Claro que não ia dar certo.
Os habitantes do continente mais charmoso da Terra, - que esbanjando sabedoria, música e paz, foram saudados pela célebre frota de Pedro Alvares Cabral, eu já cansei de contar isso - dançando e cantando nus, jogavam flores e cantavam felizes sem perceber que se tratava de uma invasão e que teriam que escolher entre a morte e a escravidão e perder muito sangue.
Eram muitas caravelas armadas com canhões potentes e outras modernidades, última moda no ano da graça de 1500, época em que países e mais países saiam da Europa à cata de ouro e outras iguarias.
Os nativos não paravam de dançar na praia e cantar apesar de feridos e mortos. O povo que civilizadamente ocupava desde sempre as matas, as montanhas, as águas não tinha resposta para o argumento baseado em pólvora e soldados treinados.
Não podíamos dar certo como nação independente.
E assim o Brasil foi descoberto e encoberto.
Os portugueses faziam, aconteciam, e não, fundamentalmente não, tinham porque se preocupar com reação. É possível que o presidente Trump, dos Estados Unidos, tenha lido sobre isso, não sei.
Daí em diante nada mudou.
Os invasores declararam inexistentes os únicos donos da terra encontrada, enquanto formavam um reinado que ia se alastrando pela imensidão do país, sobre a forma de colônia, império e república (diga-se de passagem, o quadro de Pedro Américo, retratando a Independência do Brasil, é obra de ficção e história mal contada, como são todas as histórias).
Então.
Depois de fundar o pioneiro botequim da esquina e a primeira padaria, os invasores dedicaram-se aos habitantes, donos do pau-brasil que era como ouro brotando da terra e outras milongas mais. Os gênios da navegação lusa achavam que haviam chegado às Índias, e impuseram aos portanto índios a forma de relação entre violência e submissão, a escravidão que permanece até hoje, e de quebra a sífilis.
Demorou pouco para que os nativos reagissem, não com a mesma amabilidade, mas bem colocados no meio das selvas com suas aldeias itinerantes e muito veneno na ponta de lança, mostrando que dessa cumbuca não iriam tirar farinha na moleza.
Os invasores cansados de não conseguir escravizar os donos da selva, dada a agora estabelecida resistência organizada com inteligência por eles, partiram para achar seus escravos na África. Foi a era que os navios negreiros repletos de prisioneiros desembarcaram no Brasil.
Até hoje, os brasileiros nativos também conhecidos pelo codinome índios, na falta de uma providência, passam vexames semelhantes. Vide, por exemplo, a Amazônia. Continua sendo invadida pelos poderosos seringueiros e fazendeiros.
Com a sutileza de sempre, há 525 anos, matas são queimadas, crianças morrem de fome e doenças, o povo continua submetido ao lucro sem que nada de fato seja apurado e coibido. Vive de promessas. A legislação brasileira parece ser uma ficção.
Como acontece em todo país, os principais delinquentes que se escondem atrás de grandes muralhas políticas ou financeiras constituem uma imensa PEC da Blindagem, ora por acaso muito debatida, sendo que na verdade sempre esteve aí em todas as formas de governo e governantes.
Se em 1500 havia canhões contra a cultura dos povos da selva, hoje temos violência para todos os gostos: Orçamento Secreto, a bandidagem enlouquecida das ruas no grotesco do cotidiano, a impotência governamental mal disfarçada diante das imposições do capitalismo perverso, a roubalheira do INSS que prejudicou a plebe rude… É a praga da repetição que assola o país que já passou por quase todas as formas de governo.
É a riqueza multiplicando ricos e a pobreza,
Para onde a senhora olhar, vai ver alguém ferindo a honra do país, ou seja, a sua dignidade.
Ego sunt bagus plenus.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, foi visitar seu primo, o Embargo Infringente.