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Crônica

Professores, amigos e recordações: o Colégio Estadual e seus segredos

Voa não, gavião, deixa eu lembrar, deixa eu viver. Lembranças são a única coisa que existe e que podemos moldá-las, tingi-las, desenhá-las, escrevê-las, falar delas e compor músicas com elas. E tudo que você estiver lembrando e vier a lembrar

Publicado em 22 de Julho de 2025 às 04:00

Públicado em 

22 jul 2025 às 04:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Encontro escondido entre livros queridos, memórias felizes e impressos em cartolina. Dizia que “les amis sont comme les anges on n´a pas besoin de les voir pour sentir leur présence” (Para quem matou as aulas de francês da Dona Liberalina Weil: “os amigos são como os anjos. Não é preciso vê-los para senti-los”).
A memória é isso aí, determinando a vida e a morte das coisas. Esta madrugada, pelas estantes adentro, à cata de felicidade, apareceram dentro e fora delas dezenas de amigos do peito.
Sempre aparece a turma C2 do Colégio Estadual do Espírito Santo, “Estadual “ para os íntimos. Às vezes, baixam as imagens, os sorrisos… Às vezes, a lembrança de corpo e alma inteiras ou em pedacinhos. A lembrança de atitudes, do humor e das tristezas, com lágrimas e sem elas.
Colégio Estadual
Colégio Estadual, em Vitória, nos dias atuais Crédito: Carlos Alberto Silva
Algumas são neste instante terno mais fácil de compor, outras chegam aos poucos. Geralmente, internalizam-se, do jeitinho que as senti. Qual será o mistério dos deuses para nos guardar e dispor da gente na hora que definirem as coisas do céu e do inferno, de um e de outro.
Lembrei de ter lido sobre um célebre encontro entre Chico Buarque, Toquinho e Vinícius, sobre essa volta para viver de novo. Todos queriam voltar igualzinho, exceto Vinicius, por um detalhe: queria mais quando voltasse. Vai saber o que estaria querendo dizer com isso. Só Deus sabe. Meu palpite, que vem da memória, é que ele queria mais sacanagem.
Vamos à memória, então. Voa não, gavião, deixa eu lembrar, deixa eu viver. Lembranças são a única coisa que existe e que podemos moldá-las, tingi-las, desenhá-las, escrevê-las, falar delas e compor músicas com elas. E tudo que você estiver lembrando e vier a lembrar.
Agora estou vendo Nildete, sentada na fila da frente, e seu verde olhar, Pedro Carrancho, Rutilea, Rogério Firme, Recruta Zero ou Paulo Valdetaro, Sonia, a bela, Marília e seus olhos azuis, Paulo Pimpão, Julinho Prattes, Graça Ruy… São os que me chegam agora. Memórias, tudo junto e misturado…
Um toque do meu amigo Boreco lembrou os 100 anos de Mauricio de Oliveira. E eu associei a Tião, seu filho, que era da nossa turma e apertava as primas e os bordões com elegância. Estávamos, todos, claro, no primeiro andar do colégio que ficava no Forte São João, antes da curva e do clube Saldanha da Gama.
E as professoras, de quem você lembra, paciente leitor? Lélia Pagani deixava a turma encantada e apaixonada secretamente. Os professores Kulnig, Pedreira, e outros, davam majestosas aulas. Eram doces como o favo da Jati, do jeito que Monteiro Lobato descrevia Iracema, meu romance predileto aos dez anos de idade, e seguintes.
Isso sem falar nas domadoras de classe que nos prendiam de amor e disciplina, as inspetoras. Vem à lembrança de Dona Chiquinha, rainha da categoria aos 80 anos de idade, nosso amor maior, apontando o indicador para os uniformes fora de forma.
Mas quando precisava de dureza no colégio, não faltava. Uma vez a professora de espanhol, quando entrou na sala, constatou inimitável esculhambação, batucada sobre um samba da moda. Entrou e deu a nota:
  • Isto é uma aula ou uma jaula? 
Não. Era o famoso segundo ano científico para Medicina exibindo o seu talento. Aliás, quase todo mundo passou no vestibular.
Alguns de nós já foram, outros ficaram, mas todos ainda com o uniforme impecável do Estadual - calça cáqui e blusa azul.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda espalhando que memória só existe se agregada a um objeto como um bebê que ao nascer chora e berra até achar o bico do seio da mãe.

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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