Quando e se eu vier a morrer, quem quiser chorar por mim que chore, mas prefiro que me incluam nas suas lembranças e nas imaginações prazerosas. Eu também vivo de lembranças. Estarei sorrindo, amigos ou não.
Como no dia de carnaval, na Barra do Jucu, quando cantamos em cima do carro alegórico o samba-enredo “Ninguém põe no meu, Marquês de Rabicó”.
Ou quando a esperta Quequel Tintin, em plena estação ferroviária de Amsterdã, correu atrás de um ladrão para recuperar a mochila arrancada da gente com tudo dentro. O nativo holandês - não é só brasileiro que rouba - devolveu gentilmente o roubo quando ela o alcançou depois de intensa e olímpica corrida dos dois, um na frente e outro atrás.
Falando nisso, em uma estação italiana de Roma - antigamente, eu viajava bastante - perdi uma carteira com tudo que tinha. Quando me dei conta, voltei ao pátio da estação de onde desembarcara e me informaram que no pequeno escritório de uma empresa ficava uma senhora, que algumas vezes guardava os achados e perdidos.
Eu e minha fluência italiana perguntamos a ela se não haviam entregado lá o indispensável objeto, já sem grandes esperanças. Pediu para descrevê-lo, e prontamente listei o conteúdo. Ela enfiou a mão na gaveta e me devolveu a carteira com tudo dentro. Voltei a respirar e quis retribuir a gentileza elogiando o país dela.
"País maravilhoso esse aqui. Fosse no Brasil, não haveria possibilidade de recuperação."
"Pois foi um senhor brasileiro quem devolveu."
Bem feito, língua de trapo.
Nem só de emendadores parlamentares vive a nossa dignidade, ainda bem.
Então, mudando de pau pra cavaco, lhes apresento, queridos leitores, o cinema mudo.
Em priscas eras, às terças à noite, um grupo constante sempre acabava no Cizino, que ficava no Triângulo das Bermudas, para não fazer nada. Quanta gente boa. Jogávamos um brinquedo que consiste em adivinhar o nome do filme que o cúmplice mostrava com mímica - arte mais conhecida pela torcida como “Cinema Mudo”. Todo mundo ia, Guilherme Lara era o rei dos acertos.
Então.
Eu nasci há dez mil anos atrás.
Lembro também da Carmélia, do Britz, do Serginho Egito. De “O Diário”, da Rua Sete, da velha A Gazeta, no Centro da cidade, da Tribuninha, na Rua Caramuru.
Mais memórias lhes trago na próxima, embrulhadas para presente,
Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda rosnando sobre o tema, com uma frase de Luis Fernando Verissimo: “O mundo não é ruim, só está mal frequentado”.