o marido, a filha e seus dois netos vivem no mesmo apartamento, no Rio de Janeiro, e aprenderam a lidar um com o outro da melhor forma possível. “Todos os dias, tenho uma pessoa que me ajuda, cuida da casa. Só chamo a cuidadora aos fins de semana. É a minha folga (risos). A relação entre todos nem sempre é tranquila, mas vamos levando. Estou testando a quarta cuidadora, porque, se ela (Francisquinha) tomar ‘ranço’, não tem jeito”, dispara.

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CANABIDIOL PARA TRATAR O ALZHEIMER

A medicação tradicional usada no tratamento contra o Alzheimer foi criada há mais de 15 anos. E, até hoje, não mudou. “Não existe nenhum medicamento novo que pare a doença. Têm estudos e tudo o mais, mas em efetivo não há nada. Ela começou tomando três remédios, o médico foi tirando e ficou um só”, conta, explicando que foi nesse momento que decidiu experimentar o uso canabidiol – composto químico encontrado na maconha – na mãe.

Cláudia Alves

Youtuber

"Minha esperança não é a cura. É de segurar um pouquinho a progressão da doença para ela não passar para a fase final do Alzheimer"

Cláudia esclarece que a doença tem três fases: a inicial, quando os primeiros sintomas (tímidos) começam a aparecer; o de transição, quando a cognição e memória já ficam bastante comprometidos; e o final, que geralmente é com o paciente acamado, sem falar e nem engolir. “Ela está com 85 (anos). Se ela tiver que partir, que seja de outra coisa. Mas que não seja pelo estágio de ficar acamada, parar de falar, parar de engolir... E por isso comecei com o canabidiol”, fala.

Depois de começar com o insumo, a filha de Francisquinha diz que a mãe começou a ter mais apetite, teve uma melhora significativa na cognição e no sono. “Antes do canabidiol ela já não lembrava mais o que era unha, por exemplo. Também não lembrava o que eram os óculos. Hoje ela voltou a saber”, exemplifica.

CAMINHADAS, CORDEIRINHA DE DEUS E DONA IRENE

Além dos remédios, a idosa continua a sair e acompanhar Cláudia em vários afazeres na rua. Faz caminhadas de até uma hora diariamente e também vai à igreja. Pelos seus seguidores, é até chamada de “cordeirinha de Deus” de forma carinhosa. Em alguns vídeos, ela solta um “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo”, como se fosse um flash. “Ela sempre foi muito religiosa, ia à missa todo domingo até que se perdeu na volta de casa”, reitera Cláudia.

“Dona Irene” é outro termo que já é considerado bordão de Francisquinha por quem a acompanha. Cláudia afirma que trata-se de sua sogra, mas que as duas nem eram tão chegadas assim. “Meu marido é filho único, como eu, então elas tinham uma ‘implicânciazinha’ uma com a outra. Eu acho engraçada essa lembrança dela, porque elas nem conviviam tanto assim. Dona Irene não vinha muito aqui para casa”, detalha.

A entrevista terminou com Francisquinha falando ao fundo da conversa deste colunista com Cláudia. Dava para escutá-la conversando com a filha como se as respostas que a cuidadora dava eram para ela mesma. “Está escutando? É ela falando (risos)”, alertou Cláudia.

Pelos cuidados, a idosa só sofre do Alzheimer e não tem nenhuma outra doença. O esforço que Cláudia faz, também, não é em vão. E ela faz tanto, mostrando a mãe na web, com um objetivo: o de conscientizar. “O que me incomoda nas pessoas é a revolta. A revolta que as pessoas sentem me incomoda mais que o sofrimento. Sofrer, eu também sofro. Mas não me revolto”, finaliza.

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